Saul Sabbá: Entrevista com presidente do Banco Máxima

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Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima. Foto: Divulgação

Abaixo você vai encontrar uma entrevista feita por e-mail com Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima. Muito presente no Twitter e no Facebook, o Saul mantém um blog pessoal onde publica artigos sobre economia, juros, câmbio e derivados. Para aqueles que, como eu, acompanhavam o extinto Blog do Trabuco, presidente do Bradesco, o blog do Saul e esta conversa são um prato cheio para ter acesso aos pensamentos de quem come e dorme o setor bancário e financeiro.

Além do Saul Dutra Sabbá, nós enviamos um convite de entrevista para os presidentes de outros principais bancos de pequeno e médio porte do Brasil. Se eles toparem conversar conosco, publicaremos aqui no Econoleigo.

Entrevista com Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima

Econoleigo: O Máxima é um banco com linhas de produto específicas. Como tudo começou? Conte para nós um pouco da sua história e como você chegou à frente do banco.

Saul Sabbá: A minha história foi baseada como administrador de recursos através da Máxima Corretora e Máxima Asset Management ao longo de 35 anos. Atuo desde 1975 no mercado de capitais. Junto ao meu pai fundamos o Banco Máxima em 1984. Referente à sua pergunta, eu assumi a posição de CEO há cerca de 10 anos. Foi quando fizemos um reposicionamento de presença e ampliamos nossas atividades para o crédito pessoal, o consignado. Há mais ou menos 5 anos nós começamos também a trabalhar com o mercado imobiliário, o Home Equity.

Econoleigo: Levando em conta o tamanho entre os bancos de pequeno porte e os maiores operadores bancários do país, qual a principal diferença entre os de pequeno e médio portes e um dos quatro grandes?

Saul Sabbá: A grande diferença entre instituições pequenas e médio porte dos bancos de grande porte é a especialização. Os bancos de menor porte trabalham em um segmento específico, como o crédito imobiliário, o consignado, o setor agrícola, ou o middle market, que são empresas com faturamento até 250 milhões e que têm o crédito como a principal receita. Outra grande diferença entre esses tipos de banco é a não presença de correntistas. Os bancos de grande porte conseguem suportar os custos de tecnologia e logística presenciais, dando assim uma oportunidade de ganhos diversos, que vão além do originado pelo crédito, como o float dos recursos que são deixados em conta corrente (nota do Econoleigo: o “float” é quando o banco “investe” o dinheiro deixado estacionado em conta corrente pelos clientes, fazendo ele render para o banco. Há de se observar que não há risco para o cliente aqui, pois a operação é coberta pelos bancos), TEDs (nota do Econoleigo: TED é a Transferência Eletrônica Disponível, ou seja, quando o cliente faz uma transferência online de grande valor para outra instituição bancária, como do Itaú para o Bradesco) de ordem de pagamento e outros serviços, todos fontes de receitas muito relevantes.

Econoleigo: A última grande movimentação no setor bancário brasileiro foi a venda do HSBC no Brasil  para o Bradesco. Como isso impacta o segmento bancário?

Saul Sabbá: Maior concentração. A compra de bancos com menor número de agências de rua por parte dos líderes do setor é preocupante nesse sentido, pois ao invés de aumentar a oferta de fornecedores para a população, acaba ocorrendo uma concentração de mercado. Há 15, 20 anos atrás havia além dos bancos atuais o Banco Real, o Banespa, o BCN, o Unibanco e outros. Todos eles foram comprados, o que acaba dando poucas alternativas para o consumidor.

Econoleigo: Em seu blog (www.saulsabba.com.br) você defendeu recentemente uma mudança na regulamentação do governo, para que haja maior flexibilização nas normas e um incentivo para o funcionamento dos Bancos de pequeno e médio porte. Qual o impacto dessa mudança na vida do cidadão comum?

Saul Sabbá: A diferenciação regulatória ajudaria aos bancos de pequeno porte a se especializarem em outras áreas desassistidas pelos grandes. Isso possibilitaria operações mais tailor made (nota do Econoleigo: algo feito sob medida) como o caso do microcrédito, que é quando um banco pode criar uma linha de crédito específica para Startups, por exemplo, oferecendo taxas menores para esse setor. Isso é importante porque o banco de pequeno porte não pode errar na qualidade do crédito, já o grande pode correr mais riscos, pois ele tem outras fontes de receita decorrentes da concentração e tamanho. Outro ponto que diferencia é a falta de apoio para capitalização dos bancos menores, pois o problema da Basileia (nota do Econoleigo: o Acordo de Basileia é um tratado assinado na Suíça em 1988 que estipula, basicamente, que para um banco funcionar é preciso ter uma determinada quantia em dinheiro guardada, em reserva, para garantir os correntistas em caso de falência) é mais crítico para estes.

Econoleigo: Vemos muitos especialistas considerando a Bolsa de Valores um tipo de monopólio. Como o senhor vê a Bolsa de Valores hoje no Brasil, neste momento de crise?

Saul Sabbá: A bolsa hoje não cumpre o seu principal papel, que é a possibilidade de empresas que abrem seu capital não terem o retorno da capitalização quando se necessita acessar este instrumento. O que vemos hoje é um abandono cada vez maior de empresas, que fecham seu capital, pois elas têm o ônus e não recebem o bônus, que no caso seria a possibilidade de capitalização. Por que acontece isso? De novo o problema é a concentração, neste caso de investidores, pois a participação da pessoa física tem diminuído cada vez mais, dado que bolsa preferiu fazer altos aportes em investidores de alta frequência e assimilado, o que deixou o investidor individual de lado, até porque os corretores não aguentam o alto custo operacional devido à baixa corretagem.

Econoleigo: Em sua opinião, qual a maior dificuldade ou barreira para que o cidadão comum comece a investir na bolsa ou em fundos?

Saul Sabbá: Uma das principais dificuldades é o lado cultural. Nós somos um país de renda fixa pelo tamanho dos juros que, por permanecerem constantemente em patamares elevados, tiram do cidadão o estímulo de se aventurar nos mercados acionários.

Econoleigo: O mercado imobiliário está passando por muitos problemas, como a inadimplência, desistência dos contratos e vacância. A Caixa Econômica acabou de elevar a taxa de juros cobrada no financiamento, em um movimento que deve ser seguido pelo setor. O senhor vê alguma alternativa que possa melhorar esse cenário?

Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima. Foto: Divulgação
Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima. Foto: Divulgação

Saul Sabbá: Acho que o mercado imobiliário está passando por um stress test muito forte. Devemos torcer para que o segmento aguente sem grandes rupturas, mas sem dúvida que a grande alavanca do setor é o crédito. Se este desaparecer, leva junto dele os negócios. Nosso segmento avançou bem com a legislação da alienação fiduciária e criou outras oportunidades de levantar capital, como o CRI (nota do Econoleigo: os certificados de recebíveis imobiliários são títulos de renda fixa lastreados em créditos imobiliários) e o Fundo Imobiliário (nota do Econoleigo: é um fundo de investimento destinado a aplicações em empreendimentos mobiliários), mas hoje o capital está arredio pelo momento político que estamos passando. Na verdade, o impacto da alta de juros da Caixa é menos relevante do que a falta de crédito, pois o setor tem boa margem de manobra e é rápido no caso da portabilidade, que é quando você pode trocar facilmente o seu financiamento para outra instituição em caso de taxa de juros mais atrativo.

Econoleigo: Vamos mudar um pouco o foco. Olhando do ponto de vista da administração pública e monetária, acha possível recuperar o grau de investimento do Brasil?

Saul Sabbá: Não só é possível, como vai acontecer, embora daqui há alguns anos. Talvez uns 5.

Econoleigo: Em sua opinião, já houve impacto real na economia brasileira em decorrência do rebaixamento da S&P, da Fitch e da Moodys?

Saul Sabbá: Sim e não. Dentro da ótica de investidores externos, o capital global é tão farto que o rebaixamento só muda efetivamente o custo do investimento e seu prazo. A preocupação central é a questão de entrada e saída de capital do país, e neste ponto ainda estamos com um certo conforto garantido pelas reservas e pelo sistema financeiro, pois os Bancos estão com muito caixa. Estes dois pontos ainda devem prevalecer caso haja boas oportunidades, além, é óbvio, do ambiente democrático das instituições.

Econoleigo: 4.600 fábricas e indústrias fecharam suas portas só em São Paulo, em 2015. Acha que é possível reverter ou amenizar esse quadro no curto ou médio prazo? Como?

Saul Sabbá: Acho difícil uma reversão no curto prazo. No médio vai depender da temperatura política e do desenvolvimento da crise, pois a economia captura uma parte substancial desse humor, da confiança e da credibilidade monetária, e sem isto fica muito difícil prever prazos. Indo além, temos uma chance grande de vários estados entrarem em colapso financeiro, já que não há como manter as receitas, e o custo da administração é rígido. Penso que este será o principal problema daqui para frente.

Econoleigo: O senhor fala bastante no seu blog sobre os juros. Qual a situação do Banco Central hoje em relação aos juros no Brasil? Como isso impacta o mercado?

Saul Sabbá: Os juros e o câmbio são hoje a chave para o bem ou o mal, e dependendo da forma como são administrados, podem empurrar o país para uma aventura ou não. Por exemplo, os juros no patamar de hoje, beirando 15 %, não é compatível com o setor imobiliário. Basta ver a sangria de saques da Caixa Econômica em 2015. O mesmo vale para o financiamento do setor agrícola. Esses dois setores são dos mais sensíveis. Mas não é somente a taxa de juros do Brasil, a Selic, que tem impacto em nossa economia. Nosso mundo hoje é digital e globalizado. Se você pensar em um panorama internacional, o mercado como um todo, não só o brasileiro, treme quando o FED (nota do Econoleigo: Banco Central dos Estados Unidos da América) fala em aumento de juros. Resumidamente, a gestão eficiente é muito importante, pois nossa moeda não é mais indexada ao ouro ou coisa assemelhada (nota do Econoleigo: antigamente a cotação de uma moeda era feita levando em conta o valor de um determinado item, como o ouro, a libra esterlina ou o dólar, como ocorreu na Argentina quando houve a paridade de 1 dólar para 1 peso). Nos dias de hoje a única coisa que segura o valor de uma moeda é a credibilidade e a confiança na economia do seu país, e é isso que está em jogo atualmente.

 

Caso queiram conhecer mais sobre o Saul Sabbá, ele tem uma conta de Facebook, Twitter e LinkedIn, além de um blog, e interage com quem fala com ele nessas mídias. Foi como conseguimos esta entrevista.

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