Petrobras: estatais são reflexo de atraso político do Brasil

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As estatais brasileiras são utilizadas há décadas como plantio de votos. Além de serem imensos cabides de emprego, e de votos, elas também servem como plataformas de ufanismo eleitoral. Teles, Petrobras, Eletrobrás e muitas outras não passam disso. Essas empresas não são geridas pensando no bem-estar da nação, no lucro ou no desenvolvimento. Qualquer ação tomada ali dentro é feita de olho no voto e, como vimos no escândalo do Petrolão, nos dividendos escusos que elas permitem.

A insistência do Brasil com o pré-sal e a exploração de combustíveis fósseis mostra, de forma clara, o despreparo dos políticos e os gestores da coisa pública. Ao tratar a Petrobras e o petróleo brasileiro como patrimônio cultural e de honra do país, eles protegem os votos dos eleitores, e não o interesse. A Petrobras está investindo dinheiro público em algo que será prejuízo certo daqui a 40 anos: os combustíveis fósseis.

Donald Trump, de olho nos votos do meio-oeste americano, região com grande volume de extração de carvão mineral, insiste na bobagem de que aquecimento global não existe e que os combustíveis fósseis são o futuro. Para corroborar sua intenção com o pool eleitoral, saiu do Acordo de Paris, que visa diminuir a emissão de CO2 na atmosfera. Por mais que o acordo tenha erros, sua subscrição serve de indicativo dos rumos de um país em direção ao futuro, à energia limpa.

Embora emblemática, a dita saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris não teve efeito prático. Isso aconteceu, pois, os estados americanos e as grandes empresas americanas, dentre elas grandes produtoras de diesel e gasolina, afirmaram que continuarão a obedecer aos compromissos de Paris. Elas não fazem isso por bondade, mas por saberem que a energia elétrica e outras formas de energia limpa são o futuro e que, deficitárias hoje, serão lucrativas nos próximos séculos. Não vale a pena investir dinheiro em algo finito se, com o mesmo recurso, é possível criar algo renovável e que dará lucro permanente.

Consumo de gasolina nos EUA. Note como a projeção em 2006 é uma, e a revisão em 2014 é outra. Gasolina é passado, e Estados Unidos já sabem disso.

Nossas estatais não dizem que não investirão em energia limpa, mas os únicos investimentos palpáveis são em gasodutos, novas refinarias e termoelétricas. Estamos gastando dinheiro público em algo que daqui a 40 anos será coisa do passado. Onde está o pensamento estratégico disso? Se a iniciativa privada detém a capacidade de exploração do petróleo, devemos deixar que ela o faça, pois isso não custa ao bolso do contribuinte. O papel de uma estatal é abrir novas fronteiras, não continuar a cavar um buraco que já existe.

A melhor forma de se contar uma mentira é mistura-la a uma verdade. Isso é feito sistematicamente no Brasil. Os exemplos são muitos, mas vou me ater somente a um neste texto. Um dos maiores trunfos da esquerda foi embutir na cabeça do brasileiro, de forma extremamente eficaz, a noção de que as estatais são patrimônios nacionais e fontes de renda ao estado, e que devem ser protegidas e ampliadas. Essa é uma verdade parcial.

O amor por empresas públicas é característico de países em desenvolvimento, ou democracias sociais adeptas da doutrina Keynes. Segundo relatório do Ministério do Planejamento existia 135 estatais no país em 2014. Destas, 48 estão sob o comando direto da união e 87 sob comando indireto. Somente como comparação, a Suíça possui 05 estatais, o Reino Unido possui 19 estatais e a Índia possui cerca de 300 empresas sob controle público.

Estatais são patrimônios, sim. Mas, elas não devem ser mantidas. Uma estatal deve ser criada para abrir um mercado, suprindo uma necessidade e criando demanda. Ela deve criar um campo de geração de lucros para a iniciativa privada. O imposto pago pelos empresários é o dinheiro “sem risco” do contribuinte. Tão logo empresas privadas entrem de forma sustentável na modalidade desbravada pela estatal, ela deve ser privatizada. Já falamos sobre o monopólio da Petrobras e outras estatais aqui. O valor de aporte deve ser reaplicado em outra área que deva ser fomentada, e o lucro deve ser devolvido aos seus investidores: o pagador de impostos.

A ideia deste artigo veio de uma entrevista de Luiz Philippe de Orleans e Bragança a um jornal de Curitiba. Foi ele quem alertou sobre o intervalo de 40 anos. É dele também a ideia de tratarmos estatais como o que elas de fato são, um patrimônio do povo, e não do governo, e que, sendo assim, o lucro das estatais deve ser revertido a quem financiou aquilo tudo: o pagador de imposto. É bom saber que a praga do socialismo não picou todo mundo.

A gestão de estatais deve ser estratégica e desenvolvimentista. A Petrobras deve ser privatizada e seu dinheiro deve ser investido de olho no futuro, fomentando empresas nacionais que tenham como foco a exploração de energia renovável, através do investimento com compra de ações. Caso isso não seja possível, devido à inexistência das mesmas, que se crie uma estatal que desbrave esse terreno. Daqui a 40 ou 50 anos, quando isso já for realidade e a exploração de petróleo for coisa do passado, o Brasil terá investido o dinheiro do passado na receita de futuro. Quando chegarmos em 2060, nossos governantes então podem privatizar a nova estatal e aplicar o recurso público em outra área de interesse nacional. Política pública não pode ser feita de olho no voto, ou no espelho retrovisor. A esquerda faz isso desde a pequena aventura de Lenin, e todos sabem onde isso vai dar.

E é assim que você deve se sentir ao saber que, ainda assim, tem gente que vai falar “pré-sal” e “o petróleo é nosso”:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

6 COMENTÁRIOS

  1. Acredito que essa ânsia por estatais dos brasileiros é mais por uma questão cultural-ideológica, a verdade é que o Brasil nunca teve uma economia essencialmente capitalista, o Brasil já teve todos os sistemas econômico-sociais com exceção de um: capitalismo.
    Nós já tivemos o mercantilismo, Vargas que é considerado nacionalista, JK que muitos o atribuem como nacional-desenvolvimentista, regime militar que foi o maior governo nacionalista superando até mesmo Vargas e JK, simplesmente o regime militar poderia ser atribuído ao socialismo que não será considerado um exagero e o mais próximo que tivemos de um verdadeiro capitalismo foi o FHC com a social-democracia interventora, só que é mais conhecido por ser neoliberal, o que é uma anedota já que o tucano criou diversas regulações sobre a economia.

    O fato é que, as linhas de pensamento filosófico e intelectual da America Latina são em sua maioria compostos por Kant, Hegel, Marx e entre outros são derivados da tradição alemã e francesa, enquanto que a America do Norte e boa parte da Europa é composta pela tradição anglo-saxônica de intelectuais como John Locke, Adam Smith, John Stuart Mill entre outros. O Brasil adepto da questão cultural-filosófica derivado dessas tradições alemãs e francesas reduzem a capacidade econômica a um nível medíocre e bem inferior aos países que adotaram a tradição anglo-saxônica, e isso é amplamente verídico.
    Os EUA foi o experimento de maior sucesso dessa linha de pensamento filosófica, um sucesso atribuído aos seus pais fundadores por ter como base de pensamento um governo bem limitado, democracia, liberdade e economia capitalista, e isso não se aplica apenas aos EUA mesmo sendo esse sendo o caso de maior sucesso, o caso de Hong Kong com o administrador britânico Sir John Cowperthwaite transformou essa cidade-estado nessa potência financeira e tecnológica seguindo essas mesmas tradições principalmente o livre mercado, Lee Kuan Yew foi estudar em Londres e segundo ele mesmo seguiu todos os ensinamentos dessa tradição transformando Singapura no que é hoje que dispensa qualquer comentário, Austrália e Canadá sendo colônias não precisa dizer o óbvio, Japão pós-guerra com a administração do país com o general Mcarthur que repudiava o keynesianismo, Park com a liberação total de investimentos estrangeiros na Coreia do Sul obedecendo os princípios do livre mercado, enfim há uma série de particularidades que acaba transformando o mundo em países ricos e pobres derivado essencialmente da sua linha de pensamento ideológico-cultural. Vale destacar que os países que não detinham a tradição anglo-saxônica foram colocadas em prática tendo como base um governo autoritário como Singapura, Chile, Coreia do Sul entre outros.

    Enquanto no Brasil e na AL há o debate sobre privatizar e desregular o mercado de petróleo, nos EUA, Trump anunciou o maior leilão de campos petrolíferos da história, o que eu acredito que a Petrobrás também fará parte desta concessão, o que nos deixa a margem que existe um abismo absurdo tanto em questões econômicas, culturais, ideológicas derivado das diferentes linhas de pensamento filosóficas, a verdade é que o Brasil ainda engatinha nessa questão.

    Brasil já teve diversos planos econômicos tendo como base o nacional-desenvolvimento e nenhum deles nos transformou em um EUA, Coreia do Sul e Japão, pelo contrário, sempre nos relegou ao status de subdesenvolvido, em 2018 aguardaremos mais um capítulo dessa novela dos planos econômica miraculosos com base em decisões de investimento feito pelo estado, mas nós não desistimos afinal, “somos brasileiros e não desistimos nunca”.

    O Brasil sempre anda para trás.

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