Entrevista com Leonardo Carlos Chaves sobre concursos públicos e como funcionam

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Entrevista com Leonardo Chaves Chaves o maior especialista em concursos públicos do país
Entrevista com Leonardo Chaves Chaves o maior especialista em concursos públicos do país

A crise financeira e a instabilidade do mercado de trabalho convencional, e também a vocação de algumas pessoas pelo serviço público, fazem com que a procura pelos concursos públicos e pelo funcionalismo cresça ano após ano.

O processo seletivo é extremamente complexo e exigente, e alguns concursos exigem anos de preparação solitária e também de cursos preparatórios, como cursinhos semelhantes aos pré-vestibulares. Tudo isso em busca de um salário justo, vínculo empregatício inquebrável e a estabilidade financeira que o funcionalismo permite.

Se há um benefício atraente no curso é natural pensar que há também muitos desonestos que tentam burlar o sistema, passando na frente de quem estudou e se aplicou para aquela prova. Como garantir que isso não aconteça, e que somente os melhores cheguem ao serviço público? Através de um complexo sistema de organização, que vai de carro forte para transporte de provas ao confinamento da banca produtora da prova para evitar vazamentos.

Na véspera da eleição mais disputada da história, e certo de que a procura por concursos só tenderá a aumentar, o Econoleigo procurou um dos maiores especialistas em concurso público do Brasil, Leonardo Carlos Chaves, para bater um papo sobre o tema e entender como funciona essa industria importantíssima e que lida com os profissionais que administrarão a nação.

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Econoleigo: Antes de tudo bom dia, senhor Leonardo Carlos Chaves. Para começar gostaria de saber quais são as etapas de um concurso público, indo desde a preparação até a etapa final.

Leonardo Carlos Chaves: Um concurso pode ter várias etapas a depender do tipo de cargo, complexidade desejada do nível dos futuros ocupantes das vagas, e até mesmo a exigência constante na lei de criação do cargo, que pode já delimitar as etapas de seleção. Em regra podemos ter fases objetivas (estilo “a, b, c, d, e”), discursivas ou subjetivas, estudo de casos, testes de aptidão física (TAF) e psicotécnico. Os candidatos também podem ser submetidos a cursos de formação com caráter eliminatório apenas, ou em alguns casos excepcionais eliminatório/classificatório, bem como dinâmicas de grupo e até investigação social em especial para cargos com poder de polícia.

Econoleigo: Por que a preparação de um concurso público custa tão caro?

Leonardo Carlos Chaves: O custo sobre devido ao aumento do risco. A operação direta é cara, pois demanda uma verdadeira operação de guerra com mecanismos de sigilo, estrutura logística redundante e fornecimento de gráficas com mecanismos de segurança firmes. Há um batalhão de profissionais envolvidos tanto no pre-evento quanto no pós-evento, e especialmente no dia da execução.

Leonardo Carlos Chaves fala sobre concurso público

O custos de locação de espaços para execução de provas sao altos também. Cobra-se um valor em regra por cada candidato previsto a comparecer, transformando os donos dos locais de execução de provas, em geral colégios e faculdades, em verdadeiros “sócios” do evento. O custo de locação chega em alguns casos a 20% a 30% do total da aplicação. Outro fator relevante é o volume dos profissionais gabaritados na formação da banca, que em regra são bem remunerados nas suas atividades profissionais principais e com destaque social estratégico na comunidade acadêmica que integram, e assim elevando o custo pelo tempo extra dedicado.

Tudo isso deixa uma operação de concurso publico um negócio de extremo risco e alto custo.

Econoleigo: Quem é responsável pelas despesas de um concurso público?

Leonardo Carlos Chaves: Existem dois formatos de custear um certame. O primeiro, e menos usual, é o próprio contratante assumir o risco dos custo e contratar o concurso por valores pre-determinados a partir do histórico de quantitativos de certames anteriores aplicados.

O outro modelo envolve a contratação pelo risco, onde o contratado é custeado com uma parte da arrecadação das inscrições. Este modelo é o mais comum e não traz nenhum ônus à administração pública.

Econoleigo: Quais são as medidas de segurança necessárias para garantir a isonomia do concurso, como evitar que o gabarito da prova vaze?

Leonardo Carlos Chaves: São diversos os mecanismos de segurança empregados para garantir a lisura de um concurso, como a escolha de banca com mecanismos de elaboração de questões em sigilo e até em alguns casos o confinamento dos seus membros. Busca-se empresas organizadoras que detenham parque gráfico próprio ou exclusivo. Poucos sabem mas o transporte das provas é feito com carros fortes em malotes com lacres numerados, invioláveis e rastreáveis. Tudo é passado em detectores de metais, bloqueadores de celulares, etc.

Algumas empresas vistas como menos tradicionais têm investido muito em inovação e tecnologia, e podem em um futuro breve tomar bom espaço no mercado através das inovações apresentadas.

Leonardo Carlos Chaves fala sobre passar em concurso público prefeitura

Econoleigo: Essas medidas também são capazes de evitar a pressão de políticos e servidores para beneficiar candidatos?

Leonardo Carlos Chaves: As medidas de segurança são universais e buscam blindar todas as tentativas de fraude. Servidores só possuem acesso à banca de forma institucional e na presença de membros de comissão. Trabalhos internos são filmados, gravados e submetidos a uma metodologia de trabalho rígido. O risco é grande e um mínimo problema pode jogar anos de trabalho e uma trajetória na lama.


Econoleigo: O que faz um concurso público ser cancelado?

Leonardo Carlos Chaves: Erros no processo de contratação, questionamentos do Ministério Público ou pelos Tribunais de Contas e falhas na execução estão entre as principais causas de suspensões e anulações de concursos públicos.

As falhas podem se dar por motivos naturais ou logísticos que, uma vez comprometendo a isonomia entre os candidatos ou a lisura do certame, exige reaplicação de etapas/fases ou em casos mais extremos até o cancelamento de todo o processo.

Econoleigo: Existe diferença entre concursos? (Preparação mais complexa, segurança reforçada, fatores logísticos, etc?)

Leonardo Carlos Chaves: São dois estilos de certames para se selecionar servidores públicos para trabalhar na administração pública: concurso público e processo seletivo. Na prática a única diferença é o vínculo do candidato selecionado com a administração.

No concurso o servidor goza de estabilidade funcional isento de demissão de forma discricionária por uma administração ou gestor. O desligamento só acontece caso haja grave violação funcional apurado em processo administrativo específico com direito a ampla defesa.

No processo seletivo os contratos tem prazo de validade e não fornecem os mesmos vínculos que o concurso público.

Econoleigo: Quais as responsabilidades entre poder público e a empresa fornecedora do serviço do concurso público?

Leonardo Carlos Chaves: Juridicamente falando, o concurso é responsabilidade da administração. Assim os ônus e responsabilidades públicas são desta, especialmente perante aos candidatos. As instituições e empresas contratadas executam serviços em nome do Estado. Quando há um problema de execução, a responsabilidade objetiva é do Estado.

Econoleigo: Considerações finais. Alguma mensagem para os concurseiros? Algum tema que não foi abordado que precisa ser falado?

Leonardo Carlos Chaves: Busquem uma preparação de excelência. Não há espaço para medianos e como diz uma frase bem comum no meio, “só existem dois tipos de concurseiros, os que passam e os que desistem”. A perseverança é fundamental. Do outro lado as empresas tomam todas as precauções para garantir que a vaga se destine à quem de fato se aplicou por ela.

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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