Maternidade: A crueldade do mercado de trabalho com as mulheres

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A crueldade do mercado de trabalho e do mundo corporativo com a maternidade e as mulheres
A crueldade do mercado de trabalho e do mundo corporativo com a maternidade e as mulheres

Antes de mais nada, quero deixar claro que não escrevo este texto como economista, algo que de fato não sou, e nem como jornalista, algo que estudei para ser, mas de fato nunca fui. Eu digito estas linhas sobre a maternidade no mercado de trabalho como pai do Marcus, como marido da Lorrayna, filho da Zélia, neto da Elza e da Maria, e por ai vai.

De acordo com dados da RAIS publicados em 2014, as mulheres representam 43,25% do número de trabalhadores empregados com carteira assinada em todo o Brasil. Pode parecer muito, mas é importante notar que as meninas representam 51% da população brasileira. A análise de um número contra o outro deixa claro algo sabido por todos: No Brasil, homem trabalha e mulher cuida do lar. Esse cenário é o mesmo em toda América Central e do Sul. É a herança latina. Mesmo representando 43% da força de trabalho, as mulheres ganham apenas 75% do salário do homem. E antes que venham falar sobre humanas e exatas, é bom deixar claro que esses números refletem uma comparação de maçã com maçã, ou seja, quando menino e menina ocupam o mesmo cargo.

E porque essa diferença, você me pergunta. O empresário é malvado? O patrão é sexista? Não. A empresa apenas repassa o “custo” feminino para a própria mulher. Homem não engravida. Homem não amamenta. Homem não sente cólica. Homem não falta no trabalho para cuidar de filho doente. Isso é coisa de mulher. Uma empresa, no final das contas, busca resultados e lucro. É um pensamento ruim? É, mas ele é apoiado em números. A culpa é do patrão? Não, é da política, é da legislação. Explico.

Licença maternidade em outros países

Moro no Canadá. Aqui o governo reembolsa ao empregador o salário gasto com o custeio da licença maternidade. Resultado? Minha esposa descobriu que estava grávida dois dias antes de uma entrevista de emprego. A mentalidade brasileira diz: fica quieta, faz a entrevista e “descobre” a gravidez assim que a carteira for assinada (não, aqui não existe carteira de trabalho). Ao invés disso, antes de começar a entrevista ela informou ao proprietário da empresa que tinha acabado de descobrir a gravidez. A resposta dele? “Não tem problema, se você for contratada, quando chegar na hora do parto, você vai para casa cuidar do seu bebê”. Ela foi contratada e parou de trabalhar no sétimo mês de gestação, já que o trabalho dela envolvia muitas horas em pé, superfície escorregadia e o manuseio de líquido quente (ela era barista). Nos dois últimos meses de gravidez ela ficou em casa e recebeu religiosamente em dia, tudo pago pelo governo.

Quando meu filho nasceu, minha esposa optou por uma licença maternidade de um ano. A escolha era simples: nove meses com salário integral, ou 12 meses com um desconto. Quando ela estava no quinto mês de gravidez, decidiu que não queria voltar a trabalhar, e sim cuidar do nosso bebê. Ela então ligou para o governo para informar, para que eles suspendessem o benefício. A atendente do serviço social foi muito clara: não existe suspensão. Ela era mãe e tinha um filho, e era um direito dela receber o salário dela por 12 meses, mesmo que ela não pretendesse voltar a trabalhar.

Vamos um pouco além. Se no final do décimo segundo mês ela decidisse ficar em casa por mais um tempo, poderia estender a licença por mais um ano, só que desta vez sem receber o salário. Qual a vantagem? O vínculo trabalhista ainda existiria, ainda teria convênio e outros benefícios. E se no final do 24º mês ela tivesse ficado para trás, desatualizada? Sem problemas. O governo canadense paga um curso de atualização, para que ela volte a trabalhar e continue competitiva. Enquanto isso, a licença maternidade nos Estados Unidos é de três meses. Sem remuneração.

Ou seja, a crueldade com a mulher no mercado de trabalho não é um luxo brasileiro. A população dos Estados Unidos considera o Canadá um país comunista disfarçado, já que além dos benefícios citados acima, existem muitos outros, como a inexistência de médicos particulares (além de cosméticos, dentista e poucos outros). Tudo é gratuito. Ou melhor, custeado por você com seu imposto. Mas chega de falar de Canadá. Vamos em frente.

O mercado de trabalho é cruel com as mulheres por ser injusto. Uma mãe brasileira tem de fazer uma escolha terrível quando seu bebê atinge 4 meses de idade. Ela precisa largar o emprego ou colocar a criança em uma creche, que vai custar quase o mesmo do que ela recebe. Quando meu filho tinha quatro meses, eu ainda acordava a noite para ver se ele estava respirando. Deixar com um estranho? Sem chance. Felizmente temos condições da minha esposa não precisar trabalhar e fazer o que ela sempre quis: cuidar do nosso bebê.

E aí está outra crueldade com a mulher. Quando minha esposa comenta que parou de trabalhar para cuidar do nosso filho, as brasileiras olham para ela como se ela tivesse lepra. Como assim virar dona de casa? E a carreira dela? E seus sonhos? São poucos os que entendem ou respeitam o sonho dela: ser mãe e cuidar do pequeno Marcus.

Normalmente, além de cuidar dos filhos e do marido, a mulher ainda precisa trabalhar. Sim, ela precisa. Cerca de 37% dos lares brasileiros são sustentados pelas mulheres, sejam elas solteiras, mães, ou não. A jornada de trabalho da mulher é de 55 horas semanais, enquanto a do homem é, em média, 5 horas menor. Depois de se matar no mundo cão do terno e da gravata, ou do terninho e salto alto, a mulher ainda precisa chegar em casa e fazer hora extra grátis. Tem roupa para lavar, feijão para cozinhar e criança para corrigir lição. Na última década, segundo o IBGE, os afazeres domésticos representavam apenas 10 horas semanais extras na conta dos meninos.

A culpa de tudo isso é do governo, que ao invés de ajudar a mulher a dividir o “B.O” chamado maternidade, simplesmente pega a responsabilidade e coloca no colo da iniciativa privada. Estão errados os que pensam que teremos uma explosão na taxa de natalidade se o estado custear a maternidade. Ao pagar os custos de ter uma criança, o governo garante que as mulheres serão melhor remuneradas e não serão demitidas poucos meses após um casamento. Isso vai, no médio prazo, reduzir a quantidade de mães, solteiras ou não, que deixam as crianças para serem criadas pelos avós, ou simplesmente largadas em frente a uma televisão. Você reduz a evasão escolar, melhora a alimentação dos jovens. Isso não é empoderamento, não é despesa, é investimento. Segundo este artigo do Saul Sabbá, se continuar do jeito que está, os salários de homens e mulheres só serão iguais em 2085 e somente em 2213 teremos 51% das mulheres em cargos executivos, a mesma taxa de representação delas na população. Dá para esperar?

O Econoleigo de hoje não tem resumo, e sim um agradecimento à minha esposa que decidiu encarar 9 meses de dores para trazer meu pequeno ao mundo, à minha mãe que largou a carreira dela para cuidar de mim até meus seis anos. Vocês mulheres são guerreiras e é assim que você, caro leitor ou leitora, deve se sentir ao saber que sua mãe passou por tudo isso para te colocar no mundo, e ainda colocar comida na sua mesa:

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Prezado!
    Nunca havia ouvido falar de algum país comunista como o Canadá, rico e bem resolvido! Mas já ouvi falar de um país capitalista como o Canadá, ou seja, o Canadá é um país capitalista que financia o “comunismo” em sua sociedade!

    • Com certeza. O Canadá é um país capitalista e maravilhoso. Aliás, eu pessoalmente acredito que o comunismo é tão bom que nem quem o defende gosta de viver nele. Por outro lado, o Canadá também mostra que o capitalismo não precisa e não deve ser uma máquina de moer carne e corações. O Brasil tem muito o que aprender aqui com a terra do norte, onde vivo. Abraços!

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