Falta muito para o fundo do poço?

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Quanto falta para nossa economia chegar no fundo do poço?

Quando criamos este blog no meio do ano passado, o Brasil se dividia em três blocos comportamentais. Havia aqueles que sabiam que o país estava mergulhando na crise, aqueles que sabiam que a crise viria, mas que precisavam negar isso a qualquer custo, e como sempre em um país deste tamanho, havia aquele grupo de pessoas que era indiferente ao assunto. Os meses passaram e nossa economia continuou a derreter, e logo a divisão mudou. Hoje o Brasil é uma espécie de Fla Flu ou Palmeiras e Corinthians. Existem aqueles que, como nós, sabem o tamanho do buraco que o governo nos enfiou, e há aqueles que negam a crise e suas consequências, mas não porque não acreditam nela, mas porque esse é o trabalho deles.

No dia 4 e 7 de janeiro escrevemos nossos primeiros textos de 2016, chamados Sinais de que a economia do Brasil em 2016 será bem ruim e Previsão dos indicadores da economia do Brasil em 2016. Nestes dois posts deixamos claro como funciona o organismo vivo chamado governo e como as consultorias habitam em volta dele. O governo divulga previsões otimistas sobre a economia, com números que nem mesmo o mais catequizado dos militantes acredita, e as consultorias publicam números piores que os do governo, mas ainda assim menos pessimistas do que eles realmente são. Com o decorrer do ano, o resultado péssimo do trabalho feito na administração pública força o governo a rever os números, aumentando a inflação real do ano e também a projeção do crescimento (nos casos de 2014, 2015 e 2016, temos retração) da economia. As consultorias acompanham este movimento de forma sistemática, mas a revisão de seus números é mais rápida, logo descolando da margem do governo e aproximando-se dos números reais.

Aqui no Econoleigo a coisa é diferente. Como não temos negócios e não dependemos do governo, nossos números são crus. Podemos errar? Podemos, mas também acertamos. Um exemplo dos nossos acertos está no texto Previsão dos Indicadores da economia do Brasil em 2016A economia do Brasil encolheu no ano passado, e o PIB de 2015 foi de -3,5%, segundo o Banco Central. Não precisa ser um gênio para, olhando todos os indicadores acima, deduzir que este número em 2016 será pior ainda. O ano nem começou e o mercado já diz que o PIB em 2016 será de -2,9%. O Econoleigo vai além e prevê um encolhimento maior, com PIB em 2016 de -3,8%.

Nós acabamos de entrar em março e as consultorias que apostaram em retração econômica de -2,9% já reviram seus números, e apostam em queda de 3,8% a 4% do PIB. A Tendência Consultoria, por exemplo, apostava em uma queda de 3% e ajustou o número ontem para 4%.  O Econoleigo provavelmente vai rever sua previsão, mas não agora, só mais para frente, quando observamos a conjuntura política e fiscal do Brasil.

Voltando ao motivo real do texto e respondendo a uma pergunta que nos fazem constantemente. Falta muito para o fundo do poço? Sim, falta. Infelizmente. O Brasil está passando por um processo conhecido popularmente como choque de realidade. A maquiagem administrativa e fiscal implantada pelo governo só durou até metade de 2014. O Brasil agora vai, aos poucos e dolorosamente, caindo na real.

O primeiro fator que ainda vai piorar muito, e que vai contribuir para a crise, é a situação política da presidente Dilma. As investigações da Lava-Jato finalmente chegaram ao Palácio do Planalto com a prisão do marqueteiro João Santana e sua esposa, presos na chamada Operação Acarajé. Há quem diga que a Polícia Federal já tem provas que incriminam ela e o ex-presidente Lula, mas que a polícia está aproveitando para desmontar o castelo de cartas da corrupção erguido na política brasileira. Vão sangrar nossos políticos aos poucos. Para a presidente Dilma isso é péssimo, já que as constantes investigações e prisões de pessoas próximas a ela vão acabar minando ainda mais sua posição, que já é extremamente frágil. Sem força política, a Dilma não terá condições de conduzir os rumos políticos de seu governo. Se ela conseguir chegar até o final de seu mandato, e coloquem um grande se nessa equação, ela será uma mera passageira dentro de um barco desgovernado em um mar revolto. Sem forças políticas, a presidente não conseguirá propor ajustes fiscais, previdenciários, tributários e muito menos políticos. Ou seja, não teremos uma mão forte para nos tirar do mar de lama atual.

O segundo fator que ainda vai deteriorar é o desemprego. Muitas empresas ainda estão abertas pois tinham alguma gordura para queimar. A falta de acesso ao crédito (leia mais sobre isso aqui) somada à falta da confiança na indústria, que caiu 1,5% em fevereiro, deixa claro que muitas fontes de emprego ainda vão abaixar as portas. Nós prevemos uma taxa de desemprego de 10,2%, mas tememos que este número deve subir um pouco, mas ainda não temos um número preciso.

O terceiro e último fator preponderante é a inflação. Normalmente a inflação é controlada com a taxa de juros, que é o que baseia o custo de empréstimos e financiamentos, já que teoricamente se fica mais caro comprar, as pessoas deixam de consumir e, consequentemente, a inflação cai. Aparentemente essa regra universal não se aplica ao Brasil, pois o governo subiu a taxa de juros (a Selic) e a inflação continuou a subir. Este mês o IPC (entenda o que isso significa aqui) deve cair um pouco, mas apenas porque o governo abaixou a tarifa de luz e a tarifa de ligação de telefone fixo para celular.

Como especulou em seu artigo Saul Sabbá, presidente do Banco Máxima:

Possivelmente seremos obrigados a aprofundar ainda mais a crise para que a inflação comece a cair, pois o efeito da força da política monetária via juros, aparentemente, continuará neutro. Mas apesar de toda dificuldade do quadro, temos de seguir em frente e nos mantermos firmes e confiantes que muitas oportunidades também deverão surgir.

Fonte

Resumindo: É impossível especular qual a profundidade do poço que a crise nos enfiou. A única certeza que temos é que ele ainda está longe de chegar, e muita gente vai perder o emprego e o sustento antes de finalmente chegarmos nele. Ainda tem que piorar muito para ficar bom, e é assim que você deve se sentir ao ler isto:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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