Taxi e Uber: Entenda a briga

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Com a situação cada vez mais caótica nos transportes públicos, o consumidor brasileiro que não deseja andar de carro tem hoje três alternativas: andar a pé, chamar um taxi ou chamar um motorista do Uber. Desde que chegou ao Brasil em maio de 2014, a participação do Uber no mercado de transporte individual cresce vigorosamente, e isso não pegou bem para os taxistas, que protestaram nas grandes cidades brasileiras contra o funcionamento do aplicativo. Você pode ler mais sobre isso aqui, aqui e aqui. Se você não quer ler esses três links não tem problema, o Econoleigo explica a briga taxi e Uber resumidamente aqui embaixo:

O transporte individual no Brasil é um monopólio restrito aos taxistas, que dividem essa fatia de mercado entre si em duas modalidades: os “autônomos” e os cooperados, também conhecidos como Rádio Taxis. Até a chegada do Uber, como taxistas só competiam entre si, tínhamos uma situação chamada de monopólio branco, que é quando existe um monopólio “informal”. Ou seja, há muito taxista na rua, mas o preço da bandeirada e por quilômetro rodado é tabelado, e a única diferença de preço que um consumidor pode obter é a “camaradagem” do taxista em optar por um caminho mais curto. Ou não. É o mesmo caso do posto de gasolina.

No caso do Uber, o usuário acerta a corrida pelo próprio aplicativo, que dá ao usuário uma prévia do custo do deslocamento (podendo oscilar para cima ou para baixo, dependendo do trânsito), além de uma explicação do caminho a ser traçado. Isso evita que o passageiro seja conduzido por um caminho mais longo, ou que no final a conta seja muito acima da esperada. Além disso, o Uber possui algumas categorias de carro, indo do sedan executivo (como um Toyota Corolla) a um carro de luxo. Cada categoria possui um preço, e também um conforto. A linha de entrada do Uber garante um carro novo, na cor preta, e que tenha ar condicionado à disposição. Um usuário da linha de luxo do Uber pode esperar que o motorista abra a porta para ele, além de ter a disposição garrafinha de água e muitas vezes serviço Wifi a bordo. Tudo isso deve ter um custo, não? Não. Muitas vezes andar de Uber acaba saindo mais barato do que o transporte feito com taxi convencional.

Por essas e outras, os taxistas estão se sentindo intimidados com a chegada de um concorrente em um mercado até então dominado por eles em um monopólio que já dura anos, e isso faz com que os sindicatos de taxistas organizem protestos em quase todas as cidades onde o Uber está presente. Em algumas cidades os protestos são pacíficos, mas não são poucos os casos de taxistas que depredam carros de motoristas do Uber, incendeiam o veículo ou agridem o profissional concorrente e também seu passageiro.

O caminho para ser proprietário de uma placa de taxi é difícil, caro e burocrático. O primeiro passo é conseguir um alvará, que acontece por meio de sorteio que ocorre raramente, pois há uma limitação do total de taxis por cidade. Se o motorista não teve sorte no sorteio, a opção é comprar o alvará de alguém que já o tenha, mas isso além de ser ilegal, o custo é salgado e chega a custar 500 mil reais em Porto Alegre, e um milhão em Cumbica. No fundo, essa situação acaba gerando algo conhecido como mafia dos taxistas, que é um pequeno grupo de criminosos que paga propina para funcionários da prefeitura para serem sorteados, e com isso ou vendem placas a preços exorbitantes ou repassam essa placa para um motorista autônomo, que paga um aluguel mensal pela “gentileza”.

Olhando agora para o conflito entre taxi e Uber, a situação é mais clara. Os donos dos alvarás criticam o Uber pois ele desvaloriza o produto deles, e o autônomo reclama pois seus lucros diminuem, o que torna sua sobrevivência ainda mais difícil, já que além de pagar o aluguel de algo que deveria ser gratuito, precisam ainda custear a manutenção do carro, impostos e ainda pagar as contas de casa no final do mês.

A rejeição dos taxistas com o Uber é normal e compreensível. Os taxistas reclamam que os motorista dos carros pretos não pagam imposto, e que os condutores do Uber não possuem treinamento, certificação e fiscalização.

Como em qualquer serviço envolvendo um mercado regulado pelo governo, o mediador deve ser o Estado. Com medo da pressão dos placa vermelha (leia-se a máfia dos taxistas), nossos políticos estão tentando de qualquer maneira proibir o funcionamento do Uber no Brasil, como já aconteceu nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Essa é uma medida mesquinha e egoísta, que pune o trabalhador para que o bolso do governo não sinta impacto. Há também toda a pressão do “eleitorado”, já que os taxistas elegem representantes da categoria para as câmaras e assembléia estadual.

A medida ideal e que ajudaria a todos é reduzir a cobrança de imposto de taxi e flexibilizar a liberação de alvarás, o que acabaria com a máfia e daria mais respiro para o orçamento dos taxistas. Além disso, basta exigir que os motoristas de Uber passem por um curso de condução. Feito dessa forma, os taxistas e motoristas de Uber estarão sujeitos às mesmas condições, e a população ganha mais opções de transporte, cabendo a ela optar por algo instantâneo (taxista no ponto) ou algo sob demanda (através do aplicativo do Uber), além de pesar o custo em cada um deles.

Quase todo mundo tem uma história ruim para contar de taxista. Este que vos escreve vai relatar duas, cada qual ocorrida em uma cidade do país, em estados diferentes. A primeira peguei um taxi no aeroporto e pedi para me deixar em um cliente. O taxista foi simpático e atencioso, conversando comigo o tempo todo. Chegando no destino, paguei a conta de 30 reais pela corrida e ainda dei 5 reais de gorjeta. Na vez seguinte, fazendo o mesmo trajeto, utilizei um taxista do aeroporto indicado por um conhecido. Ele fez um roteiro mais curto, foi simpático da mesma forma e a corrida me custou 20 reais, já com a gorjeta. Na outra ocasião, em Belo Horizonte, peguei um taxi na rua e o mesmo, além de ser sem educação, se recusou a ligar o ar condicionado “por estar quebrado” e me fez parar no banco para sacar dinheiro, pois ele não tinha maquininha de cartão, mesmo com adesivo da Visa/Mastercard colado na porta.

A situação como um todo é complexa de ser resolvida, mas simples em sua problemática, pois trata-se de uma minoria que não quer ter seus privilégios alterados (no caso os membros da máfia dos taxistas) e políticos que tem medo de mexer em algo considerado espinhoso. No final das contas, quem paga a conta é o trabalhador que se vê privado de seu ganha pão e a população que não tem acesso a um serviço de melhor qualidade. Ah, antes que venham me criticar por falar mal do taxista, há inúmeros casos de motoristas muito bem educados, com carros limpos e que prestam um serviço de primeira linha. Meus clientes todos utilizam o transporte de taxistas, todos escolhidos a dedo, e que prestam serviço de mesmo nível que o transporte executivo.

O CADE soltou ontem uma normativa decretando que não há concorrência entre o aplicativo do Uber e os aplicativos de Taxi 99taxi e Easy Taxi. O governo decidiu o óbvio e decretou que os dois serviços na verdade são complementares, atendendo fatias diferentes da população em momento distinto. A população é favor da existência dos dois serviços e o empresariado também, pois aumenta a oferta de fornecedores. Os únicos que parecem não ter interesse nenhum nisso tudo são os poucos privilegiados. Como disse Saul Sabba, “(o CADE) garante que os direitos do consumidor sejam respeitados, atacando o abuso do poder econômico, atuando de maneira eventual sobre situações concretas. Ser reativo, nesse caso, permite uma visão mais ampla sobre a conduta das partes envolvidas e sobre a percepção do consumidor sobre a situação. Ele vem analisando, especialmente, o efeito anticompetitivo dos agentes de mercado, o que gera distorções nos preços e nos serviços.” Ou seja, não é o Uber um formador de monopólio anti-competitivo, mas aqueles que são contra ele que o são.

Resumindo: Sabendo de tudo isso, é assim que você deve reagir sempre que alguém critica sem conhecer todas as facetas da equação:

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