Lucro dos bancos volta a cair, e isso é ruim para você

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Lucro dos Bancos cair é uma péssima notícia para economia

O Valor Econômico divulgou hoje que o lucro dos bancos voltou a cair. Segundo a reportagem, sete instituições bancárias de menor porte tiveram uma queda de 43,3% no lucro registrado no segundo trimestre do ano. Se você tiver uma orientação política de esquerda, é bem provável que essa informação te fez abrir uma cerveja e comemorar com fogos de artifício. Se a cerveja ainda estiver fechada, guarde ela novamente na geladeira. Ao contrário do que você foi ensinado a acreditar, um banco ter lucro (ou qualquer empresa, aliás) não é algo ruim. Muito pelo contrário. Aperte o seu cinto e abra sua mente, pois vamos explicar o porquê do lucro dos bancos ser algo bom para a economia.

A primeira coisa que você deve fazer é esquecer a figura do banqueiro como um sujeito avarento, ranzinza e ganancioso, que nada em um cofre cheio de moedas enquanto o resto da população passa fome e necessidade. O banqueiro, também conhecido como o dono ou presidente de um banco, nada mais é do que um empresário que lida com o setor financeiro. E ao fazer isso, ele emprega milhares de pessoas somente no Brasil, e movimenta bilhões de reais. Sim, em lucro, mas também em impostos e em salários.

Não, não é assim que um banqueiro vive

Antes de tudo, quero colocar um pequeno parênteses neste texto. Do jeito que a sociedade brasileira se desenvolveu, é praticamente um pecado alguém dizer que se interessa por economia e finanças, quase como se ganhar dinheiro fosse um crime. Há aqui uma cultura onde todos querem ganhar, mas ninguém quer perder. Há um desejo pelo dinheiro, mas o trabalho é uma vergonha. Poucas frases se aplicam bem ao Brasil, mas há uma da Primeira-Ministra inglesa Magareth Tatcher que serve como uma luva: para cada pessoa que ganha sem trabalhar, há uma pessoa que trabalha sem ganhar. É isso que o brasileiro precisa entender. Encerro o parênteses aqui.

A notícia que houve um aumento na lucratividade dos grandes bancos, em um universo onde somente 4 bancos concentram 80% de todas as operações bancárias brasileiras, aguçou o apetite por dinheiro do governo. Não demorou e a senadora Gleisi Hoffmann inventou um novo aumento na CSLL, que é a Contribuição Sobre o Lucro Líquido. Segundo o desejo da senadora petista, que declarou que é a hora “do andar de cima” (também conhecido como os ricos) pagar a conta, o imposto deve aumentar de 20% para 23%. É bom lembrar que a CSLL já foi aumentada de 15% para 20% em maio. Esse apetite de arrecadar é tão perigoso, que em breve terá tanto imposto para pagar que não vai sobrar dinheiro. Ao contrário da meta da Dilma, que pode ser dobrada mesmo sem existir, a matemática ensina que o dobro de nada continuará sendo sempre nada.

Não sei o que é maior, se é o apetite pelo dinheiro dos outros, ou a falta de estudo e informação. Quando a senadora propaga seu desejo em taxar os bancos para arrecadar dinheiro para o governo, nos perguntamos se ela sabe que dos 5 maiores bancos do Brasil, três pertecem ao governo. Ou seja, aumentar o imposto não trará todo o dinheiro esperado, pois ela estará criando um imposto que ela mesma vai pagar em quase 60%.

Vamos seguir adiante. Voltando à queda de 43% no lucro dos bancos pequenos, ela é reflexo direto da crise pela qual o Brasil está navegando. Sabem porque os bancos pequenos e médios estão tendo prejuízo? Explico para vocês.

  1. Crédito restrito: Com 7,5% da população brasileira desempregada, sendo 150 mil trabalhadores colocados na rua somente em julho, ficou arriscado emprestar dinheiro. A única instituição do mundo feita para perder dinheiro é um governo, todo o resto funciona visando o lucro (que é o que sustenta um governo, através de impostos). Se as pessoas estão ficando endividadas, é perigoso emprestar grana, pois elas não terão como pagar, e no final o banco arcará com o prejuízo. Sendo assim, os bancos analisam melhor a quem emprestar. Quanto menos empréstimo tem na rua, menor o lucro.
  2. Crise: Com a economia entrando no atoleiro, os bancos precisam separar dinheiro para o período de vacas magras. Ou seja, eles precisam parar de emprestar dinheiro para ter um caixa separado, que visa garantir que mesmo se todos os clientes derem calote, o banco tem dinheiro guardado para honrar suas dívidas.

Entenderam? Há menos dinheiro disponível para emprestar ao público, e o risco de calote aumenta a cada dia que passa. Quando o governo torna emprestar dinheiro em algo menos lucrativo, os bancos selecionam melhor quem vai ter um financiamento aprovado. Vale mais à pena emprestar 10 reais para uma pessoa que tem 70% de chances de não pagar, ou emprestar 5 para uma pessoa que tem 20% de chances de não pagar? Sim, o banco faz essas escolhas.

Com crédito restrito e o ato de emprestar dinheiro menos atrativo, as chances de um empresário conseguir um alívio no caixa ou mesmo de crédito para modernizar seu pátio diminuem. Reparem que aqueles que fazem de tudo para demonizar o empresário do setor financeiro nunca estão dispostos a emprestar dinheiro. Se nem os jornalistas e blogueiros, e nem o governo querem emprestar, quem o fará? Você?

Outro mito que precisa ser desvendado é a taxa de juros. Embora os bancos brasileiros cobrem um dos juros mais altos do mundo, eles não podem ser considerados como lucro. A taxa de juros cobrada dos clientes compõe o lucro dos bancos e também todos os custos, taxas e impostos cobrados pelo governo.

Devemos falar também sobre os bancos. Há aqueles de grande porte, outros de médio e pequeno porte, uns que trabalham com investimento, outros com fomento. Quando se fala em banco no Brasil, as pessoas pensam em Santander, Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco HSBC e derivados. Estes bancos, que são os grandes, representam cerca de 90% do setor. O brasileiro precisa entender que há uma infinidade de outros bancos que lutam diariamente por pouco mais de 10% da fatia, e são esses pequenos bancos que pagam o pato cada vez que um político que não entende do assunto resolve brincar de trabalhar.

Vamos usar o exemplo do Banco Daycoval, especializado em crédito para empresas. Digamos que você trabalha em uma fábrica que precisa de crédito para comprar uma máquina nova. Ao invés de procurar uma agência de rua, que ganha muito mais dinheiro com o público em geral, o diretor da empresa que te emprega vai procurar um banco setorizado, um que lida com empresas, e não com pessoas “normais”. Como ele trata com algo específico, ele tem custos menores, e consequentemente taxas de juros mais baixas.

Segundo o relatório de faturamento do Banco Daycoval, no último trimestre 0,8% dos empréstimos feitos venceram e não foram pagos. No trimestre anterior, esse número foi de 0,7%. Esses números batem com o aumento da inadimplência das empresas no Brasil, que cresceu 9,57% em junho.

Como disse o banqueiro Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima, especializado em crédito imobiliário, os únicos bancos que tiveram lucro foram os quatro maiores. Os pequenos e médios ficaram no empate ou no prejuízo.

Em um período de escassez, sobrevive quem tiver mais reservas e possibilidades. No caso da nossa crise econômica, quando um determinado aspecto ou mercado do setor de finanças deixa de ser atrativo, os grandes bancos simplesmente voltam sua atenção para outra fatia, esmagando quem estiver embaixo. Perde o pequeno banco, que deixa de existir, e perde o consumidor, que pagará tarifas mais altas e se verá embaixo de um mercado dominado por um pequeno punhado de empresas.

Fora do Brasil, é comum que existam bancos nacionais, e também bancos estaduais ou até municipais. É nesta agência que você vai em busca de um empréstimo para comprar uma casa. O gerente sabe seu nome, e as chances de ele até ser seu vizinho são grandes. É um modelo muito mais saudável para o consumidor do que o que o governo está criando aqui no Brasil.

Voltando ao começo do texto, você não deve comemorar a queda no lucro dos bancos. Entenda que em uma empresa que tem seu ganha pão ligado diretamente com a sua saúde financeira, o resultado ruim de um é resultado direto do resultado ruim do outro. Ou seja, se um banco tem prejuízo, é porque o brasileiro não tem dinheiro nem para comprar lenço para limpar as lágrimas.

Resumindo: desconfie da inteligência de quem comemora o lucro baixo dos bancos, ou de quem defende aumentar imposto ou taxas do setor bancário. O banco é essencial para qualquer economia de sucesso, e quem fala o contrário ou é burro ou é mal intencionado, e é assim que você deve reagir sempre que encontrar um desses:

“Você não está apenas errado, você é burro”

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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