Governo Michel Temer destrói política externa do Brasil para tentar se salvar

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Política externa do Brasil não existe mais, e país é ignorado ate por BRICS

Três meses atrás atrás escrevi um texto elogiando Michel Temer por ter tirado o Brasil da crise. Os números são claros e, gostemos dele como presidente ou não, o fato é que seu governo trouxe o país de volta para o crescimento econômico. Agora chegou a vez de criticar o governo que não foi eleito por mim mas que, em minha opinião, tem lá seus acertos, e a política externa do Brasil e a forma de se fazer economia no âmbito internacional não é um deles. Vamos hoje mostrar no Econoleigo de hoje como o Brasil está regredindo anos na área das relações internacionais e no papel do Brasil em relação às grandes potências mundiais.

Antes de mostrarmos os equívocos brasileiros na área, é preciso explicar o que é política externa, como ela funciona e porque ela é importante para o desenvolvimento de qualquer país que não viva de forma isolada, como a Coréia do Norte.

O que é política externa

A política externa é a forma como um país se relaciona com outros países, ou com determinadas regiões ou blocos econômicos. Por exemplo, o Brasil possui uma política externa para o Mercosul, outra para lidar com os países africanos, outra para negociar com a União Européia, e por aí vai. Todas essas políticas externas, ou micro-políticas externas, são baseadas em uma grande “política externa”. Quando um presidente ou uma primeira ministra assume um país, ela e seu governo determinam qual será a política externa durante os anos em que ela estiver no poder. Durante a Ditadura Militar brasileira, por exemplo, nossa diretriz visitava uma aproximação com os Estados Unidos e aproximação comercial com o continente africano e oriente médio. Durante os dois últimos governos, tivemos uma política de aproximação com potências antagônicas aos Estados Unidos, e também de incentivos comerciais e de desenvolvimento com nossos vizinhos na América Latina.

As relações internacionais, ou a política externa, é sempre um conjunto de ações políticas, diplomáticas, educativas, transferência de tecnologia, entre outros, que tem, no final do dia, o objetivo de trazer um determinado retorno econômico ao Brasil. Esse retorno pode vir com dinheiro, através acordos comerciais ou tratados de livre comércio, ou então através de dividendos políticos, que é quando você incentiva comercialmente as nações mais pobres ao seu redor para que, nas reuniões dos países mais ricos você possa falar por esses países, ou seja, um líder regional.

Política externa do governo Dilma e Lula

Nos últimos 16 anos foi muito comum ver notícias sobre enfrentamentos entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que falávamos “fino” para países da América do Sul, ou negociávamos com Irã, China ou Rússia. Isso tudo foi feito com um objetivo, com uma política externa bem definida: abrir novas fronteiras que antes não eram tão receptíveis ao Brasil, como China e Rússia, ao mesmo tempo em que se fortalecia regimes de esquerda na América do Sul, levando o continente para um espectro político mais favorável politicamente ao PT e seu projeto de poder. Goste dessa política externa, ou não, pelo menos havia um objetivo no que o Itamaraty fazia.

Política externa do Brasil no governo Temer

Talvez por uma questão ideológica, ou para tentar aproximar-se da população contrária ao governo Dilma, Michel Temer e o Itamaraty começaram a desfazer tudo o que foi feito durante o governo Dilma. Até aí tudo bem, eu concordo com a decisão de se afastar de governos ditatoriais como a Venezuela. O grande problema do governo atual foi ter acabado com a política externa da Dilma e não ter criado a política externa do Governo Temer. Como isso? Simples.

Dilma Rousseff aproximou o Brasil da China e da Rússia durante seu governo. Os motivos? Além do ideológico, já que o governo tinha uma orientação de esquerda, e a China é uma república comunista e a Rússia é a mãe da União Soviética, havia também os fatores econômicos. A Rússia tem boa parte do seu território atingido pelo inverno, e a China (o país com a maior população do mundo) está focando economia na produção tecnológica. Isso significa que os dois países precisam comprar comida de alguém, e este alguém era o Brasil. O governo atual acabou com a aproximação “comunista” e tentou de forma tímida aproximar o Brasil dos Estados Unidos, mas o país de Mickey Mouse não deu bola para nós. O Reino Unido iniciou o processo de saída da União Européia, e o Brasil não se deu ao trabalho de tentar construir pontes na área de fornecimento de alimentos e energia, as famosas commodities.

No campo local, a primeira decisão do Itamaraty, que é o nosso Ministério das Relações Exteriores, ou seja, o pessoal que manda em como o Brasil de comporta com outros países, foi endurecer a postura em relação a Venezuela. Paramos de fazer vista grossa e ignorar as violações aos direitos humanos na Venezuela, e isso é ótimo, começamos a reprimir o país em relação ao Mercosul. Isso é bom, mas isso foi tudo. Maduro, o ditador da Venezuela, prende e mata estudantes, solta policiais em cima de manifestantes, e o Brasil não faz nada em relação a isso. O Brasil era antes líder ao patrocinar regimes de esquerda, e agora não só não fazemos isso, como também não somos líderes, de fato, no combate a um crime claro aos direitos humanos.

Brasil se queima com China e Rússia

Nos últimos anos o Brasil estreitou muito as relações com a China, como quase todos os outros países do mundo, afinal os chineses tem dinheiro e apetite para comprar. O mesmo vale para a Rússia. Nossa relação se tornou tão próxima que criamos o Novo Banco de Desenvolvimento, que tem como “donos” o Brasil, a Índia, a China, a Rússia e a África do Sul, também conhecidos como BRICS (siglas para as iniciais em inglês dos países, e que serve como um FMI dos países em desenvolvimento). O NBD seria um banco onde países subdesenvolvidos poderiam pegar dinheiro de forma mais barata, e também para aproximar as cinco maiores economias emergentes do planeta. Embora ainda façamos repasses e parcerias com o NBD, o engajamento do Brasil com o tema é muito menor.

A distância brasileira dos chineses e russos se fez notar nos últimos dois meses em duas ocasiões bem distintas:

  1. China: Os chineses lançaram semanas atrás o projeto “Um Cinturão, Uma Rota”, que é um projeto bilionário de investimentos em infraestrutura de outros países com objetivo de diminuir a distância entre China e o Mundo. Serão bilhões gastos em portos, estradas, aeroportos e derivados. O evento contou com a presença de chefes de estado de 28 países, como Vladimir Putin, Mauricio Macri, Michelle Bachelet e o Mariano Rajoy. Michel Temer não compareceu.

    Projeto Um cinturão, Uma Estrada
  2. Rússia: Michel Temer visitou a Rússia em junho e não foi recebido nem por Putin, presidente, nem Medvedev, primeiro-ministro. É praxe que um emissário estrangeiro seja recebido no aeroporto por alguém de cargo equivalente, e a quebra desse protocolo, que se repetiu também na Noruega, mostra que o governo brasileiro não tem a menor importância no exterior. Chamar o Rei da Noruega de Rei da Suécia também não ajudou. Ter um ministro do meio ambiente que, ao ser perguntando se podia garantir fim do desmatamento, respondeu que “só Deus sabe”, também não.

É importante notar, por exemplo, que a inação do Temer não significa que o Brasil não negocie com a China, muito pelo contrário. Todos os meses negociamos bilhões de dólares com o país asiático. Isso não é mérito do governo atual, e sim pela simples necessidade do governo chinês, que precisa comprar algo que o Brasil tem para vender. Além das vendas de alimento, que seguem em alta na China com a migração dos campos para as cidades, o Brasil também ganha muita grana com tecnologia. A Embrapa, empresa pública brasileira, é a maior parceira na transferência de tecnologia para as fazendas chinesas existentes na África, transformando deserto em terra produtiva. Isso é fruto do trabalho desenvolvido pela entidade no centro-oeste brasileiro, com o Cerrado, e também que o estreitamento de relações com as nações africanas que vem desde a ditadura militar.

Temer acaba com imagem do Brasil no G20

O G20 é o encontro das 20 maiores economias do mundo. Mesmo na crise, o Brasil é a 10ª maior economia do planeta. O G20 é o principal evento para quem quer fechar acordos, defender alguma política interna ou simplesmente vender a imagem do país no exterior. O G20 é tão importante que ele acabou com o antigo G7, que era o encontro das sete maiores economias. O encontro deste ano foi realizado na Alemanha e, vejam só, Michel Temer tinha sido convidado para ter uma reunião particular com Angela Merkel, chanceler (tipo a presidente) da Alemanha desde 2005. Cerca de 30 países iriam ao encontro, e o convite para um encontro particular com Merkel era uma oportunidade rara para o fechamento de negócios. Como Temer disse que não iria ao G20, pois tinha que articular sua defesa no processo de cassação, o encontro foi cancelado, assim como outros itens de agenda que previam a participação do Brasil, por mais que o Brasil fosse substituído por outro emissário na ausência de Temer. No final das contas o presidente foi, mas além das reuniões conjuntas, que é onde não se decide coisa alguma, nada de produtivo foi feito além das fotos e jantares protocolares.

Ou seja, quando Temer disse que não iria ao G20 para focar no Congresso Brasileiro, passamos a seguinte mensagem para o mundo: o governo brasileiro é tão fraco que não pode sequer viajar sob risco de deixar de existir. Esse é um ponto já visto a muito tempo pelos outros países. Ao deixar de recepcionar Temer no aeroporto, Rússia e Noruega não estão fazendo uma crítica aos escândalos de corrupção, até porque eles existem em qualquer lugar, o que estes países estão dizendo é o seguinte: “Não vale a pena fazer negócios ou construir uma relação com alguém temporário, que vai embora em pouco tempo”. Como se contorna isso? Você força uma narrativa, como um embargo econômico contra a Venezuela, ou uma visita a China nem que seja para aparecer na foto do lançamento de um programa do governo chinês. Isso mostra que você respeita aquele país. Na boa, com 150 “solteiros” no mundo, você vai gastar sua única sexta-feira livre para sair com aquela pessoa que sequer curtiu seu post no Facebook contando sobre o carro novo?

De forma resumida, é isso. Para sobreviver politicamente Temer foi obrigado a focar nas reformas econômicas, algo que tirou o Brasil da crise e que deve ser sempre lembrado. Por outro lado, ao fazer isso Temer tirou o Brasil também do cenário internacional. Vale lembrar que pouco tempo atrás a Alemanha classificou o Brasil como uma nova peça essencial na política internacional. A apatia que o mundo tem com o Brasil não significa, necessariamente, que deixamos de ser importantes, mas que (e isso sendo otimista) perdemos terreno e muito do que foi feito por Fernando Henrique, Lula e Dilma na questão internacional.

Resumindo: Assim como Dilma, Temer se agarra ao cargo com todas as forças, mesmo que isso custe caríssimo para o país e para quem os elegeu (vale sempre lembrar que Temer foi vice da Dilma, e o voto em um comprou o outro), e é assim que você deve reagir ao saber que nosso governo atual é tão frágil que Temer, aparentemente, não pode nem passar uma semana fora sem risco de ser cassado:

Gostou do texto? Boa parte das informações foi tirada do Podcast Xadrez Verbal, do irmão palestrino Filipe Figueiredo. Gosta de política internacional? Então ouve!

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

2 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo texto! Foi bem preciso e claro, condizente com a diretriz do blog.
    O único ponto que você se extrapolou foi no fim, quando você fez crítica cínica quanto a quem votou na Dilma e “elegeu” o Temer. As propostas eram outras, e você sabe que o PSDB sempre teve papel importante nesse governo (daí o cinismo). É meio que tirar o seu da reta. Não sei se você se encaixa, mas a grande maioria de quem não votou na Dilma votou em um COMPROVADO corrupto. Você fez basicamente o mesmo daquele pessoal que saiu com camisa “a culpa não é minha, eu votei no Aécio”. Enfim, foi desnecessário, mas não tira o valor do excelente texto.

    Abraço!

    • Opa Daniel, tudo bom?

      Eu não votei na última eleição porque estava em trânsito nos dois turnos. O comentário foi cínico sim, mas foi de propósito. Quem votou na Dilma renega Temer, mas comprou os dois com o mesmo voto.

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