Você come dólar sim, estúpido

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Dólar: o impacto do aumento na sua vida.

Com os noticiários diariamente veiculando o aumento do preço do dólar e a constante desvalorização do real, é cada vez mais fácil ler na internet comentários como “eu não como dólar”, “eu ganho em real” ou “dane-se os Estados Unidos”. Em todos os casos, o objetivo deste tipo de comentário é desmerecer a importância da subida da moeda americana e taxar a todos que se preocupam com isso como golpistas, ou simplesmente “capitalistas sem coração”. Embora seja desnecessário, afinal nem mesmo uma sonda conseguiria colocar conhecimento na cabeça dessa gente, escrevemos este texto para mostrar que ao contrário do que dizem, você come dólar todos os dias. E bebe também.

Para ficar mais fácil de explicar e compreender, e sem que seja necessário desenhar com giz de cera, vamos utilizar a carne como exemplo, ok?

Em um mundo onde tudo é industrializado e quase nada é vendido sem que haja nenhum tipo de manipulação por máquinas, o preço do dólar é essencial no valor final cobrado por um produto. Vamos começar com a carne, por exemplo. Nossa produção pecuária é destinada ao consumo interno e à exportação. Vamos dizer que metade do que cresce em nossos pastos vão para fora, e a outra metade é consumida aqui dentro. O aumento do dólar, que acaba tornando a importação da nossa carne mais barata, também faz com que a carne vendida dentro do Brasil encareça, pois é preciso compensar o prejuízo que o produtor tem ao vender aqui e não lá fora.

O exemplo acima explica o aumento causado pela oferta e pela procura, e há a resposta padrão para ele. “Então basta não exportar, eu não sou obrigado a pagar mais caro para que um europeu coma filé mignon”. Certo, mas nem tudo é assim tão simples e transparente.

Mesmo que nenhum quilo da carne fosse exportado, o alto preço do dólar ainda aumentaria o custo na prateleira. Como? Explico. Já que a vigilância sanitária e o Ministério da Agricultura exige uma série de garantias para que a carne (ou qualquer alimento, diga-se de passagem) seja vendida para seres humanos. Isso é feito para que haja segurança total no consumo, e para obter isso os produtores utilizam uma série de remédios, vacinas ou inseticidas e defensivos agrícolas. Como a indústria nacional ainda engatinha neste quesito, um bom quinhão deste material é importado, e com o dólar praticamente dobrando nos últimos quatro anos, é bom levar em conta que o custo que o produtor também dobrou na mesma maneira.

Mas e se todos os medicamentos e etc fossem produzidos no Brasil? Justo. Para que uma fábrica seja montada, há todo um investimento feito com a compra de equipamentos e matéria prima, e quanto mais complexo e desenvolvido ele for, maior é a probabilidade de sua aquisição ser feita no exterior. Neste caso, temos a necessidade da importação, e então o dólar aparece na equação novamente.

Ok. E se TUDO fosse feito no Brasil, não houvesse exportação de nossa produção e não fosse necessário importar um único prego para que tudo fosse produzido? O cenário ainda é o mesmo. Tudo o que é cultivado no ponto A precisa ser transportado para o ponto B, para processar, e então para o ponto C para que você possa comprar no mercado. O Brasil não é auto-suficiente na produção de petróleo e o aumento do dólar, necessário para importar o combustível, faz com que o custo do transporte suba. Há também o gasto com pneu, desgaste dos caminhões, com embalagem, óleo e derivados. Entendeu a cadeia do dólar no caso da carne? Agora aplique ela para a fabricação e venda de um caminhão, de caixa de papelão, da bobina de papel que vai imprimir o recibo da sua compra no mercado da esquina.

Então, meu caro, é evidente que você come dólar sim, e tentar desdenhar da preocupação dos outros com o aumento da moeda americana não é só imbecil, como também beira ao crime.

O pior é pensar que o preço do dólar que já é alto, pode subir ainda mais, pois a crise não é só econômica mas também política, e o mercado enxerga a saúde do governo como um indicador da força da nossa moeda. Como disse Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima, “o problema é que não conseguimos enxergar o que é o preço técnico do dólar, se é que tem. Tecnicamente pode ser R$ 4,00 ou R$ 4,50, depende do grau de   deterioração econômica e política que agora passam a andar de mãos dadas. Isso significa que não tem nada certo em relação ao dólar e juros.”

Resumindo: A alta do dólar vai impactar cada compra que você fizer na sua casa e o aumento da moeda americana não prejudica só a madame que vai para Miami, mas também ao pobre no nordeste que vai passar sede se não comprar uma bomba de extração de água, e a subida dele é extremamente preocupante e perigosa, e você deve se sentir assim ao saber que tem gente que finge não entender isso. Ou é tão limitada  que realmente não compreende.

“Você não está só errado, você é estúpido”

mm

O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

6 COMENTÁRIOS

  1. Perdoem minha ignorância econômica, mas li um texto semelhante no site Spotniks que a explicação do fator importação entra em conflito com a do texto acima. A seguir trecho do texto publicado no site Spotniks:
    “E é justamente neste aspecto do mundo globalizado que o dólar mais impacta a sua vida. Imagine que uma empresa como a JBS – sim, aquela mesmo daquele ator que vive pulando de açougue em açougue na televisão – tenha o direito de escolher entre vender no mercado brasileiro ou exportar com dólar a R$ 4 e ganhar pela mesma quantidade produzida o dobro do que ganharia vendendo com o dólar a R$ 2. Parece claro que ela preferirá exportar, reduzindo a quantidade ofertada no mercado nacional. A consequência? Menos carne à venda no Brasil sem queda na demanda – ou seja: preços maiores.”
    Trecho do texto de vocês que entra em conflito:
    “Vamos começar com a carne, por exemplo. Nossa produção pecuária é destinada ao consumo interno e à exportação. Vamos dizer que metade do que cresce em nossos pastos vão para fora, e a outra metade é consumida aqui dentro. O aumento do dólar, que acaba tornando a importação da nossa carne mais barata, também faz com que a carne vendida dentro do Brasil encareça, pois é preciso compensar o prejuízo que o produtor tem ao vender aqui e não lá fora.”
    Poderiam me explicar isso melhor? Aguado a resposta.

    • João, ambos os textos querem dizer exatamente a mesma coisa. Quando o dólar sobe, a carne brasileira vendida dentro do Brasil fica mais caro, pois o produtor precisa compensar o prejuízo que tem ao não exportar a carne dele, pois com o dólar atual vale muito mais vender um quilo a 4 reais do que a 2. Entendeu? Abraços!

  2. Minha primeira leitura do Econoleigo. Artigo muito bom para “todas” as cores e matizes entenderem as consequências domésticas da alta da moeda americana. Acredito que essa linguagem clara ajudará muito a todos que têm interesse em compreender a dinâmica da economia no cotidiano. Sugiro um artigo sobre a Taxa de Juros nos USA e sua influência doméstica e o “spread” explorado pelos nossos banqueiros, tirando proveito da “confiabilidade” do atual governo e da perda de “credibilidade” de nossa moeda.

  3. 1 – O senhor tem certeza que exportar com o dólar valorizado é prejudicial para o produtor/ empresário?

    2- O preço do maquinário é negociado em dólar no momento da compra, ou seja o produtor/ empresário agrícola que não precisou comprar emergencialmente nenhum maquinário não foi tão prejudicado assim. A não ser pelo pesticida, que aumentou de fato, mas não é suficiente pra aumento brusco nos preços.

    3-http://economia.terra.com.br/quem-ganha-e-quem-perde-com-o-dolar-recorde,2f5989f8292fd09cc07c436a65e7c182b7eu4ooe.html
    4 -http://www.fielcomercioexterior.com.br/k2-ar/k2-categories/item/91-dolar-alto-favorece-exportacoes-das-industrias

  4. Muito bom mas isso é só a metade do problema. Faltou explicar que não é o dolar que aumentou: é que com esse governo incompetente, está ocorrendo fuga de capital por parte de pessoas fisicas e empresas brasileiras e estrangeiras. Quando o dinheiro sai do Brasil mais do que entra, (capital flight) para estacioná-lo em pastagens mais verdes, ocorre o que estamos vendo.

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