Vale a pena sediar uma Olimpíada? Qual o custo disso?

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Área de canoagem da Olimpíada de Atenas de 2004.
Área de canoagem da Olimpíada de Atenas de 2004.

Os jogos olímpicos existem a milhares de anos, e foram criados lá na Grécia antiga. Depois de um longo período sem dar as caras, o evento ressurgiu sob a denominação “olimpíadas da era moderna”. A primeira edição ocorreu em Atenas em 1896 e de lá pra cá, salvo em período de guerras, a cada quatro anos uma cidade diferente tem a honra de sediar o evento. As olimpíadas começam com seu lindo show de abertura e fecham, invariavelmente, com a seguinte pergunta:

Vale a pena sediar uma Olimpíada?

Existem três argumentos entre os defensores do evento. O primeiro é a sua popularidade e o que ela representa. Reconheço o recall de marketing do evento, mas como eu só gosto de futebol e, mesmo assim, somente quando o Palmeiras entra em campo, acabo não assistindo muitos jogos ou eventos. Por outro lado, não posso negar sua importância pelo que representa em termos de desenvolvimento humano e principalmente pelos pequenos pedaços de heroísmo – como a delegação de refugiados, que fugiu das guerras e mostra que ainda existe esperança, ou a ginasta usbeque que entrou pra história ao se tornar a atleta mais velha a competir.

Para falar sobre os próximos dois argumentos, é preciso lembrar, acima de tudo, que “Olimpíada” é um negócio. Impressionante, emocionante, maravilhoso, mas mesmo assim um negócio caro e que não é para amadores. O segundo argumento é o chamado legado olímpico, que são as obras de infraestrutura que ficam para a população. O terceiro é o retorno do investimento, já que o fluxo de turistas e derivados acaba devolvendo o que foi investido. Será?

Estimar o custo de uma Olimpíada não é tarefa fácil. O Comitê Olímpico Internacional se encanta com as promessas de construções para o evento, que são as mesmas que acabam por convencer a população. Se benefícios do esporte como meio de ascensão social são reconhecidos mundialmente, qual atleta ou entusiasta do esporte irá dar as costas para a possibilidade de um parque aquático, ginásio poliesportivo ou complexo de atletismo? Os gastos futuros com a realização desse evento – planejamento, divulgação, construção e reforma dos espaços públicos, reorganização do fluxo viário e de pessoas na cidade. Ao mesmo tempo em que os custos são superestimados para evitar faltar dinheiro, nem sempre são colocados na ponta do lápis todos os ajustes de última hora. E como sabemos, é aí que mora o perigo.

Deixar de fazer um planejamento para o período pós-olímpico pode ter efeitos catastróficos. Atenas, por exemplo, não foi a Olimpíada de Verão mais cara de que se tem notícia – título que cabe a Pequim, que gastou US$ 44 bi – mas enquanto a China obteve um “pequeno lucro” de US$ 146 mi, os economistas afirmam que a realização das Olimpíadas na Grécia, ao custo de US$ 15 bi, teve o efeito de piorar a crise que já existia no país. É de conhecimento geral que grande parte das estruturas estão subutilizadas, quando não totalmente abandonadas. Os problemas causados pela mudança do tráfego na cidade continuam e o sistema de transporte público não atende adequadamente a população.

Hospedar um grande evento é uma oportunidade única de fluxo de capitais para os países. Recentemente o Brasil recebeu duas grandes oportunidades e apenas o tempo poderá nos dizer se os recursos foram usados com sabedoria. A Copa do Mundo de 2014 deixou dois grandes legados para o país: o infame 7×1, do qual não nos esqueceremos tão cedo, e grandes arenas que não justificam a imponência de sua estrutura. A Arena Amazônia é um desses grandes elefantes que vêm acumulando prejuízos que já superam a marca de R$ 7 milhões.

A #Rio2016 já tem custos estimados na ordem de R$ 37,6 bi. No momento essa marca parece não importar muito, com o aumento do fluxo de turistas e investidores. O desafio é manter a economia funcionando depois que todas essas pessoas forem embora, principalmente quando chegar a conta de manter tudo o que foi construído. Existem obras que não foram terminadas para as olimpíadas, e nem para a Copa de 2014. Denúncias de corrupção são sinônimo de Olimpíada e Copa do Mundo.

O impacto financeiro na realização dos jogos, frutos das exigências absurdas do Comitê Olímpico Internacional, é devastador para o cofre das cidades e países, principalmente os considerados emergentes. Tem um estádio novo? Não importa, ele não pode ser reformado para adequar ao padrão olímpico. É necessário construir um novíssimo. Hospedar os atletas em hotéis? Negativo. É obrigatório construir uma Vila Olímpica. A lista cresce horrores a partir dai, e passa inclusive pela “isenção fiscal” do COI. Sabem o que isso significa? O dinheiro ganho pelo Comitê Olímpico Internacional aqui no Brasil não pode ser tributado. É grana livre de impostos. Sabem aquela expressão “um entra com o *@#*& e o outro com a bunda”? É exatamente isso.

Essa farra com o dinheiro dos outros ao longo de um século, entre a primeira Olimpíada e esta aqui no Rio, fez com que a rejeição aos jogos aumentasse consideravelmente. Cidades estão retirando candidatura e outras se recusando a fazer uma. Se as pessoas se recusam a receber você, se a população protesta contra sua estada na cidade delas, o que acontece? O apelo de marketing do evento cai e, junto com ele, o valor do evento. Quando isso acontece o que você faz? Se adapta. O COI vai reduzir exigências, permitir a reforma e não mais somente a construção de aparelhos, e os atletas poderão se hospedar em hotéis e escolas, sem Vila Olímpica. O objetivo é reduzir custos e reaproximar a população do esporte.

Resumindo: Vale a pena sediar uma Olimpíada? Se você tem grana para gastar, sim. Se você é um quebrado, não. E é assim que você deve se sentir ao lembrar que para cada partida de Hockey na Grama realizada existe um médico ou um professor sem receber salários:

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