O que são quotas raciais e como ela destruiu a economia da África do Sul

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O que são quotas raciais e porque elas são ruins

Você sabe o que são quotas raciais? Sabe porque esse mecanismo é ruim para um país? Calma, antes de fechar este texto e me condenar, te peço para que continue a leitura até o final. Se na última linha eu não te convencer que há, no mínimo, outras alternativas a essa política falida, por favor feche este texto e deixe um comentário. Muito se fala sobre as quotas raciais e como elas são a única forma de combater a injustiça e o preconceito racional, mas essa é uma noção equivocada. Vou utilizar o exemplo da África do Sul e como o sistema de quotas raciais arrasou a economia, o esporte e a política do país de Nelson Mandela. Vamos lá.

O que são quotas raciais

As quotas raciais, ou cotas raciais (os dois termos estão gramaticalmente corretos), é uma política pública de reserva de alguma coisa para um determinado grupo étnico. Essa prática foi utilizada pela primeira vez na China antiga, durante a dinastia Yan. Muitos séculos depois, a política de quotas raciais foi ressuscitada pela França em 1935, que reservou a prática de algumas profissões para determinadas raças. Isso foi feito para proteger a elite francesa contra quem era oriundo das colônias. Chamadas de ações afirmativas, as quotas raciais hoje são utilizadas na maioria das vezes para garantir acesso educacional ou profissional a negros, índios ou minorias ao redor do mundo.

O sistema de quotas raciais foi adotado no Brasil durante o primeiro governo Lula, quando foi exigido que as universidades públicas federais reservassem um determinado número de vagas para alunos negros, pardos, mulatos ou indígenas. A primeira universidade a adotar essa medida foi a UFRJ que, cumprindo uma lei estadual aprovada em 2001, criou o sistema de quotas em 2003. Isso pavimentou o caminho para a adoção generalizada dessa prática no ensino público brasileiro.

Em 2005, um ano após a adoção desse sistema, 5,5% dos alunos em ensino superior eram de minoria. Em 2015, segundo o IBGE, esse número saltou para 12,8%, um aumento de mais de 100%. Isso significa que as quotas raciais funcionaram no Brasil? Em termos. Me siga neste raciocínio. As universidades públicas são concorridíssimas e atraem os melhores alunos do país, e as melhores escolas do país são particulares. Como os vestibulares são extremamente difíceis, somente os alunos com melhor conhecimento acadêmico são aprovados. Ou seja, o sistema público brasileiro atual privilegia os ricos, e não os pobres. Segundo o último IPEA, em 2015 a renda média de uma pessoa branca é R$ 2.176,20 enquanto a renda média de uma pessoa negra é 1.266,80. Não precisa ser um gênio para entender que o sistema está errado. Segundo dados de 2009, o aluno quotista desiste menos, o que é excelente, mas ele se forma mais tarde, o que mostra que a base do ensino é ruim. Mesmo que existissem quotas sociais, com garantia de acesso ao ensino superior a alunos pobres, ou para alunos de escolas públicas, eles passariam pelo mesmo problema: entrariam na faculdade, mas teriam dificuldade de se formar. Isso se resolve somente com investimento em educação pública de qualidade. Os alunos pobres, negros, brancos e verdes, teriam plena capacidade de disputar uma vaga acadêmica com um aluno de escola particular.

Política de quotas raciais destruiram economia da África do Sul

A África do Sul sofreu com o Apartheid, um regime público de segregação de raças, durante décadas. Com o fim do Apartheid e a ascensão de Mandela ao poder, o governo iniciou uma bem intencionada política pública de integração de negros na vida social sul-africana. Como bem sabemos, de boas intenções a Argentina, digo, o inferno, esta cheio.

Enquanto no Brasil as quotas se restringem aos concursos públicos e às vagas em universidade, na África do Sul há a exigência de quotas para praticamente tudo, moradia, educação, assistência social e também emprego. O nome dessa política sul-africana é BEE, ou Black Economy Empowerment (Empoderamento econômico negro). Acreditem ou não, é exigido dos empregadores que 75% do quadro de funcionários de uma empresa seja composto por não brancos. Isso pode parecer bonito, mas na prática acaba tendo duas consequências:

  1. O empregador é forçado a contratar alguém não qualificado, o que acarreta no aumento de custos, queda da qualidade e má prestação de serviços ao cliente.
  2. A migração de brancos da força de trabalho para a força empreendedora. Como não conseguem emprego, os brancos deixam de ser funcionários e abrem o próprio negócio, tornando-se empregadores.

A tal BEE, imposta na África, acabou sendo útil somente para os negros que já eram ricos, o que criou uma nova parcela de exclusão dentro da África do Sul. Há os negros ricos, os brancos ricos, os negros pobres e os brancos pobres. A rejeição dessa política de quotas raciais na África do Sul é tão grande que, acreditem, 86% dos sul-africanos negros são contra a política. Um ponto em que os países de terceiro mundo sempre se dão bem é nas commodities, ou seja, agricultura, mineração e derivados. Pensando nisso, o governo da África do Sul aplicou a BEE também na agricultura e desapropriou fazendas de proprietários que não faziam parte das minorias, e forneceu crédito sem exigir capacitação técnica. Ou seja, deram fazenda e dinheiro para quem não entendia de agronegócio, em uma reforma agrária às avessas. A consequência disso é que 90% das fazendas desapropriadas estão falindo. Quer ir mais além? O governo da África do Sul, governado pelo Jacob Zuma, um sujeito que gastou dinheiro público para construir uma mansão para ele e sua família (lembram de algo parecido?), resolveu levar as quotas raciais para o esporte, algo rejeitado pela maioria da população negra.

Ou seja, ao invés de manter as ações afirmativas apenas no campo da educação, como é feito no Brasil (embora essa seja uma medida equivocada), a África do Sul resolveu sanar a desigualdade social com a caneta, e não com o cérebro. Como consequência o governo do país está acabando com a competitividade da indústria e do comércio local, e enfiando o país em uma recessão sem precedentes, com crescimento de 1% ao ano em 2016. Além disso, números mostram que embora tenha aumentado o número de milionários negros no país (o que reforça a tese de apenas uma minoria já rica tenha se beneficiado da medida), os negros foram o grupo racial que menos se beneficiaram do BEE.

Índice de desemprego na África do Sul desde 2001
Endividamento público em relação ao PIB

Embora outros indicadores econômicos da África do Sul ainda estejam bons, é importante observar que a África do Sul começa a descolar do resto da África Subsaariana, que é a porção do continente africano ocupada por ela. Como pode ser visto no gráfico abaixo, enquanto os países venham em um ritmo constante de crescimento nos últimos anos, a economia da África do Sul começa a ruir. É a prova de que, assim como no Brasil, a intervenção econômica através da Doutrina Keynes cobra seu preço. Nós já pagamos esse preço e estamos saindo da crise, graças em boa parte ao impeachment de um governo populista, mas a África do Sul, governada por um populista da escola Dilma Rousseff, está apenas abrindo a fatura do banco coma conta do pacote de “bondades”. Segundo a NWW, o índice de competitividade da África do Sul é de 4/10.

Taxa de crescimento dos países da África Subsaariana nos últimos 65 anos.

Resumindo: As quotas raciais podem parecer justas, mas no final elas servem apenas como política de propaganda política, sem efeitos de fato sensíveis na mudança do panorama de distribuição de renda dos países onde são aplicados. Pode parecer incrível, mas a única forma de se tirar uma camada da sociedade da pobreza é através da educação de qualidade e acesso a oportunidades, não com favores e privilégios, e é assim que você deve se sentir ao saber que ainda tem gente no Brasil que acredita que distribuir dinheiro e diplomas, e não oportunidade e igualdade, é a melhor forma de se construir um país desenvolvido:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

3 COMENTÁRIOS

  1. Gosto muito do site mas tive de discordar de parte da opinião desse post. Na África tudo bem, tá bem insana a coisa.
    No entanto no Brasil não, aqui a questão educação é histórica. Quando ocorreu a abolição da escravatura,NADA, foi feito para incluir os escravos na sociedade, eles ficaram com os piores empregos, com as piores moradias. Alguns até continuaram a viver na casa dos patrões até morrerem. Isso reflete até hoje, a maioria dos pobres é negra.
    Vejamos os dados que você mesmo colocou, vejamos o quanto o número de negros nas faculdades aumentaram.
    Acredito que, assim como eu, grande parte da sociedade é a favor das cotas, essa é uma dívida da sociedade brasileira para com os negros, e não tô dizendo isso pq sou negro não, eu sou branco. E quem disse que permitir cotas não é incentivar a educação de qualidade? elas são sim, e devem continuar até que a educação pública se equipare com a privada. Aguardo resposta, quero saber o pq de você ser contra a uma ação tão digna.

    • Oi Felipe!

      Eu sou contra quotas raciais sim, essa é uma medida preguiçosa de um governo que prefere ações fáceis e rápidas. Ao fazer isso o governo está resolvendo um sintoma, não a causa, a mesmíssima coisa com o Bolsa Família (que eu concordo e apoio, ninguém deve passar fome neste país). O Brasil precisa de uma política SÉRIA de educação e inclusão SOCIAL, não racial.

      1) Educação pública de qualidade. Não tem competência para isso? Que se repasse dinheiro para escolas particulares BOAS aceitarem e educarem os alunos de famílias de baixa renda.
      2) Licença maternidade de 400 dias para mães, garantindo assim maior tranquilidade na maternidade e na educação das crianças.
      3) Criação de creches públicas em quantidade suficiente para as crianças estudarem enquanto os pais trabalham.
      4) Problema de subsidio de moradia de qualidade, retirando assim famílias de áreas de risco.
      5) Implantação do ensino técnico OBRIGATÓRIO para todas as crianças, do público e do particular, garantindo que terminem o ensino básico com uma profissão.

      Essas são apenas algumas medidas que, no médio prazo, resolveriam o mesmo problema que as quotas tentam. Sabe porque sou contra as quotas? Elas ajudam uma única pessoa da família, enquanto um sistema que resolva o problema pela raiz ajuda essa pessoa, mas também o resto de sua família.

      Abs e obrigado pela audiência!

  2. Me desculpem, mas a solução de cotas é ruim, pois além de não solucionar o problema, causa mais ou outras injustiças, além de por uns contra os outros.
    Soluções ruins acontecem quando o problema não é bem definido. Qual é o verdadeiro problema? Não há vaga para todos. No limite, pode-se pensar em duas soluções: ou restringir o número de eleitos, ou aumentar o número de vagas até que seja suficiente. O que aconteceria se tivéssemos vagas para todos que quisessem estudar?
    Abs.

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