Trump, Trudeau e Serra: declarações, posturas políticas e consequências

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A fronteira entre Canadá e Estados Unidos é a maior do mundo. O que acontece em Washington tem impacto direto nas vidas dos cerca de 35 milhões de canadenses. Muitos quilômetros separam os Estados Unidos do Brasil, e o que acontece em termos políticos em terras americanas tem pouco impacto, para não dizer nenhum, na vida dos brasileiros. Com isso em mente, vamos falar um pouco sobre política internacional, a postura dos políticos e suas consequências. Em pauta a postura do Canadá em relação ao Trump e a postura do Brasil sobre o mesmo assunto, e o que cada país conseguiu agindo como agiu.

Dois terços da América do Norte está em chamas. O México convulsiona com o muro de Trump. O Estados Unidos vive em estado de ebulição civil graças ao muro, mas também a uma série de decretos e declarações do presidente americano, principalmente em relação a imigração de muçulmanos. O Canadá? A população vocaciona sua contrariedade com o novo governo do lado sul da fronteira, mas o governo mantém-se neutro e mudo em relação ao que acontece em terras americanas.

Trump é do Partido Republicano, que é conservador e de direita. Trudeau é liberal, mas o termo no Canadá significa o mesmo que progressista, no Brasil. Suas bases são socialistas. No espectro político, estão em extremos tão opostos quanto Paulo Maluf e Lula. Lembram dos embates acalorados e acusatórios entre os dois? Isso não impediu que fosse selada uma aliança entre Maluf e Lula, e PP e PT. Uma aliança por interesses comuns, partidários ou nacionais, supera a consciência ideológica. É isso o que alguns líderes pensam e fazem. Outros, preferem vocacionar sua opinião e bater o pé. Ambas posturas tem consequência. Vamos a elas.

Maluf e Lula acertam apoio do PP ao Haddad: Crédito: Agência Estado

Trump, Trudeau e Temer: As consequências entre opinar e ficar quieto

O gabinete de Trump é formado quase em sua maioria por homens brancos. O gabinete de Trudeau é formado por homens e mulheres de todas as cores. O ministro da defesa, por exemplo, é um imigrante indiano de cor escura. O gabinete de Michel Temer é, pelo menos em composição social e de gênero, muito parecido com do presidente Trump.

Por que é então que Justin Trudeau ficou quieto sobre as declarações “absurdas” de Trump? Simples. O Canadá divide a maior fronteira do mundo com os Estados Unidos. Graças ao NAFTA, circulam cerca de 2 bilhões de Trumps todos os dias entre os dois países. Quando Trump atacou o México, e eles retrucaram, o presidente americano disse que iria interromper e rever o NAFTA, que é o primo norte-americano que funciona do Mercosul. Se isso acontecer, México e Canadá sofrem, e sofrem muito.

Justin Trudeau, filho do ex-primeiro ministro Pierre Trudeau, ícone da esquerda canadense e que comandou o país durante os anos de ouro da Guerra Fria, é um político inteligente. Trudeau visitou os Estados Unidos ontem. Foi o quarto líder mundial a visitar Trump. Ao ser perguntado sobre o que achava sobre a proibição da imigração defendida por Trump, Trudeau esquivou (e sim, amigos, ele é apaixonadamente contra a proibição) e disse que “a última coisa que os canadenses esperam de mim é que eu venha aqui passar sermão em como um país lida com seus próprios assuntos”. Donald Trump está sofrendo muitos ataques por ter usado a presidência para defender a filha Ivanka Trump, empresária. Ciente disso, o governo canadense levou a tira-colo uma série de empresárias (todas mulheres) para uma reunião bilateral de líderes e mulheres de negócios para tratar de empreendedorismo feminino. Como quem não quer nada, Trudeau deu a chance para Trump defender e falar sobre Ivanka, um tema sensível, sem ser criticado. Resultado? Ao fim da visita Trump afirmou que o NAFTA, pelo menos no que envolve Canadá e Estados Unidos, não será alterado e que a riqueza do continente, que deveria ficar até então, pelas palavras dele, restrita aos Estados Unidos, agora deve ficar no continente. Na parte que fala inglês.

Política é mais do que falar. Às vezes, é não falar.

Vamos voltar ao Brasil. Na reta final da eleição, o ministro das relações exteriores, José Serra, deu uma entrevista em que disse que “(eu) considero a hipótese do Trump um pesadelo. Pesadelos, às vezes, se materializam? Se materializam, mas eu prefiro não pensar nisso, fazer o jogo do contente”. Antes de crucificar Serra, é preciso entender que quando o Chanceler fala, ele o faz em nome do governo. O Brasil é o maior país da região, é o líder do continente. É natural que a palavra brasileira pese muito. Com a vitória de Trump, essa palavra pesou, mas negativamente. Desde a eleição, Trump só falou com Michel Temer uma única vez, e isso foi quando nosso presidente ligou para parabenizar o americano. De lá para cá, toda comunicação é feita com o vice-presidente dos Estados Unidos, um claro sinal de desprestígio. A coisa piorou quando a Casa Branca informou que o vice ligou sim para o Brasil, mas antes ligou para a Argentina. E que antes disso, Donald Trump diretamente pelo telefone com o presidente do Peru. Esse escanteio internacional é ruim política e economicamente. Em recessão severa, o Brasil depende religiosamente de investimento internacional.

Desapontado…

Resumindo: o caso Estados Unidos, Canadá e Brasil, ou Trump, Trudeau e Serra nos ensina uma coisa. Em política externa, você pode ser falastrão ou quietinho. Há uma consequência para cada atitude. O mundo espera que Trudeau se declare o anti-Trump, e ao deixar de fazer isso, o Primeiro Ministro sacrifica um excelente potencial ganho político por um certo ganho econômico para sua nação. Ao se meter onde não era chamado, o Brasil queimou não só a lingua, mas também os dedos, e é assim que você deve se sentir ao perceber o motivo de, tantos meses depois, nenhuma figura pública do governo tupiniquim ter dado qualquer declaração em relação a Donald Trump (talvez tentando sair do castigo?):

 

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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