O que é uma economia de guerra e quem ganha com um conflito armado

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Entendendo a economia de guerra e porque um país paga para destruir outro.
Entendendo a economia de guerra e porque um país paga para destruir outro.

Sempre que os Estados Unidos declaram guerra a algum país, principalmente quando o inimigo está no oriente médio, os manifestantes contrários à indústria beligerante americana decretam: estamos explodindo mísseis de um milhão de dólares em barracas que custam 30 dólares no Walmart. Uma guerra é sempre causada por interesses comerciais. Uns atacam outros para ganhar alguma vantagem. Nem tudo, entretanto, é monetário. A Segunda Guerra Mundial foi uma ofensiva contra a vilania e a barbárie do Nazismo, mas a perseguição étnica de Hitler e as invasões cometidas por ele, essas sim foram feitas por algum interesse. Vamos tentar entender no Econoleigo de hoje o que é uma economia de guerra.

O fantasma de uma guerra voltou a assombrar todo o mundo, quando os Estados Unidos lançaram 59 mísseis Tomahawk em uma base aérea na Síria, em resposta ao ataque químico que matou 80 civis, entre eles crianças, no noroeste daquele país. No momento em que os mísseis explodiram a base aérea Bashar Al Assad, todos que ficaram chocados com a imagem das crianças mortas com o gás Sarin se sentiram vingados. Por mais revigorante que seja o sentimento da vingança a uma injustiça, e por mais nobres que possam ter sido os sentimentos de Donald Trump, precisamos lembrar que uma guerra está sempre acontecendo em algum lugar do mundo e que isso movimenta muito dinheiro.

Cada míssel Tomahawk disparado pelos Estados Unidos custa, de acordo com especialistas, US$ 1.870.000,00 ou, como dizemos aqui, um milhão e meio de Trumps. Ou seja, foram gastos 110 milhões para destruir 25% da força aérea da Síria. Segundo a Raytheon, empresa que desenvolveu o míssel, já foram disparados mais de 2 mil mísseis desde sua adoção pela Marinha dos Estados Unidos em 1983. Ou seja, somente com um único produto a Raytheon já arrecadou US$ 3.7 bilhões, em valores de hoje. Há que se descontar os custos de desenvolvimento, sempre altíssimos no campo militar, e também os custos de produção, mas não podemos ignorar que é uma boa grana.

Míssel Tomahawk disparado por um navio de guerra.

Saul Sabbá escreveu um artigo muito interessante algum tempo atrás explicando que dinheiro não faz juízo de valor. Isso é verdade, e mercados mais sofisticados tem uma segmentação maior, o que deixa os investimentos mais diversificados e especializados. A indústria bélica abrange mercados e submercados de armamentos, munições, aeronaves, veículos, embarcações, desenvolvimento de tecnologias e toda uma gama de recursos humanos e governamentais para acontecer e, segundo especialistas, movimentou cerca de US$ 1,7 trilhão em 2015. A Brown University, nos Estados Unidos, mantém o projeto Costs of War e calculou que a guerra no Iraque, Afeganistão, Paquistão e Siria custou ao contribuinte americano quase U$ 5 tri entre 2001 e 2016. Esse valor pode chegar a US$ 6 tri nos próximos 40 anos. Em uma guerra não lucram só as indústrias bélicas. De acordo com o Financial Times, os contractors, ou empresas especializadas em reconstrução e infraestrutura, lucraram 138 bilhões de dólares somente com a ofensiva americana no Iraque.

Desde o início dos tempos as guerras desenvolvem a economia. Existem dois conceitos econômicos para essa industria belicista: a economia de guerra (war economy) e economia de guerra permanente (permanent war economy).

Economia de guerra: Este fundamento econômico ocorre quando um país, independente da razão, ajusta sua cadeia produtiva para se preparar para uma ofensiva militar. São concedidos incentivos financeiros para o desenvolvimento tecnológico, as metalúrgicas são incentivadas a produzir insumos que alimentam as indústrias de armas e essas, como podemos deduzir, aceleram sua produção. Como os recursos são limitados, outros setores da economia acabam passando pelo desabastecimento. É aí que ocorrem os famosos racionamentos. A economia de guerra é um movimento brusco e que altera a cadeia produtiva para preparar uma nação para um conflito iminente.

Economia de guerra permanente: Esse conceito foi criado em 1944 e é usado para explicar a guerra fria. Ao invés de uma mudança drástica, a economia de guerra permanente propõe um meio termo ao exemplo acima. A sociedade e a cadeia produtiva seguem uma vida normal, mas há um aporte financeiro governamental e incentivos para que as indústrias bélicas estejam em constante funcionamento. Essa prática é adotada normalmente pelas grandes potências, como Estados Unidos, Rússia e China.

O investimento estatal na guerra é outro fator a ser considerado, já que é o cidadão quem paga por ele. Nos Estados Unidos, por exemplo, o primeiro imposto federal foi instituído no sentido de financiar a Guerra Civil. O dinheiro desviado para os conflitos deixa de ser investido em políticas sociais que garantam o desenvolvimento sustentável dos países, o que leva a população a questionar todas as intervenções militares, especialmente em outras nações. É comum o repúdio veemente à chamada “economia de guerra permanente”, conceito muito utilizado durante a Guerra Fria para justificar enormes gastos tecnológicos, inclusive a corrida espacial.

Resumindo: Vivemos em um mundo onde exércitos são necessários, pois nem todas as nações respondem apenas ao bom-senso. Intervir militarmente para acabar com tragédias e genocídios é dever das nações mais desenvolvidas, desde que isso seja respaldado pela ONU. Guerras são terríveis mas eventualmente necessárias, e é assim que você deve se sentir ao saber que muita gente ganha fortunas com conflitos, muitas vezes incentivando e criando eles:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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