Por que as coisas custam tão caro no Brasil?

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Brasileiros juntando dinheiro para comprar um iPhone 6s. (Na real, são alemães carregando dinheiro
Brasileiros juntando dinheiro para comprar um iPhone 6s. (Na real, são alemães carregando dinheiro "inútil" na hiper-inflação pós 1 guerra)

A chegada do Kindle Oasis ao Brasil há alguns meses esquentou as conversas entre os apaixonados por leitores digitais e gadgets. As mudanças prometem fazer com que o aparelho, que pesa apenas 131 gramas sem a capa, torne a leitura mais confortável para o usuário. O Kindle é uma pequena maravilha moderna, algo que me fez voltar a ler livros já que não tinha mais espaço para armazenar os quilos de papel que costumava adquirir ao longo dos anos. Não vou entrar em detalhes da minha opinião sobre o novo Kindle, já que eu não o testei, mas uma característica me chamou a atenção: o preço.

O Kindle Oasis, fabricado pela Amazon na China, desembarcou no Brasil pela bagatela de R$ 1.399,00. Sim, e a título de comparação, vem sendo vendido nos Estados Unidos, no site da Amazon, por U$ 289,00. A diferença não é tão gritante no aparelhinho eletrônico da Amazon, mas quando olhamos as outras companhias, como a Apple, que vendem um produto de 650 dólares, ou aproximadamente R$ 2.400 no câmbio a R$ 3,60, a “módicos” R$ 4 mil. Essa diferença no preço praticado aqui dentro e lá fora me fez pensar. Por que os produtos importados custam tão caro em nosso país?

Em um primeiro lugar, vamos estabelecer que não são apenas os importados que custam mais. De energia elétrica a automóveis, passando por vestuário e produtos de higiene pessoal. TUDO é mais caro no Brasil. Aquela crônica antiga da internet de que os amigos estrangeiros se espantam e dizem que somos todos ricos é verdade. Eles jamais pagariam o que pagaremos aqui no iPhone 6s. Por que tão caro, Econoleigo? Simples. Um dos fatores que são levados em consideração pelo mercado brasileiro no momento de precificar um produto é o status. Não estou falando de mercado de luxo, que movimenta milhões de reais todos os anos, mas do status de se comprar pela internet um ingresso para um show, por exemplo, e pagar R$ 100,00 de “taxa de conveniência”. Ou trocar o aparelho de telefone todos os anos, sem um motivo real, apenas porque precisamos ter o modelo mais novo.

A resposta mais comum, entretanto, é que os impostos encarecem tudo, o que não deixa de ser verdade. Nós temos a carga tributária mais alta do mundo, não é segredo, e o retorno que temos é irrisório se considerarmos os 40% de impostos, aproximadamente, que pagamos sobre os produtos que consumimos. Essa carga tributária, aliada ao protecionismo em alguns setores por parte do governo, faz com que não existam fortes estímulos para que indústrias diversificadas se instalem aqui.

Posso adicionar também o péssimo modal de transportes que temos no Brasil, fazendo com que a logística seja cara, de difícil planejamento e com grandes chances de perda dos produtos. Em termos leigos, como sempre, valorizar as estradas em detrimento de outros meios, por exemplo o fluvial, faz com que estas sejam utilizadas acima da capacidade e permaneçam em pior estado de conservação. É um efeito cascata e de péssimos resultados para o importador.

Acredito que precisamos mudar nosso padrão de consumo para transformar essa situação. Vivemos em uma sociedade complexa, onde muitos de nós ainda não entende ao certo como o jogo político interfere na nossa vida cotidiana. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, afirmou há alguns meses que as economias deveriam abordar os problemas econômicos com ajustes fiscais, monetários e estruturais e eu concordo com essa declaração.

Agora, por que o Kindle tem uma diferença quase irrisória no preço, e o iPhone é praticamente o dobro? A resposta está no modelo de negócios. A Amazon vende livros eletrônicos, e ganha uma porcentagem em cima de cada venda. No meu livro de zumbis, que publiquei no final do ano passado, a Amazon ficou responsável pela distribuição eletrônica em troca de 30% do valor de capa. Pense no Kindle. Ele só exibe livros vendidos pela Amazon. Sendo assim, a empresa prefere “empatar” na venda de cada dispositivo e-reader, e ganhar o seu troco na venda dos livros. É o famoso perde agora para ganhar depois. A Apple é o inverso. Eles vendem aplicativos, filmes e músicas que são executados no iPhone, e tem uma margem em cima de cada um desses itens, mas mesmo assim eles querem ganhar agora, e ganhar depois também. Por que eles fazem isso, e a Amazon não? Simples. Ter um Kindle é uma comodidade, um pequeno prazer restrito aos amantes da leitura, que não são muitos. Ter um iPhone no Brasil, por outro lado, é um status, quase como uma casta social. Há os pobres animais, aqueles que usam Android e andam de ônibus, e os que tem o iPhone, que também andam de ônibus.

Antes que vocês me xinguem, quero deixar claro que tenho um iPhone, mas o meu comprei fora do Brasil, pagando o preço original de quem mora em terras internacionais. No Brasil eu nunca pagaria o preço cobrado por ele, afinal para mim status é ter dinheiro guardado no banco, e não dentro de uma capinha, no bolso, colecionando arranhões. Afinal, por mais que goste de contar piadinhas com a Siri, nada justifica o preço que pagamos pelo iPhone no Brasil.

Infelizmente a matemática de composição de preços no Brasil é cruel. O valor de venda é composto assim: custo + impostos + marketing + logística + lucro + dinheiro a mais que estão dispostos a me dar de graça. Quanto deveria custar um iPhone no Brasil? Se o valor lá fora é US$ 650, o que já contempla ai um lucro de altíssimos 30%. Com a conversão do câmbio desse preço de venda nos Estados Unidos, impostos e derivados, o valor correto deveria ser em torno de R$ 2.800 a R$ 3.000. A diferença é o dinheiro grátis que estão dispostos a dar para a Apple. E para as montadoras. E para as construtoras. E para todo mundo que sabe jogar bem com a disposição do brasileiro de pagar mais caro pelas coisas.

Resumindo: As coisas no Brasil custam mais caro porque há gente disposta a pagar isso, e é assim que você deve se sentir ao ler que teve gente que pagou R$ 4 mil em um Playstation 4, que era vendido no exterior a US$ 400 (cerca de R$ 1.200 na época):

2 COMENTÁRIOS

  1. Opa tudo bem? Meu nome é Peterson Alan da SIlva e gostei muito do seu texto e afirma bastante do que penso. Eu estou escrevendo um meu TCC em formato de livro reportagem sobre os veículos elétricos no Brasil e estou escrevendo um capitulo sobre o “preço Brasil” que fala justamente de as coisas custarem desnecessariamente mais porque tem quem pague. gostaria de saber se posso mencionar o seu texto nessa parte.

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