O que foi o Plano Collor e o confisco das poupanças

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Mulher chora na frente do BC no dia do anúncio do Plano Collor. Foto: UOL

Embora José Sarney tenha sido o primeiro presidente brasileiro pós Ditadura Militar, o primeiro “presida” democraticamente eleito depois do governo militar foi Fernando Collor, ou, como foi batizado pela mãe, conhecida como Dona Leda, Fernando Affonso Collor de Mello. Nacionalmente desconhecido, Collor foi prefeito de Maceió, deputado federal e governador de Alagoas antes de vencer a eleição de 1989. Jovem, bonito e em boa forma, desbancou o barbudo Luis Inácio Lula da Silva, até então um líder sindical mal encarado. As promessas eleitorais do jovem presidente abrangeram diversas áreas, indo da educação a modernização do funcionalismo público, mas no Brasil da época somente uma promessa tinha de fato importância para o povo: o fim da hiperinflação. Fernando Collor tomou posse em uma quinta-feira e, no dia seguinte, decretou algo que paralisou a nação: o Plano Collor e o confisco da poupança.

Como era a vida antes do Plano Collor

Para falar sobre o Plano Collor e o confisco das poupanças, é preciso antes abordar rapidamente a situação brasileira do ponto de vista político, econômico e social. Como é que o brasileiro aceitou que o governo fosse lá e, na mão grande, metesse a mão em suas economias? Vamos lá.

A política

Entre 1964 e a985, os presidentes brasileiros eram todos generais militares. Isso aconteceu pois durante o período vivenciamos uma ditadura militar e, de fato, um golpe de estado. Não, não foi nada parecido com o que os defensores da presidente Dilma dizem ter acontecido em agosto de 2016. Leia um pouco mais sobre isso aqui. Em 1985, depois de muitos anos de repressão, finalmente os militares cederam o poder para os civis, só que isso foi através de uma eleição indireta, ou seja, nosso presidente foi eleito por um colégio eleitoral. Foi ai que, com a morte de Tancredo Neves (avô de Aécio Neves, senador e presidente do PSDB), José Sarney, vice-presidente de Tancredo e político que passou a vida nos partidos de sustentação do regime militar e recém filiado ao PMDB, chegou ao poder.

A eleição de 1989 foi a primeira, de fato, 100% democrática em mais de três décadas. Foi nessa eleição que Silvio Santos foi candidato a presidência, embora sua candidatura tenha acabado antes mesmo de as urnas serem abertas. Na eleição de 1989 os principais candidatos foram, em ordem de fama, Leonel Brizola (PDT), Mario Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS) e Fernando Collor, um ilustre desconhecido. Não vou falar muito sobre a folclórica eleição de 1989, mas basta dizer que o povo, cansado da mesma coisa sempre, votou em peso em um desconhecido jovem, bonito e caçador de Marajás (funcionários públicos com super salários). Fernando Collor venceu Lula no segundo turno.

A sociedade

Pode não parecer, mas o Brasil mudou muito em 30 anos. Na época pré-Collor, não tínhamos produtos importados, todas as grandes empresas de infraestrutura eram estatais, trabalho escravo ou análogo a escravidão eram comuns no interior, a pobreza era generalizada e muita gente morria de fome e sede no nordeste brasileiro. De forma resumida, o Brasil era como um grande faroeste.

A economia

Sarney assumiu o país do “milagre econômico”, herança do governo militar que, graças a um crescimento estrondoso da dívida externa e da inflação, conseguiu fazer o país entrar no século XX. Em 1985 nossa inflação estava na faixa de 200% ao ano, o que era bastante. Nos cinco anos seguintes a situação piorou e muito. Em março, no final do governo Sarney, a inflação anual chegou a 4.853% ao ano na média dos anos de governo. Não obstante, havia crescimento e emprego. A média de crescimento do PIB do governo Sarney foi de 4,4%.

Remarcação de preços durante governo Sarney. Foto: Revista Exame

Ou seja, as pessoas tinham emprego e o país crescia (o cenário era quase africano, é bem verdade), mas tava todo mundo de saco cheio da hiperinflação que tomava conta do Brasil. Os preços eram reajustados várias vezes ao dia e, numa tentativa absurda de controlar o caos, o governo decretava congelamento dos preços (ou seja, os comerciantes e empresários eram proibidos de reajustar suas perdas) e mandava o povo “fiscalizar” e chamar a polícia em caso de desobediência. Ou seja, era o caos.

Plano Collor: O cérebro por trás da maluquice do confisco das poupanças

Nos meses que antecederam a posse, Fernando Collor tratou de montar sua equipe ministerial. Em um país assolado pela inflação e com as pessoas sentindo na pele a fome e falta de oportunidades, é natural que o maior destaque fosse dado ao ministério da economia. Em um choque de tradição, Collor nomeou a primeira ministra da economia do Brasil, a economista Zélia Cardoso de Mello, que embora divida o sobrenome do “presida”, não é parente de Fernando Collor de Mello. Com passagem pela COHAB/SP e Embaixada Brasileira em Londres, Zélia era uma ilustre desconhecida do grande público. Como ela foi parar no cargo? Segundo o livro Collor Presidente, do excelente Marco Villa, ela conquistou o ex-presidente com seu intelecto e ideias inovadoras.

O que foi o Plano Collor

Luis Eduardo de Assis (Diretor de política monetária do Banco Central em 1990), Zélia Cardoso de Mello (Ministra da Fazenda) e Ibrahim Eris (Presidente do Banco Central entre 1990 e 91) no anúncio do Plano Collor, em 1990. Foto: IstoÉ

Um dia após a posse do novo governo, a ministra Zélia Cardoso de Mello e dois economistas, Luis Eduardo e Ibrahim Eris, apresentaram o Plano Collor em uma coletiva de imprensa. Seguem abaixo os principais pontos do tal plano:

  • Privatização de estatais brasileiras com histórico de prejuízo
  • Troca da moeda Cruzado Novo pelo Cruzeiro, sem mudança de zeros (ou seja, um Cruzado Novo valia um Cruzeiro)
  • Expansão da IOF para aumentar arrecadação do governo
  • Congelamento de preços e salários
  • Eliminação de uma série de incentivos fiscais para empresas do norte e nordeste
  • Indexação de impostos de acordo com inflação
  • Aumento do preço de serviços públicos como correio e etc
  • Liberação do câmbio para promover a importação
  • Enxugamento da máquina pública com a demissão de funcionários públicos e extinção de órgãos
  • Congelamento do saldo das cadernetas de poupança com saldo de mais de NCz$50mil (Cruzado Novo)

Os jornalistas assistiram a coletiva sem reação até o anúncio do congelamento das cadernetas, popularmente conhecido como confisco das poupanças. Abismados, começaram a questionar a ministra Zélia Cardoso de Mello que, para o choque de todos, demonstrou-se completamente despreparada para responder os questionamentos. Na data, ela afirmou que o valor de NCz$ 50mil foi escolhido porque, em levantamento, identificou-se que 80% das poupanças brasileiras possuíam saldo inferior a essa quantia. Anos depois, já longe dos holofotes, ela confessou que chegou a essa quantia de forma completamente aleatória, sorteando bolinhas de papel com números anotados dentro.

Para que o Plano Collor desse certo, era preciso sigilo absoluto, o que evitaria o saque em massa do saldo nas poupanças, o que aumentaria ainda mais a inflação. Na calada da noite o governo decretou feriado bancário de três dias. Na prática, o feriado servia para que, mesmo que houvesse vazamento, ninguém pudesse sacar o que era seu de direito. Mesmo assim, no dia seguinte ao anúncio do confisco, milhões de brasileiros correram aos bancos para sacar os poucos caraminguás que podiam. A procura foi tamanha que filas formaram nas portas dos bancos que, despreparados, não tinham sequer dinheiro em espécie para dar para as pessoas, o que acabou forçando a criação de um limite de saques.

Sem dinheiro. Após o confisco do Plano Collor, bancos limitam saques: no Banerj da Rua do Matoso, no Rio, clientes enfrentam filas. Crédito: Otávio Magalhães/06/04/1990 / Agência O Globo

O governo apostava em uma recessão suave seguida de estabilização e crescimento. Ou seja, o Brasil entraria em uma breve crise, nossa economia se ajustaria e a inflação acabaria, e então começaríamos a crescer de forma sustentável. No começo até que funcionou, mas logo esse modelo sonhado pelo governo deu lugar ao que chamamos de estagflação, ou seja, nossa economia estagnou e a inflação continuou correndo solta. Enquanto a média de crescimento do governo Sarney foi de 4,4%, a economia (PIB) do governo Collor teve “crescimento” de -1,3%. A hiperinflação em 1989 foi de 1.782,90%. No ano seguinte ela abaixou para módicos 1.620%. Em 1991, ela abaixou para 472%, muito devido a terrível recessão econômica no país. Em 1992, ano em que Collor foi deposto pelo impeachment, a inflação passou para 1.000%. Por fim, em 1993, no primeiro ano do Governo Itamar, ela alcançou 2.477%. Como comparação, em 1995, no primeiro ano do governo FHC, criador do Plano Real, a inflação anual foi de apenas 14%.

A verdade é que Plano Collor fez muito mais do que confiscar a poupança dos brasileiros, embora seja apenas por isso que ele seja lembrado atualmente. Caso tenha interesse em entender bem a luta contra a hiperinflação e os detalhes por trás do Plano Collor, como o tórrido romance extra-conjugal entre a ministra Zélia Cardoso de Mello e outro ministro do governo, que acabou com sua demissão, sugiro a leitura do já citado Collor Presidente. É muito bom.

O Governo Collor pode ter sido péssimo para nossa economia, mas ele teve sim seus pontos positivos para a modernização da nação e pelo desenvolvimento econômico dos anos 1990 e 2000. Além da abertura da nossa economia, pois até então as importações eram praticamente proibidas, Collor também foi responsável pela privatização de uma série de estatais falidas, renegociação da divida externa, em situação de calote desde o governo Sarney, a criação do Mercosul através do Tratado de Assunção. Outro ponto notável do governo de Fernando foi a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor, que garantiu um pouco de dignidade ao brasileiro.

Collor e o marketing com o povo através das camisetas de corrida. Foto: O Globo – Mino Pedrosa

Não obstante, o bonitão de Alagoas que, entre outras coisas, fazia marketing através de mensagens impressas em camisetas na hora do Cooper e usava as reuniões ministeriais como palanque para se defender na imprensa, entrou no governo como Caçador de Marajás e saiu como corrupto e tungador de poupanças.

Resumindo: O Plano Collor foi um tiro no pé e uma anomalia daquelas que só existe no Brasil, e é assim que você deve se sentir ao pensar que, mesmo assim, uma economista um dia achou que isso foi uma boa ideia:


Para facilitar a compreensão deste período, pedi a alguns amigos e conhecidos para relatarem como foi a vida no dia em que o Plano Collor foi decretado e as poupanças todas confiscadas.

Regina Lacerda:

Em 1989 o hoje extinto Banestado (Banco do Estado do Paraná) havia iniciado um projeto de expansão fora das fronteiras paranaenses, em cidades de grande e médio porte. Fez uma seleção de pessoal através de concurso público, em Uberaba (MG), e no comecinho de 1990 lá estava eu, aprovada em 9º lugar na primeira fase, e em 3º, na segunda. Trabalhamos 3 meses de portas fechadas, entre reformas do prédio, instalação de equipamentos, captação de clientes. Enfim, foram meses de organização para a abertura da agência, programada para 16 de março. Era um dia após a posse do Collor. O banco passaria a operar, formalmente, a partir da segunda-feira, dia 19. Eis que o mesmo 16 de março foi o dia escolhido por Collor para anunciar o seu “Plano Brasil Novo”. O plano pegou o país de surpresa, e mais ainda a equipe do Banestado, preparada para a “festa”, que assistiu o anúncio e toda a cobertura que se seguiu na própria agência de portas fechadas. Zélia decretou feriado bancário de 3 dias, o que forçou o adiamento da abertura da agência. Mas não apenas por causa do decreto para que bancos ficassem fechados. Foi um grande tumulto, à época. As incertezas, muito mais do que as informações que a equipe de Collor e Zélia deram naquele dia, causaram um estado de perplexidade. O que iria acontecer com a economia? Como a população reagiria? E, do ponto de vista de negócios bancários, a grande questão era: quem, afinal de contas, teria confiança de depositar dinheiro em banco novamente, ainda mais um banco “novo” na cidade? Foi preciso pelo menos duas semanas para que finalmente abrisse as portas.

Saul Sabbá:

O Overnight no Brasil ficou conhecido na época da hiperinflação dos anos 80, quando as pessoas podiam aplicar com capital mínimo de 100 dólares americanos. Como o dinheiro desvalorizava muito, as vezes os bancos não tinham dinheiro para fechar o caixa no final do dia após as operações de empréstimo, financiamentos e derivados. As pessoas então aplicavam o dinheiro que tinham no Overnight, que era um fundo ao qual os bancos acessavam para captar dinheiro para, basicamente, fechar o caixa. No dia seguinte esse dinheiro era devolvido para os investidores, corrigido e com uma taxa de juros em cima. Muita gente fazia dinheiro somente no Overnight. O governo Collor acabou com isso, e desde então o Overnight virou a “Taxa Over”, que é um conceito de juros usado para determinar a taxa de empréstimos “do dia seguinte” para outros bancos. Hoje, o Over é somente de banco para banco, e não de pessoa física para banco.

Marcelo Vitorino:

O congelamento das poupanças afetou o Brasil em todas as camadas. Todos que tinham sua sobrevivência atrelada a produtos de consumo de valor agregado, como por exemplo a indústria da construção civil, sofreram grandes prejuízos. Muita gente faliu por não conseguir recuperar os investimentos feitos. Pouca gente sabe, mas o berço do mensalão foi o confisco da poupança. Naquela época as empresas podiam fazer um câmbio, descongelando o saldo “perdendo” na conversão do Cruzado Novo para o Cruzeiro, ou então trabalhar na base da permuta, uma prestava serviço para outra, já que não tinha dinheiro circulando para fazer pagamentos. As empreiteiras e construturas, que faziam negócios muito mais vultuosos, começaram a prestar serviços para o Estado para poder sobreviver, pois não havia condições de trabalhar o mercado comum. Com isso vieram as negociações e a importância do poder político, que garantia o pagamento rápido das faturas. Por que a importância de receber em dia? Em época de inflação, se uma construtura demorasse 30 dias para receber seu pagamento acabaria por amargar um enorme prejuízo.

Eduardo Balduíno:

Quando a notícia do bloqueio saiu, estava tendo uma festa no Clube de Imprensa em Brasília. Grande parte dos jornalistas comprava a eleição de Collor, o caçador de Marajás. De repente, a festa virou uma grande reunião de pauta. Naquela época, quem fazia campanha política recebia os salários em dólar e depositava normalmente o dinheiro em suas contas. Tinha muito jornalista nesta condição. Rapidamente, ao chegarem os detalhes do bloqueio, o chopp de muita gente naquela festa virou água quente.

5 COMENTÁRIOS

  1. Pois é, estou escrevendo sobre isso. Fico na dubida, sei que foi um horror esse ato de confiacar dinheiro mas pessoas bem pobres se sentiram aliviadas quandoa inflação caiu. Quer dizer, acho um governo muito demonizado as vezes apesar de nao ter sido o melhor nem de longe.

  2. O texto esta muito subjetivo, possui muitas opiniões do autor, “bonito e em boa forma” sério? “Quase africano”? Esse texto foi escrito por um reporter ou uma criança?

    • Primeiramente isso é um blog de economia e não um jornal, e a título de conhecimento quem escreve para jornais também não é o repórter.

    • De alguma forma tal linguagem compromete a vericidade, a clareza e a compreensão do texto?

      Eu acredito que não. Na verdade, esse tipo de linguagem ajuda o texto: o torna menos pesado, um pouco mais informal e interessante para leitores leigos no assunto, mas curiosos por história e economia (eu me incluo entre tais leitores).

  3. Olá. Gostaria de saber o que foi feito com o dinheiro confiscado pelo plano Collor. Foi usado em quê? Onde foi investido ou o que ele pagou? Ele existe ainda ou esse dinheiro acabou? Isso não é dito em nenhum artigo e ninguém sabe me responder.

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