A importância econômica da África para o Brasil

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O brasileiro no geral possui uma visão muito equivocada do continente africano. Erra por má fé ou desconhecimento quem imagina a África como um local assolado pela fome, miséria, guerras civis e comportamentos tribais atrasados. Embora esses problemas sejam presentes, eles não são realidade absoluta em todos os países, e mesmo quando existem, eles estão presentes em diferentes graus.

Com aproximadamente 30 milhões de quilômetros quadrados, o continente africano abriga dentro de suas fronteiras 54 países e cerca de 1 bilhão de pessoas. Somente como comparação, a América do Sul possui 17 milhões de quilômetros quadrados, 12 países e 388 milhões de habitantes. O PIB da América do Sul é de 3.4 trilhões de dólares, enquanto o PIB da África é de 2.2 trilhões de dólares.

Atualmente o Brasil possui missões diplomáticas em 37 dos 54 países africanos. Ao todo, o Brasil gasta anualmente cerca de R$ 3 bilhões com a manutenção de todas as embaixadas e consulados brasileiros mundo afora. Vale ressaltar que o Brasil está presente em 138 dos 194 países do mundo.

Por que o Brasil então se preocupa tanto com a África? Economia, meus caros.

Embora possamos imaginar que a África é um deserto repleto de guerra e desnutrição, ela é na verdade um continente repleto de riquezas e oportunidades. Alguns dados que devem ser ressaltados em relação a África:

  • Taxa de crescimento: os países africanos têm crescido em média 5% ao ano nos últimos 18 anos.
  • População: em 2030 aproximadamente 500 milhões de africanos pertencerão à classe média.
  • Velhice: a África possui uma população jovem e em 15 anos 60% da população terá menos de 18 anos, um total de 680 milhões de jovens.

Com o processo de descolonização na África, a sucessão de ditaduras militares de esquerda e de direita deixaram o continente dilapidado. As guerras civis destruíram a pouca infraestrutura dos países e o fluxo de imigração de refugiados esvaziou o continente de mão de obra qualificada ou com alto grau de escolaridade.

O continente africano é uma das maiores reservas mundiais por recursos minerais, como ferro e outros minérios básicos. É rico em pedras preciosas, a exemplo dos diamantes, conforme mostrado no filme Diamante de Sangue, com Leonardo de Caprio.

Faça agora uma soma de todos esses fatores:
1)   Grandes extensões territoriais.
2)   População jovem.
3)   Economia em crescimento constante.
4)   Grande concentração de recursos minerais.
5)   Infraestrutura destruída pela guerra.

Como imaginamos a África

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Como a África realmente é

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Um contexto na imagem acima: a Somália passou por uma guerra civil generalizada no início dos anos 90 (lembra do filme Falcão Negro em Perigo?), o que destruiu boa parte do país. Embora a Somália ainda sofra com violência civil, hoje há um governo eleito e sólido no controle do país, que ja não ocupa o topo do índice mundial de fragilidade humana. Podemos ver acima o que alguns anos de paz e tranquilidade faz com uma nação devastada. Imagine décadas.

A grande extensão territorial significa que os países têm para onde crescer e expandir. A população jovem mostra um país com alto grau produtivo, ao contrário dos países com população mais velha, e com maior grau de aposentados por trabalhadores ativos (caso do Brasil). A economia em crescimento mostra que o ambiente financeiro dentro do país é positivo e aquecido, fator vital para investidores, já que as chances de ganho acabam sendo maiores.

O mercado de commodities, também representado pelos recursos minerais, permite a capitalização rápida já que não exige transformação, apenas a remoção do solo e transporte para venda. O ganho rápido é bom para o investidor, que recupera seu dinheiro, e também para o país, que consegue divisas internacionais (dólares) de forma simples, permitindo assim o investimento em outras áreas do país.

Por fim, e talvez um dos fatores mais importantes, estão os reflexos das inúmeras guerras civis. A democracia tem tentado se estabelecer na África nas últimas décadas. O colonialismo trouxe uma ruptura na sociedade até então semi tribal africana, e a partida das potências europeias deixou um vácuo no poder africano. Esse vácuo ocasionou as guerras civis partidárias, religiosas, étnicas e derivados. Com elas vieram a destruição de casas, rodovias, escolas, hospitais e de toda infraestrutura como um todo. Isso tem de ser reconstruído, e um país recém-saído de uma guerra não tem condições para tal. Como ele faz isso? Trocando recursos minerais por serviços de construção e compra de tecnologia.

A África é importante – e muito

Durante o governo Lula o Brasil se preocupou em demasia em expandir seus negócios com os países africanos, e muitos criticaram essa medida do antigo governo. Eu fui um desses críticos, e me baseei no mero preconceito e na minha desinformação para tal. Críticas ao ex-presidente à parte (e eu tenho muitas, como vocês sabem), a decisão de expandir a relação política e econômica com o continente africano foi muito acertada. Por que?

1)   A África é um continente onde o Brasil teve, historicamente, uma relação econômica deficitária. Isso significa que o Brasil exporta menos para a África do que importamos dos países africanos. Isso mudou nos últimos três anos, algo que pode ser fruto do aumento da presença política brasileira na região.
2)   Por ser um continente mais pobre que o brasileiro, nós conseguimos fazer negócios de maior valor agregado. Mais explicações abaixo.
3)   O Brasil é o país gigante mais próximo geograficamente da África, já que apenas um oceano nos separa, o que facilita o deslocamento de mercadorias.
4)   Somos um dos países com maior expertise na exploração agrícola do semiárido, graças aos trabalhos da Embrapa no nordeste e no centro-oeste brasileiro. Isso transformou a Embrapa em uma das empresas mais capacitadas para operar na de desertificação africana.

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Leiam este texto publicado no portal Por Dentro da África, da jornalista Natália da Luz. Ela criou o portal em 2013 e, sem nenhum tipo de apoio financeiro empresarial ou governamental, faz uma cobertura muito interessante sobre o cotidiano do país. Vale ressaltar que quase todos os colaboradores do site são nascidos ou habitam no continente. A Natália trabalha nas Nações Unidas e já recebeu diversos prêmios na África pelo trabalho desenvolvido.

Valor agregado x Commodities

A revolução industrial possibilitou que o que antes era artesanal, como a produção de um copo, se tornasse algo mecanizado. A isso damos o nome de indústria de transformação, já que ela é responsável por transformar uma barra de ferro em uma chapa de aço que, posteriormente, se transforma em um carro.

Uma tonelada de ferro custa aproximadamente R$ 350, enquanto um carro, que pesa a mesma uma tonelada, custa aproximadamente R$ 30.000. Esse processo de valorização pós transformação ocorre em toda cadeia produtiva, já que o minério exportado pela África retorna para o continente na forma de televisões, rádios, adereços e outros utensílios.

A grande oferta de minério e matérias primas e a enorme necessidade por produtos de valor agregado torna a África um mercado cobiçadíssimo. O resultado disso é o aumento constante da presença chinesa, russa, indiana e americana no continente. A grande diferença é que a dificuldade de penetração e competitividade dos nossos produtos e serviços na europa não existe na África. Além do fator linguístico, que facilita o relacionamento com os países que também foram colônias portuguesas, pesa favoravelmente ao Brasil a postura neutra adotada em nossa política. Não somos belicistas e não temos por hábito interferir na política local. Isso transforma o Brasil em um parceiro neutro, que pode fazer negócios independente do governo ou facção que está no poder.

Balança comercial entre Brasil e África

A presença brasileira na África tem destaque internacional. Além do empréstimo nacional para empresas brasileiras atuarem no exterior, embora tenhamos visto como a Odebrecht e outras construtoras tenham “abusado” desse sistema, o estabelecimento político nos países africanos também facilita a navegação nos tramites burocráticos locais.

Muitos criticaram o investimento em uma embaixada em países como a Libéria, por exemplo. Eu fui um deles. A embaixada brasileira na Libéria foi aberta em 2011. Veja no gráfico abaixo a evolução do nosso comércio com a Libéria desde então:


Ou seja, no período entre 2011 e 2017, o saldo comercial favorável ao Brasil foi de aproximadamente US$ 170 milhões, ou R$ 600 milhões. Se descontarmos o custo operacional que o Brasil teve na manutenção da embaixada da Libéria, que custa anualmente cerca de R$ 2,2 milhões, o Brasil teve um lucro de aproximadamente R$ 584 milhões. Não é pouca coisa se considerarmos que a Libéria, hoje presidida pelo ganhador do premio de melhor jogador de futebol do mundo em 1995 George Weah, viveu uma guerra civil até 2003.

Vamos dar agora uma olhada no histórico brasileiro no continente como um todo. Vamos usar como parâmetro os dados disponíveis no site do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, que datam de 2000:

Como podemos ver no gráfico acima, o Brasil teve historicamente com o continente uma relação comercial deficitária, embora a diferença entre importação (prejuízo) e exportação (lucro) tenha sido pequena. Com o processo de aumento da nossa presença política na região, inicialmente o prejuízo aumentou (como podemos ver entre os anos de 2007 e 2014), mas em 2015 a diferença diminuiu e a balança comercial se tornou superavitária em 2016 e 2017. O ano de 2018 ainda não acabou, mas de acordo com os dados do primeiro semestre, a balança comercial Brasil/África está superavitária em 1,2 bilhões de dólares.

A política internacional nunca é de curto prazo, e medidas demoram muito tempo para começarem a dar frutos, assim como uma empresa só pode esperar lucro líquido no quarto ou quinto ano de funcionamento.

Um país em frangalhos que percebe no Brasil um parceiro na hora da dificuldadetenderá a fazer negócios conosco quando sua economia melhorar. Além disso, ao participar da reestruturação dessa economia, o Brasil acaba transformando todo setor econômico daquele país em dependente de nossa produção, já que empresas/comércios/consumidores africanos estarão habituados a fazer negócio com o Brasil. Devemos observar essa questão sob o ponto de vista de terra ocupada. Quem trabalha com representação comercial (vendedor) sabe que é MUITO mais difícil convencer um comprador a trocar de fornecedor, do que convencer um comerciante a comprar algo pela primeira vez. É por isso que a Coca-Cola e outras empresas investem em programas de fidelização de varejo, como padarias, lanchonetes e derivados.

Responsabilidade social

Por fim, devemos finalizar com o fator humano. Países que se preocupam com a África somente no envio de ajuda humanitária não estão fazendo um grande serviço para o continente. A comida ajuda, mas muito mais importante do que dar o peixe, é ensinar a pescar, e é isso que o Brasil tem feito com a presença da Embrapa, de convênios educacionais entre as universidades brasileiras e as universidades africanas e derivados.

A Libéria, que eu usei como exemplo neste texto, é apenas um dos diversos países onde o Brasil desenvolve papel fundamental no auxílio para a reconstrução do país. Devido às guerras civis as Forças Armadas da Libéria foram desmobilizadas e o país não conta sequer com uma Força Aérea. Isso foi feito para que golpes militares não voltassem a ocorrer. Agora que o país está pacificado, as Forças Armadas do Brasil possuem convênios para o treinamento, modernização e estabelecimento de protocolos de qualidade e segurança dentro das forças armadas liberianas. Não é surpresa, portanto, que o Brasil tenha sido cogitado para liderar a Missão de Paz da ONU na República Centro Africana, algo que, infelizmente, foi abortado pelo Brasil por conta do custo. Uma pena e um erro, já que boa parte dos gastos são reembolsados pela ONU e o Brasil teria a oportunidade de, não só auxiliar na pacificação de um país, mas também aprender novas técnicas com as outras Armas Internacionais envolvidas.

Fuzileiros Navais do Brasil sendo condecorados pela Marinha Liberiana pelo apoio prestado. Fonte: DefesaNet.

Ao investir na África e em seu desenvolvimento o Brasil não está só investindo em futuros parceiros comerciais, mas também no futuro de bilhões de pessoas. É por isso que o Brasil tem uma boa imagem no continente, enquanto outras potências, preocupadas somente com balança comercial e exploração, não são bem vistas.

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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