O que é o Estado Islâmico, quem o financia e de onde vem seu dinheiro

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O que é o Estado Islâmico, quem financia, de onde vem o dinheiro e como nasceu

O terrorismo é um medo constante na vida da sociedade ocidental. Da militância contra os regimes militares latino-americanos nos anos 60 e 70, à luta irlandesa contra a coroa inglesa no século XX, o terrorismo sempre viveu na mente das pessoas. Em tempos recentes, o grupo terrorista mais temido era a Al Qaeda, formada no Afeganistão no final dos anos 80. Nos últimos três anos, entretanto, o posto de maior expoente do terrorismo é o auto-proclamado Estado Islâmico. Diferente de outros grupos terroristas islâmicos tradicionais, o Estado Islâmico, ou ISIS (sigla em inglês), ataca em diversos países e promove uma guerra tradicional, com tanques e armas, contra países no Oriente Médio. Isso leva as pessoas, inclusive eu, a questionar o que é o Estado Islâmico, quem financia ele de onde vem o dinheiro do terrorismo. Se você quer a resposta, então leia o artigo de hoje.

O que é o Estado Islâmico

Antes de explicarmos quem financia o Estado Islâmico e de onde vem o dinheiro dos terroristas, precisamos entender melhor suas origens e seus objetivos.

O Estado Islâmico foi criado no Oriente Médio em 2003 ou 2004 (não há um consenso em relação a data). Embora adote Estado Islâmico do Iraque e do Levante ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria como nomes oficiais, o nome mais conhecido e propagado é simplesmente Estado Islâmico. O ISIS tem esse nome porque, de forma simples e direta, eles defendem a criação de um Estado islâmico (em árabe dawlah islāmiyah) que seja regido por um grupo de autoridades religiosas lideradas por um líder supremo, um califa. É por isso que a imprensa costuma se referir ao território dominado pelo Estado Islâmico como califado. Você deve estar se perguntando por que isso, se já existem uma série de países majoritariamente muçulmanos no mundo. É simples. Para o ISIS, um verdadeiro califado deve ser regido pela lei da Charia, que são o conjunto de normas estabelecidas no Corão, livro sagrado do islã. Ou seja, eles querem viver em um estado onde não haja a lei do homem (código de leis, constituição e etc), apenas a lei de Deus. Claro que a questão é muito, mas muito mais complexa do que isso, mas essa é uma forma rápida de simplificar e resumir o que é o Estado Islâmico. Quer saber mais? Leia este texto aqui ou o verbete na Wikipedia.

O Estado Islâmico foi criado em 2003 através da unificação de grupos extremistas. Eles eram tão radicais que, acreditem, alguns membros da Al Qaeda migraram para o Estado Islâmico por acreditar que a Al Qaeda era muito moderada. Embora seja um exagero dizer que o Estado Islâmico seja uma criação americana, podemos dizer que eles são uma consequência das ações americanas. Foi a parte de 2003, com a invasão americana no Iraque, que o ISIS começou a ganhar musculatura.

As fronteiras atuais do Estado Islâmico compreendem porções generosas do Iraque e Síria. Seus principais inimigos são os Curdos, uma etnia que vive majoritariamente na Síria e no Iraque, o Irã e os sírios. Há confrontos contra forças americanas, russas ou turcas, mas eles ocorrem em território ocupado pelo ISIS no Iraque e Síria.

Território controlado pelo Estado Islâmico

Áreas controladas pelo Estado Islâmico. Fonte: CNN

 

Áreas com presença do Estado Islâmico. Fonte: CNN

Diferença entre sunitas e xiitas

Somente para entender mais adiante as doações ao Estado Islâmico, precisamos entrar um pouco mais na questão das “vertentes” do islã.

Com a morte de Maomé, houve uma disputa entre os muçulmanos pela sucessão dele. Existiam aqueles que acreditavam que ele não tinha descendente direto, e que sua sucessão deveria ser feita através de uma escolha entre seus seguidores. Os descendentes dessa corrente hoje em dia são conhecidos como Sunitas, que vem do termo Ahl al-Sunna, ou “pessoas da tradição”. Por outro lado, existiam também aqueles que acreditavam que o herdeiro “político” de Maomé deveria ser seu genro, Ali. Os descendentes dessa corrente hoje em dia são conhecidos como Xiitas, que vem do termo “Shiat Ali”, ou “partido de Ali”.

Essa confusão, que resultou na separação dos fiéis em duas correntes, perdura até hoje. Somente como referência, os sunitas são a maioria, e representam entre 85% e 90% de todos os muçulmanos. Ao contrário do  que aprendemos com o termo “xiita”, usado tradicionalmente para representar alguém radical, os sunitas são o ramo mais ortodoxo e tradicional do islã. O Estado Islâmico é sunita, mas é importante ressaltar que nem todo sunita é simpático ao Estado Islâmico, muito pelo contrário. O Estado Islâmico poderia ser considerado “sunita radical”.

Próximo ponto.

A maior parte das vítimas do Estado Islâmico não são cristãos, judeus, hindus, umbandistas ou ateus, e sim os próprio muçulmanos. Isso ocorre porque os defensores do Estado Islâmico acreditam que aqueles que não professam o islã podem ser salvos através da conversão, mas os xiitas, que são muçulmanos, são traidores e impuros, e que a única coisa que os espera é a morte. Sendo assim, sempre que você ler que o ISIS provocou um atentado em um país árabe, tenha certeza que eles atacaram uma minoria xiita. É importante, mais uma vez, ressaltar o seguinte: o Estado Islâmico não representa o islã e, acreditem, os muçulmanos verdadeiros são contra o ISIS.

Vamos adiante.

Quem financia o Estado Islâmico

A resposta para a pergunta de onde vem o dinheiro do Estado Islâmico depende muito se você acredita em teorias da conspiração, ou não. De forma geral, podemos pontuar os seguintes itens e que mostram o que e/ou quem financia o Estado Islâmico:

  1. Petróleo
    A maior parte do território controlado pelo ISIS compreende o norte do Iraque. Coincidentemente, ou não, é nessa região que abriga a maioria dos poços de petróleo do país. A incursão pelo território sírio também busca controlar os poços de extração petrolífera da região. Somente na cidade de Mossul, no Iraque, o Estado Islâmico chegou a extrair 2 milhões de barris de petróleo por dia. Como o Estado Islâmico é listado pela ONU como uma organização terrorista, é ilegal para qualquer empresa ou nação comprar ou vender produtos do ISIS. Sendo assim, o Estado Islâmico vende seu petróleo pelo mercado negro, principalmente usando rotas de saída no território da Síria. Como o preço é baixo, já que eles vendem por 30 dólares um barril que no mercado legalizado custa US$ 100, há boa procura por parte do óleo, inclusive por nações em guerra com o ISIS, como os curdos.
  2. Doações
    A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista que compreende um território que antes pertencia ao império britânico. Em 1932 a Arábia Saudita tornou-se independente com o nome, em inglês, de Kingdom of Saudi Arabia. Seu fundador foi o principe Abdulaziz Al Saud. Como vocês podem ver, o país até hoje leva o nome de seu fundador, Saud. Não é de se estranhar que até hoje todas as riquezas e poderes do país estejam nas mãos da família Saud. Os Saud e a maioria absoluta da população saudita são sunitas. Alguns membros da elite saudita, e de outros países árabes sunitas, tem como hobby financiar grupos que perseguem a minoria xiita. Foram essas doações que alavancaram a criação do Estado Islâmico. Hoje, já consolidado e com fontes de rendas polpudas, o ISIS não depende mais dessas contribuições, embora ainda as receba.
  3. Impostos
    Por serem adeptos de execuções e extermínio de crianças e mulheres, não é de espantar que o ISIS seja temido onde esteja. Sendo assim, assim que chega a uma região o Estado Islâmico dá aos moradores três escolhas (tenha em mente que eles não agem em regiões sunitas): conversão, tributo ou morte. Quem não quer se converter e nem morrer precisa pagar um imposto chamado de jizya.
  4. Escravidão
    Mesmo que a pessoa pague a jizya ela não está livre. Sendo assim, é extremamente comum que o Estado Islâmico venda crianças e mulheres como escravos sexuais ou de serviço.
  5. Roubo
    Todo território dominado é pilhado. Isso é prática recorrente em qualquer guerra. O ISIS, por outro lado, faz a pilhagem histórica. Quando seus exércitos marcharam sobre cidades antigas no Iraque e da Síria, por exemplo, eles esvaziavam templos, museus e locais considerados como patrimônios da humanidade de seus objetos e em seguida os demoliam. Com isso, o mundo e as autoridades perdem o controle sobre o que ainda existe ou está destruído, quebrando rastros investigativos. O ISIS passa então a revender os objetos e ruínas para colecionadores de arte no mercado negro. Além disso, o Estado Islâmico costuma praticar assaltos a bancos e empresas em territórios não dominados por eles.
  6. Sequestros
    Lembram dos vídeos de jornalistas e cidadãos estrangeiros enfileirados, sendo decapitados? O Estado Islâmico sequestra ocidentais em busca de resgate. Quando isso não é pago, essas pessoas são executadas e o material é publicado na internet como forma de propaganda. Estima-se que somente em 2014 os sequestros tenham gerado US$ 20 milhões.Fontes sobre de onde vem o dinheiro do Estado Islâmico: BBC, BBC, O Globo, Sputnik, Mundo Curioso,

Para finalizar, vamos tentar confundir você um pouco e mostrar a complexidade do jogo de gato e rato. Existem uma infinidade de grupos lutando contra o ISIS. Os curdos, os turcos, os americanos e por ai vai. Olhem bem essa ilustração da CNN que mostra esses grupos e as trocas de apoio.

Inimigos do Estado Islâmico e suas relações. Fonte: CNN

Resumindo: O Estado Islâmico é um problema ENORME, combatido e ao mesmo tempo financiado por uma série de grupos e governos estrangeiros. Pense nele como um projeto problemático em uma empresa que  é empurrado de um departamento para o outro, na esperança de que quando a bomba relógio explodir (sem trocadilho), fique feio para os outros. Um exército luta contra o ISIS para empurrar ele para outra região, esperando assim desestabilizar um inimigo. Um dos países acima, que não vou pontuar qual por não existirem provas concretas, compra armas dos Estados Unidos para lutar contra o ISIS e, por baixo dos panos, repassa essas armas para o ISIS utilizar contra um outro país árabe que é seu inimigo. E é assim que você deve se sentir ao COMEÇAR a entender o que é o Estado Islâmico e como ele é financiado, e descobrir que o buraco é muito mais embaixo, e que não vamos parar de ver atentados terroristas tão cedo:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

3 COMENTÁRIOS

    • Oi Claudio, obrigado pelo comentário. Curioso eu dei uma olhada no seu site, o Amigo do Rei. Agora estou MORRENDO de fome! Abs!

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