Entendendo a economia da Rússia: Ela é mesmo uma potência?

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Entendendo a economia da Rússia e a força do país liderado por Putin

A economia da Rússia é mesmo tão forte assim? Seria o país governado por Vladimir Putin realmente uma super potência, capaz de manipular as eleições americanas e a maior economia do mundo? O Econoleigo de hoje se aventura na tentativa de explicar a economia da Rússia, a maior potência do leste europeu. Pegue sua garrafa de vodca, seu prato de caviar, seu doce de Marzipan e vamos juntos na explicação.

Economia da Rússia: números

É a hora da parte chata do texto: indicadores econômicos.

  • O PIB da Rússia fechou 2016 em 1.283 trilhões de dólares.
  • O PIB da Rússia encolheu 0,57% em relação ao ano de 2015. É um número horrível, mas um pouco melhor do que o PIB de 2015, que encolheu 1,31% em relação a 2014. Ou seja, a Rússia está saindo uma recessão tão ruim quanto a do Brasil.
  • A taxa de desemprego na Rússia é de 5,2%, um número infinitamente melhor do que o Brasil, que orbita 14%. Em 2016 a taxa de desemprego russa foi de 5,3%. Ou seja, lá a desocupação profissional está estável.
  • A inflação russa é excelente e fechou 2016 em 4,4%. É neste patamar que a inflação de 2017 do Brasil deve fechar.
  • Taxa de juros russa é de 9%, praticamente a mesma que o Brasil.
  • A balança comercial da Rússia fechou abril com saldo de 8 bilhões de dólares, uma leve melhora em relação ao mesmo período do ano passado. Em 2012, entretanto, esse número foi de 20 bilhões.
  • A dívida pública da Rússia em 2016 foi de 17% em relação ao PIB, enquanto a taxa de endividamento em 2015 foi de 15,9%.

Para entender a importância mundial da Rússia é preciso separar três coisas, o poderio militar, poderio representativo e o poderio econômico.

  1. A economia russa equivale, aproximadamente, a 5% da economia dos Estados Unidos. Ou seja, embora seja rica, a Rússia não tem força econômica suficiente para ameaçar a economia americana.
  2. Com o fim da União Soviética, que era uma espécie de “condomínio” de quinze países socialistas comandada pela República Socialista Federativa Soviética da Rússia (nome completo da “antiga Rússia”), a Rússia deixou de ser um país unificado a essas outras quinze repúblicas, mas continuou sendo uma referência econômica, cultural e política. Ou seja, quando a Rússia fala, ela representa todo um bloco, e esse poderio é relevante para incomodar a política americana.
  3. A Rússia é a segunda maior potência militar do planeta. Enquanto os Estados Unidos tem um “índice de poder” (do inglês Power Index, ou PwrIndX) de 0.0857 (índice 0.0000 é considerada a perfeição), a Rússia tem um “índice de poder” de 0.0929. Somente como comparação, o índice brasileiro é 0.3654.

Tá. O que esse monte de números que eu listei acima querem dizer?

O país não está crescendo, mas o desemprego permanece estável, os investimentos russos no exterior crescem, a taxa de juros é média e o endividamento público está em alta. A Rússia é, neste momento, uma pessoa que já foi rica e que pega empréstimo no banco para manter status e acompanhar os amigos endinheirados nas festas. Ou seja, ela não tem liquidez, mas se vender patrimônio ela acaba com muita bala na agulha. Economicamente ela é bem classe média, mas tem um sobrenome forte e muito patrimônio no nome. Basicamente, é isso.

Apesar de ser um país importante, a Rússia está muito, mas muito longe de ser uma super potência econômica. O maior país do mundo em proporções territoriais, a Rússia é apenas a 13ª maior economia do mundo. Somente como comparação, o Brasil, mesmo em crise, é a 10ª maior economia em tamanho de PIB.

A economia da Rússia é mista e bem balanceada, com industria, agronegócio, energia e serviços bem desenvolvidos. Boa parte das riquezas do país provém do setor de energia, como a exploração de petróleo e gás natural da região dos Balcãs. Assim como no Brasil ainda há na Rússia uma série de gigantes estatais, e as empresas que eram públicas e foram privatizadas (ou funcionam em regime misto, como a Petrobras) são fontes dos maiores escândalos de corrupção do país. Com a queda da União Soviética (como o fim da Ditadura Militar), a Rússia teve um extenso programa de privatização, e amigos dos antigos líderes do regime soviético compraram essas empresas, quase sempre usando empréstimo de bancos públicos, assim como no BNDES.

Empresa de petróleo russa, fruto da privatização do país na década de 90
Empresa de petróleo russa, fruto da privatização do país na década de 90

A Rússia convive atualmente com dois gravíssimos problemas de ordem financeira: uma recessão econômica que durou dois anos e só acabou em abril deste ano, e um embargo econômico (entenda o que é isso neste texto) em vigor desde a Guerra na Ucrânia (entenda melhor o conflito aqui). A economia russa nunca foi aquela Coca-Cola, e desde 2008 o máximo que o PIB do país cresceu foi cerca de 3%.

Isso significa que a Rússia é qualquer coisa? De forma alguma.

Conforme explicado nos itens 1, 2 e 3, a grande relevância da Rússia é produto de sua antiga herança soviética, e também por seu poderio bélico. Este é, aliás, o grande trunfo comercial da Rússia. A lembrança da Guerra Fria é muito forte e o medo de um conflito nuclear prevalece em qualquer decisão. É por isso que a Rússia pode invadir e roubar um pedaço da Ucrânia sem sofrer quase nenhuma represália. Ou vocês imaginam que a ONU não teria intervido se o Brasil tivesse roubado Buenos Aires da Argentina?

Por que é então que se fala tanto em Rússia quando o nome de Donald Trump aparece? Simples: por mais que dois países não sejam aliados, e Rússia e Estados Unidos nunca o serão, isso não significa que não haja comércio ou relações financeiras entre as duas nações. São mais de 10.000 empresas de todos os setores, nos dois países, que fazem negócio diariamente, e movimentam 25 bilhões de dólares todos os anos. Para terem uma ideia, o Brasil e a Rússia, que são muito mais próximos do que EUA e o país de Putin, movimentam 10 bilhões de dólares todos os anos. Por isso que Temer viajou ao país semanas atrás para tentar estreitar os laços e conseguir mais dinheiro. Funcionou? Basta dizer que ao invés de ser recepcionado por Putin, como manda o protocolo (presidente recebe presidente no aeroporto, é a norma), Temer foi recebido por um funcionário do governo.

De acordo com o último artigo de Saul Sabbá, Donald Trump flerta com a economia russa desde a década de 1980, quando já era claro que a União Soviética estava próxima do fim. O presidente americano, até então apenas um brilhante empresário, sabia que havia muito dinheiro a ser feito na Rússia. Embora financeiramente a Rússia esteja engatinhando, é inegável dizer que o país está se desenvolvendo rapidamente.

Resumindo: a Rússia não é e não será a segunda maior economia do mundo, mas o poderio militar deixado pela União Soviética, e os milhares de quilômetros vazios em seu território dão a Rússia uma posição confortável para fazer o que bem quiser, ignorar leis internacionais e ficar cada vez mais forte e rica, sempre com Putin no poder, ele que é manda-chuva por lá desde 1999. E é assim que você deve se sentir ao saber de tudo isso:

mm

O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

4 COMENTÁRIOS

  1. A Rússia pode invadir e roubar um pedaço flda Ucrânia? Você conhece muito de história e geopolítica hein caro redator? Ta assistindo muito jornal nacional, ta serto.

  2. Fiquei indignado de ler “É por isso que a Rússia pode invadir e roubar um pedaço da Ucrânia sem sofrer quase nenhuma represália.”
    Você pode ser muito bom de economia, mas, quanto a cultura e geopolítica voce ta muito por fora, a Criméia sempre foi parte do territorio da russia, so foi cedida a ucrania por krutschev que era de origem ucraniana tanto que o povo la sempre falou e fala o idioma russo, antes da anexação houve um referendo em que a população votou sim em mais de 90%, sim, as potencias ocidentais alegaram “interferencia russa”, mas, assim como nas eleições americanas de 2016 nada foi provado.

    E antes disso tudo acontecer, o governo ucraniano disse não a otan e começou a se aproximar da russia, irritados os países da OTAN começaram a financiar aqueles “protestos” que voce viu no jornal nacional no final de 2013 que acabou com um golpe de estado patrocinado por ocidentais pra colocar no governo um mandatário pró ocidente, a Rússia então retaliou com a anexação da Criméia.

    As coisas não são como a mídia nos mostra, procure saber qual o real motivo da otan ter matado muammar al-gadaffi em 2011 e da invasão do Iraque em 2003 e o assassinato de sadam husseim 2 anos depois, voce vai se surpreender!

    • Paulo, eu não disse se o roubo era justo ou não. O que eu disse é que, do ponto de vista internacional, foi um roubo. Assim como o que está sendo feito na Catalunha também o é. Nem tudo que é moral é legal. Abs!

  3. Rodrigo, ao contrário das críticas dos que comentaram anteriormente, eu agradeço a explicação, para quem tinha quase nada de conhecimento como eu, foi muito útil esclarecedor.

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