Entrevista com Bruno Caetano, diretor-superintendente do Sebrae-SP

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Bruno Caetano é diretor-superintentende do Sebrae de São Paulo
Bruno Caetano é diretor-superintentende do Sebrae de São Paulo

O brasileiro sempre sonhou em empreender. Para explicar um pouco mais sobre essa vontade tupiniquim de nunca mais ter patrão, conversamos com Bruno Caetano, diretor-superintendente do Sebrae de São Paulo e um dos maiores especialistas em empreendedorismo do Brasil. O Bruno tem uma página oficial no Facebook e também uma conta de Twitter onde, além de conversar sobre empreendedorismo, também fala bastante sobre futebol e o São Paulo, time do coração dele.

Econoleigo: Toda entrevista no Econoleigo começa com uma apresentação. Quem é Bruno Caetano?

Bruno Caetano: Sou formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, além de mestre e doutorando em Ciência Política, também pela USP. Atuei na Prefeitura de São Paulo como assessor especial do prefeito José Serra. Exerci essa mesma função no governo do Estado de São Paulo, como subsecretário de gestão estratégica da Casa Civil. De 2007 a 2010, fui secretário de Comunicação do governo do Estado de São Paulo. Desde 2011 sou diretor-superintendente do Sebrae-SP.

Econoleigo: Atualmente você é diretor-superintendente do Sebrae de São Paulo. Para quem não sabe, para que existe o Sebrae e qual sua função? Qual o papel do diretor-superintendente?

Bruno Caetano: O Sebrae-SP tem a missão de promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável das micro e pequenas empresas. Sua atuação também tem foco no fortalecimento do empreendedorismo como um todo, com iniciativas voltadas a melhorar o ambiente para quem tem um negócio próprio de pequeno porte. Esse trabalho é feito por meio de capacitações dos empreendedores em cursos, palestras, oficinas, consultorias e eventos como a Feira do Empreendedor. O diretor-superintendente, assim como toda a diretoria, tem natureza executiva e responde pela gestão administrativa e técnica do Sebrae-SP.

Econoleigo: No Brasil existem cerca de 16 milhões de empresas abertas, sendo que 14.8 milhões são MPEs, ou seja, micro e pequenas empresas, um total de 92%. Por que existem tantas micro e pequenas empresas no Brasil?

Bruno Caetano: Empreender é a forma de a pessoa trabalhar com algo que se identifica, com autonomia para fazer do seu jeito. Ter o próprio negócio é o terceiro maior sonho do brasileiro, atrás apenas de comprar a casa própria e viajar pelo País, segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor, a GEM. Ainda de acordo com o estudo, o número de pessoas que almejam se tornar o seu próprio chefe é praticamente o dobro das que desejam fazer carreira numa empresa. Enquanto 31% dos brasileiros querem montar um negócio, 16% querem crescer dentro de uma empresa. Além dos que empreendem por oportunidade, há aqueles que, diante de uma crise como a atual, de desemprego crescente, veem no negócio próprio a saída para voltar ao mercado e ter renda.

Econoleigo: Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a mortalidade de MPEs em 2015 foi próxima de 600 mil CNPJs, sendo que o normal é que a taxa anual gire em torno de 150 mil. Podemos entender que esse pico foi causado pela crise econômica? Se sim, por que o micro e pequeno empresário tem tanta fragilidade perante a crise? Falta um mecanismo de proteção do governo?

Bruno Caetano: Não há dúvida que a crise econômica tem seu peso no fechamento de empresas. Diante da atual recessão, com desemprego em alta, renda das famílias – os principais consumidores das MPEs – em baixa, o faturamento dos pequenos negócios no Estado de São Paulo, por exemplo, acumula quedas mensais há mais de um ano. A conjuntura está desfavorável para os negócios em geral e evidentemente há os que não conseguem sobreviver. O governo pode facilitar a vida de quem empreende reduzindo a burocracia e aliviando a carga tributária, dois grandes entraves para termos um ambiente mais favorável aos pequenos negócios.

Econoleigo: Em 2013, ou seja, antes da crise, o Sebrae de São Paulo divulgou que a 27% das empresas que abriam acabavam fechando as portas em menos de um ano. Por que isso acontece? Falta preparação?

Bruno Caetano: Cada empresa tem suas razões particulares para fechar as portas. No entanto, é certo que a falta de preparo, representada pela falta de qualificação do empreendedor e de planejamento do negócio, são determinantes. É preciso lembrar que os primeiros anos de vida de uma empresa são os mais difíceis, pois é o período em que ela não está consolidada e se mostra mais vulnerável. Se considerarmos que o empreendedorismo por necessidade acontece sem o devido planejamento, na base do desespero, a fragilidade da empresa é maior ainda. Pesquisa do Sebrae-SP, chamada Causa Mortis, mostra que os três principais motivos para o fim das micro e pequenas empresas paulistas são falta de planejamento, falhas na gestão e problemas no comportamento empreendedor. Não basta o sujeito ter conhecimento técnico do ramo em que atua. Ele precisa ter conhecimento em gestão. Tem de saber controlar as finanças, saber lidar com pessoas – sejam funcionários, clientes ou fornecedores – saber fazer marketing, etc. Além disso, sem planejamento, o risco de dar errado aumenta muito. Começar um negócio sem conhecer bem o mercado, sem saber quem são os concorrentes, quais os riscos, sem calcular bem o preço de venda e os gastos, por exemplo, é andar no escuro.

Econoleigo: Você bate muito na tecla da necessidade de desburocratização do governo. Como isso poderia ser feito? Por que a desburocratização é boa para a economia?

Bruno Caetano: A burocracia torna os processos mais trabalhosos, demorados, aumenta custos, atrapalhando vendas, negócios e a economia como um todo. Há casos em que para abrir um empreendimento simples, o responsável é obrigado a ir a mais de dez repartições públicas para apresentar, muitas vezes, a mesma documentação.  É preciso estar implementada, em todas as cidades, a Rede Nacional para Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios, a Rede Sim – plataforma que integre governo federal, estadual e municipal para reduzir o tempo de abertura e fechamento de uma empresa. Hoje, segundo o Banco Mundial, o prazo no Brasil para o processo é de 150 dias. Com uma plataforma de integração, o prazo cairia para cinco dias, já que não seria necessário dar entrada nos processos em diversos balcões de órgãos públicos, mas apenas no cadastro único do sistema. É necessário unificar também as obrigações as quais os empreendedores são submetidos. Simplificar e unificar os registros no FGTS, Caged e Rais. Temos de simplificar a legislação. Para se ter uma ideia, nos Estados são mais de 93 mil diferentes leis que regem o empreendedorismo. Temos de criar um único código em que se encontre tudo que o empreendedor precisa saber.

Econoleigo: São Paulo é o estado mais rico e mais populoso do país, e concentra 27,7% das MPEs de todo Brasil. Qual a realidade do empreendedor paulista?

Bruno Caetano: São Paulo é, com permissão do clichê, uma terra de oportunidades. Tem o principal polo industrial do País, um mercado enorme, agronegócios e comércio fortes e sua economia tem se voltado cada vez mais para o setor de serviços. Ou seja, contempla possibilidades para todos os setores. Claro que tem suas particularidades, porém, não difere muito do que se passa em geral com o restante do Brasil no que diz respeito à burocracia e outras dificuldades. Mas gostaria de ressaltar aqui o trabalho que o Sebrae-SP faz em apoio às MPEs. Em São Paulo, existe a Escola de Negócios do Sebrae-SP, a única escola gratuita de empreendedorismo do País. Temos ainda 33 escritórios espalhados em todo o Estado para oferecer orientação qualificada para o dono de uma MPE e anualmente realizamos a Feira do Empreendedor, a maior feira de empreendedorismo brasileira e que abre uma grande possibilidade de negócios para as MPEs.

Econoleigo: Em sua campanha para deputado estadual em 2014, você defendeu a consolidação da presença feminina entre os empreendedores. Em sua opinião, o que afugenta a mulher da ideia de empreender e abrir uma empresa ou um negócio?

Bruno Caetano: Ainda segundo a última pesquisa GEM, 48,8% dos empreendimentos iniciais são dirigidos por homens e 51,2% por mulheres. Dentre os empreendedores estabelecidos, 54,9% são comandados por homens e 45,1% por mulheres. Com toda a burocracia mencionada anteriormente, para a mulher é mais difícil conduzir uma empresa sendo que é ela quem normalmente tem que administrar a casa e a rotina dos filhos. Por isso, simplificar a vida do empreendedor é tão importante.

Econoleigo: Essa pergunta é polêmica. Nos últimos anos houve o crescimento de algo que costumo chamar de empreendedorismo de auto-ajuda, que são os super eventos voltados para o empreendedor, onde palestrantes dão dicas superficiais, abusam de fórmulas mágicas “infalíveis” e usam argumentos motivacionais que, no fundo, sugerem que o sucesso depende do esforço. Isso não é perigoso? Não simplifica demais o ato de empreender e todas as dificuldades inerentes ao ato?

Bruno Caetano: Empreender requer muita dedicação e, obviamente, muito trabalho. Não existe fórmula mágica. Nem trabalhar 16 horas ou mais por dia garante o sucesso. Se o esforço não for precedido de um planejamento bem-feito, capacitação do dono do negócio e com qualidade, o resultado ficará aquém do pretendido. Suar a camisa sem direcionamento não resolve, é energia desperdiçada.

Econoleigo: O empreendedorismo de auto-ajuda na fórmula sugere que há uma relação única de sucesso versus esforço. Em sua opinião e experiência, quais são os principais fatores que determinam a longevidade de um empreendimento? É possível elencar esses fatores em ordem de importância?

Bruno Caetano: A longevidade de uma empresa está diretamente ligada à conduta do seu responsável. Para ir bem, o empreendedor deve reunir algumas características comportamentais. São elas:

Busca de oportunidade e iniciativa;

Persistência;

Correr riscos calculados;

Exigência de qualidade e eficiência;

Comprometimento;

Busca de informações;

Estabelecimento de metas;

Planejamento e monitoramento sistemáticos;

Persuasão e rede de contatos e

Independência e autoconfiança.

Dificilmente alguém nasce com todas essas características, mas a boa notícia é que elas podem ser desenvolvidas. O Sebrae-SP pode ajudar por meio do Empretec, uma metodologia desenvolvida pela ONU e aplicada com exclusividade no Brasil pelo Sebrae em todo o País. Quem participa confirma que é um divisor de águas. O empreendedor passa por uma verdadeira revolução interna e sai desse “intensivão” uma pessoa muito mais preparada para enfrentar os desafios de conduzir uma empresa.

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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