JBS na Lava-Jato: empresa arrasa economia, paga multa e sai no lucro

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Absurdo da JBS na Lava-Jato: empresa arrasa país, foge e pede desculpas pela bagunça
Absurdo da JBS na Lava-Jato: empresa arrasa país, foge e pede desculpas pela bagunça

Quarta-feira, 19 de maio de 2017. Faço uma visita ao Palácio do Planalto. Três horas depois que vou embora, o jornal O Globo divulga uma série de acusações contra o presidente do PSDB, o futuro ex-Senador Aécio Neves, e contra o presidente Michel Temer. A história é que o presidente do Grupo JBS, Joesley Batista, teria se encontrado com os dois e acertado propinas. A Aécio, dois milhões para que ele supostamente pagasse seus advogados na Lava-Jato. A Temer, ele teria dito que estava pagando pelo silêncio de Eduardo Cunha e mantendo sua amizade com ele, algo que Temer elogiou. As denúncias vão além, mas o teor que praticamente levou Temer a uma renúncia no dia seguinte foi esse. O que levou Joesley a fazer isso? Uma delação premiada para salvar sua pele e da JBS. Ou seja, joga-se a República no abismo para salvar o Grupo JBS. Vamos falar um pouco sobre o aspecto financeiro da JBS na Lava-Jato.

Quem é a JBS

Vou colar aqui um pedaço de um texto que escrevi chamado Guerra da carne: entenda a acusação de monopólio da Friboi e JBS:

“Embora a marca JBS tenha chegado aos ouvidos dos brasileiros há apenas três anos, os produtores rurais conhecem e temem a empresa há uns bons anos. Abastecida com um empréstimo do BNDES de R$ 7 bilhões, conforme informado pela senadora e ex-ministra da agricultura Kátia Abreu, a JBS compra pequenos e médios abatedouros ao redor do Brasil, além de grandes companhias internacionais (…) O primeiro crédito concedido pelo BNDES para a compra de outros frigoríficos no exterior veio em 2005, quando a companhia pegou emprestados R$ 287 milhões para absorver a Swift Co. na Argentina. De lá para cá o montante emprestado cresceu, assim como as aquisições, que transformaram a JBS em um negócio que rendeu em 12 meses, em 2014, R$ 110 bilhões. Com US$ 17 bilhões gastos até 2014, a empresa tinha negócios em cinco continentes e 21 estados em território nacional. Esse uso do dinheiro público para construir o monopólio da Friboi, motivou a senadora Kátia Abreu, do PMDB, a fazer críticas violentíssimas à JBS na tribuna do Senado ainda em 2013. Em 2012 os produtores chegaram a acionar o CADE, o Conselho Administrativo da Defesa Econômica, para investigar o chamado monopólio da Friboi.”

A encrenca da JBS na Lava-Jato

Entre zilhões de coisas, a encrenca da JBS na Lava-Jato se dá basicamente por corromper políticos em troca de favores no CADE (nas acusações de monopólio na Friboi), e na liberação de recursos do BNDES nos empréstimos a juros baixos para consolidação do monopólio da carne. Para termos ideia da podridão da relação: Michel Temer adiantou a JBS que abaixaria 1% na Selic. Essa informação vale muito dinheiro nas mãos certas. Em outro ponto da delação, lemos que a JBS mantinha 300 milhões de reais em propina na Suíça para uso exclusivo do PT. Da onde veio esse dinheiro? É o que precisa ser investigado, mas basta lembrar que somente em um único empréstimo a JBS conseguiu R$ 6,6 bilhões com o BNDES durante o governo Lula.

JBS na Lava-Jato: arrasa o país para escapar de punição

Adiantando um pouco no tempo.

Com medo da prisão e do futuro reservado a Marcelo Odebrecht, que vai passar alguns anos assistindo o Reveillon em Angra dos Reis pelas revistas, a diretoria e presidência da JBS acertou um acordo de delação premiada com a justiça de forma voluntária. Ou seja, ao invés de esperarem ser presos para falar, eles resolveram ser mais rápido. A coisa foi acertada assim:

JBS na Lava-Jato grava conversa com Michel Temer, Aécio Neves e provavelmente algum outro figurão ainda a ser revelado e confessa seus crimes. A punição? Pagamento de R$ 225 milhões em multa. Simples assim. Sabem qual foi a multa que a justiça impôs a Odebrecht? R$ 7 bilhões. A coisa fica pior ainda. Enquanto o presidente da Odebrecht está preso, os irmãos Batista, donos da JBS, foram autorizados a mudar para Nova Iorque. De lá, em um apartamento avaliado em R$ 30 milhões localizado na Quinta Avenida, ele está assistindo nosso país pegar fogo e a economia derreter. Somente com a queda da bolsa e a desvalorização do real, o país teve um prejuízo de cerca de R$ 200 bilhões apenas ontem, graças a delação.

JBS nos Estados Unidos: mudança?

Durante conversa gravada com Temer, Joesley Batista pediu ajuda na autorização junto ao BNDES para a sede da JBS ser transferida para os Estados Unidos. Paralelo a sua negociação com a justiça brasileira, a JBS também negociou um acordo de leniência com o governo americano. Lá vão pagar multa, fazer alguns acertos e, voilá, a empresa pode passar a operar lá.

JBS na Lava-Jato: jeitinho para escapar de multa

Mesmo com uma multa baixa, de meros R$ 200 milhões, menos sequer do que a companhia repassou ao PT em propinas, a JBS ainda quis dar um jeito de sair dessa história no lucro. De acordo com o Estadão, a JBS comprou entre US$ 700 milhões e US$ 1 bilhão em dólares na quarta-feira durante o dia, antes de explodir o escândalo. Somente com a valorização da moeda no dia de ontem, os ganhos da empresa nessa manobra foram de cerca de US$ 170 milhões, ou R$ 550 milhões. O suficiente para pagar a multa e ainda sobrar um bom trocado.

Uma sugestão de punição para JBS

O Governo do Brasil deveria propor um único acordo para os irmãos Joesley: a obrigatoriedade da venda do controle acionário do Grupo JBS, em um movimento coordenado pelo BNDES. Os dois irmãos, um fugido nos Estados Unidos, e outro impedido de sair do Brasil por ter tido o passaporte apreendido, devem ser afastados de qualquer atividade executiva na empresa. O dinheiro obtido com venda das ações da empresa deve ser utilizado para custear o pagamento de multa severa, indenizar as perdas do BNDES e da Fazenda brasileira. O restante deveria então ser depositado em juízo, para que os irmãos saquem e usufruam, mas somente depois de cumprir as penas decretadas pela justiça.

Este blog já criticou consideravelmente a Odebrecht (leia: A história da Odebrecht: do nascimento à corrupção na Lava-Jato). É necessário que as mesmas punições sejam aplicadas a todos os envolvidos no escândalo, é inconcebível que a Odebrecht pague R$ 7 bilhões de multa e a JBS apenas R$ 225 milhões. A dosimetria da pena tem que ser igual, sob o risco de que se passe a impressão de que no Brasil o crime compensa, e o mesmo pau que bate Chico não bate em Francisco.

Resumindo: Punição decretada pela justiça para a JBS é ridícula, e mesmo assim ela ainda fez piada da mesma, usando material que destruiria da corrupção para ganhar dinheiro suficiente para pagar a própria corrupção. E é assim que você deve se sentir ao saber que, aparentemente, o preço para destruir nosso país é baixo, meros R$ 225 milhões:

PS: Só para não ser parcial, publico a baixo a carta em que a empresa e os executivos, no luxo de New York, pedem desculpas pela bagunça:

“Erramos e pedimos desculpas.

Não honramos nossos valores quando tivemos que interagir, em diversos momentos, com o Poder Público brasileiro. E não nos orgulhamos disso.

Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades, nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos.

Ainda que nós possamos ter explicações para o que fizemos, não temos justificativas.

Em outros países fora do Brasil, fomos capazes de expandir nossos negócios sem transgredir valores éticos.

Assim construímos um grupo empresarial gerador de mais de 270 mil empregos diretos, com times extraordinários e competentes, que operam 300 fábricas em cinco continentes e oferecem mundialmente produtos de qualidade.

O Brasil mudou, e nós mudamos com ele. Por isso estamos indo além do pedido de desculpas. Assumimos aqui um Compromisso Público de sermos intolerantes e intransigentes com a corrupção.

Assinamos acordos com o Ministério Público. Concordamos em participar de alguns dos mais incisivos mecanismos de investigação existentes e nos colocamos à disposição da Justiça para expor, com clareza, a corrupção das estruturas do Estado brasileiro.

Pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos, que acreditam e torcem por nós.

Enfrentaremos esse difícil momento com humildade e o superaremos acordando cedo e trabalhando muito.

Joesley Batista”

“Pedimos desculpas a todos os brasileiros e a todos que decepcionamos, que acreditam e torcem por nós”

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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