Governo Temer nasce e economia dá sinais de ressuscitação

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Governo Temer começa em meio a crise sem precedentes, mas com sinais de recuperação.
Governo Temer começa em meio a crise sem precedentes, mas com sinais de recuperação.

A grande moda da década passada eram os Reality Shows. Big Brother, No Limite, Casa dos Artistas, Casa dos Desesperados e até mesmo a tal da Fazenda. Acompanhar o sofrimento dos outros é bom, fazer isso ao vivo e 24 horas por dia é melhor ainda. Sendo assim, é natural que investidores do mundo inteiro seguissem com muita atenção nosso cenário político e econômico. Assim como a saúde financeira de um casal reflete diretamente no sucesso do matrimônio, o êxito político de um governo é responsável direto pelo desempenho da economia de um país. E é por isso que, tal como um cidadão que em coma não pode trabalhar para pagar as contas, um governo moribundo não podia articular para retomar a economia. Morreu o governo Dilma, nasceu o governo Temer. As incertezas são muitas, as certezas são poucas. Como disse o banqueiro Saul Sabbá, na área econômica é preciso trabalhar com sinais e trilhar, com base nisso, o melhor caminho. O governo Temer acabou de nascer e os sinais vitais dele são fracos, mas eles existem. Vamos falar sobre isso.

Vivo a política diariamente há quase dez anos e, mesmo assim, entendo apenas uma pequena fração do que acontece em Brasília. Em um governo Temer, teremos de esquecer analogias futebolísticas, mandiocas e mulheres sapiens e aprender a falar latim. Como ainda estamos no luto, farei aqui uma analogia pela facilidade que elas proporcionam. Meu conhecimento político me permite olhar o céu, ver as nuvens, sentir o vento e deduzir que vem aí tempestade. É um saber superficial, mas útil. Especialistas do assunto, como as amigas Regina Brasília e Nariz Gelado, encostam o ouvido no chão e sabem quantos cavalos vêm além do horizonte, quantos carregam, para onde vão e, sem exagerar, se os índios estão de bermuda ou desnudos. Por que digo isso? Como diria o saudoso Goulart de Andrade: vem comigo.

A política brasileira não é para amadores. Se para mim e para elas duas é difícil ler o cenário completo, imaginem para um leigo, um investidor estrangeiro ou, até mesmo, para um simples telespectador gringo. A comunidade internacional tem bastante dificuldade em entender o seguinte: saímos de uma ditadura, abrimos nossa economia para o mundo com sucesso, tivemos importantes avanços tanto sociais quanto de industrialização e, quando tivemos influência para compor um dos mais importantes blocos econômicos da atualidade – o BRICS, ao lado de China, Índia e Rússia, vimos tudo ruir com um escândalo de corrupção nunca antes visto na história desse país – parafraseando um dos nossos antigos presidentes. E, mesmo assim, como visto na seção de ontem que afastou Dilma definitivamente da presidência, demos uma “colher de chá” para a ex-presidente.

Um leitor inocente lê o caso assim: os senadores estão com dó da Dilma.

Um leitor casual lê o caso assim: O PT fez algum acordo com Renan Calheiros.

Um leitor interessado lê o caso assim: A colher de chá foi uma manobra de Renan, que quer aumentar seu passe junto ao novo governo.

Um leitor profissional, como as duas citadas acima, lê o caso assim: Parte do PMDB, encrencada com a Lava-Jato, usa a Dilma para abrir uma brecha e conseguir foro em caso de cassação ou maiores problemas causados pelo Moro. Viram a chance, aproveitaram e deixaram o problema no colo do Temer, presidente da nação e que pertence ao partido deles.

Entenderam a confusão? Em qual dos quatro graus de saber vocês acham que um leitor internacional vai se enquadrar? Até onde um investidor médio europeu consegue ler nossa política?

Eis o xis da questão da importância de um governo politicamente sólido. O investidor não quer saber, por não entender, dos meandros e dos sotaques brasileiros na nossa política. Tudo que interessa a ele é a certeza de que, por mais confuso que seja o Congresso, está sob o controle do mandatário e que a população o respeita e acata.

Repito. Se para nós é difícil entender,  imagina para quem não vive essa cultura todo dia? E isso não é papo de “vira-lata”, aquela famosa expressão pejorativa de quem se preocupa com a percepção dos estrangeiros sobre os brasileiros. Não. Eles têm capital investido aqui e se estão inseguros, simplesmente procuram outro lugar para investir e o nosso problema tende a piorar.

Desde o afastamento da presidente Dilma, o mercado vem dando sinais de que o Brasil está no rumo certo. E isso não tem a ver com não gostar dela em si, mas com não acreditar na capacidade dela para articular a aprovação de medidas eficazes que mantenham a economia forte, mesmo que estas sejam impopulares.

A importância de um governo sólido

O mercado precisa de confiança e o presidente Temer passa essa sensação aos investidores. Ao contrário do que parece, essa não é uma tarefa fácil. Nós brasileiros comuns entendemos a economia em termos práticos, como: qual o preço dos remédios, quanto custa energia elétrica, combustível ou viajar para o exterior. Para quem tem a visão macro – que é o que esperamos de um Presidente da República ou de um Ministro da Fazenda e Relações Exteriores – a confiança é entendida como multinacionais mantendo subsidiárias (e consequentemente os postos de trabalho) aqui, com reputação para exigir melhores condições em tratados comerciais internacionais, como ter portas abertas para brasileiros em qualquer país do mundo.

Em conversas com empresários influentes, banqueiros e outros detentores da bufunfa, ficou claro para mim uma coisa: há dinheiro e há vontade de investir e voltar a trabalhar, mas antes era necessário que o governo fornecesse ao mercado duas coisas:

  1. Solidez do governo
  2. Compromisso fiscal e econômico

O primeiro item foi cumprido ontem, quando Dilma foi despachada para o bairro Tristeza, em Porto Alegre. A ex-presidente levou junto dela a mãe, livros e apenas um de seus cachorros, a Fafá. O Nego, presente de José Dirceu, ficou para trás. Futura moradora da Tristeza em Porto Alegre, Dilma não deixou sequer saudades. Falta agora o segundo item, e é por isso que Temer tinha pressa para receber a faixa presidencial. Ele precisa assinar acordos econômicos internacionais, que dependiam do sinal dado ao mundo de que temos agora um governo sério. Ele precisa também parar de fazer acordos e concessões políticas, necessários à obtenção dos votos no impeachment. O mercado e a população entendeu que até agora, os acordos “sujos” eram necessários pois, como Temer diria, “Quum finis est licitus etiam media sunt licita”, ou o fim justifica os meios. Ele agora tem de parar com isso e começar a trabalhar sério, sem levar desaforo para casa, como ele mesmo disse.

O governo Temer começou ontem com o seguinte saldo:

  • 12 milhões de desempregados (com meio milhão como saldo da interinidade)
  • PIB em queda pelo sexto trimestre consecutivo

Por outro lado, embora em queda, o PIB já mostra reação em alguns setores. Os especialistas ainda não sabem como vai acontecer a retomada do crescimento brasileiro, mas apontam que o novo governo tem imagem técnica e responsável, o que é essencial para estabelecer a confiança.

Ao contrário do governo antigo que sucumbiu por morte cerebral, o novo governo, recém-nascido, tem pulso fraco. É fraco, mas tem, e isso já é um grande alento. Todos os especialistas com quem o Econoleigo conversou são claros em afirmar que a situação daqui para frente é de melhora econômica. Fecharemos 2016 no negativo, mas o ano que vem já terá crescimento positivo. Será tímido, mas será um crescimento.

O processo do impeachment foi longo e doloroso para todos, mas lições valiosas foram ensinadas e aprendidas. Que os governantes aprendam que o dinheiro do governo não é infinito e que contabilidade criativa não existe. Aos que dizem que quem era a favor do impeachment só queriam ver o circo pegar fogo, basta responder que não, pois o circo também é nosso e, ao contrário dos socialistas de iPhone, nós temos apreço pelo que é nosso, pelo que é deles, inclusive.

Resumindo: O amanhã só Deus conhece, mas do passado eu me lembro bem, e é assim que você deve se sentir ao saber que o mercado inteiro, interno e externo, respirou aliviado com o final do pesadelo de Tristeza:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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