Crise no Rio de Janeiro: falência, governadores presos e futuro sombrio

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Entendendo a ruína financeira por trás do Rio de Janeiro e as encrencas de seus políticos
Entendendo a ruína financeira por trás do Rio de Janeiro e as encrencas de seus políticos

Houvesse no Brasil um campeonato nacional de vexames públicos, certamente o Rio de Janeiro seria campeão. Como é que um dos estados mais ricos do país consegue, no ano em que sedia uma Olimpíada, a primeira na América Latina, decretar falência e ver, pela televisão, dois ex-governadores presos em menos de dois dias? A resposta é simples, amigos. O Rio é um estado que confunde o público com o privado, e onde o errado é considerado certo pela população em geral.

Para falar sobre a prisão de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, dois ex-governadores, e também para falar sobre a falência do estado, que está quebrado, é preciso falar sobre o pioneiro da calamidade pública que existe no Rio de Janeiro. Leonel Brizola, o herói da esquerda brasileira, inaugurou no estado do Rio o chamado populismo. Ou como tudo que envolve o Rio de Janeiro é diferente, lá o populismo teve outro nome: brizolismo. Contra as privatizações, a favor do aparelhamento do estado e da concessão de benefícios para conquistar corações e barrigas (e votos) sem dar importância a conta, Brizola se cresceu no Rio Grande do Sul e, findo o Regime Militar, migrou suas asas populistas para o Rio de Janeiro, estado que governou em 1982 e 1990. Foi ali, na época da gastança descontrolada, que nasceu o caos do Rio. Para entender um pouco mais sobre isso, recomendamos a leitura deste texto.

Garotinho e Cabral foram governantes de estilos diferentes. Garotinho era do povo, populista e caricato, e chegou a fazer greve de fome para protestar contra ataques. Cabral, mais refinado, foi o político da modernização carioca. Ambos foram presos por cometer o mesmíssimo pecado, que também é crime: confundiram o público com o privado. Garotinho rodou pela suspeita de compra de votos na eleição da esposa, a senhora Garotinho, que também governou o Rio entre 2003 e 2007. Chega a ser engraçado o fato de Rosinha Garotinha, enquanto governadora, ter criado um museu em homenagem a Brizola. Cabral, que fez hoje check-in no hotel da carceragem da Polícia Federal, dançou pelo recebimento milionário de propina por parte de empreiteiras nas obras do governo estadual.

No dia da prisão de Cabral, o milionário e futuro prefeito de São Paulo, João Dória, afilhado político do governador Geraldo Alckmin, e primeiro a ser eleito em primeiro turno na maior cidade do continente, disse que as prisões de ex-governadores em dois dias não acontecia em São Paulo por serem estados e cidades diferentes. É brincadeira, mas é verdade. Explico. E é ai que começamos a falar sobre o apocalipse financeiro do Rio.

Diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro: as duas maiores economias do país

São Paulo: Estado com maior população do estado e dono do segundo maior PIB do país, só atrás do próprio PIB nacional, São Paulo abriga a maior cidade do país e que é dona do quarto maior PIB do País, atrás apenas do estado do RJ, SP e do Brasil. Essa dominância econômica vem de uma economia altamente especializada e diversificada: agronegócio, indústria, montadoras, comércio, serviços, laboratórios e inclusive fábricas aeronáuticas.

Rio de Janeiro: Estado com segundo maior PIB do país, mas que representa aproximadamente 30% do PIB paulista, o Rio de Janeiro enfrenta um problema estrutural herdado do período em que foi a capital federal do país. 1 em cada 5 cariocas registrados em carteira tem como empregador o poder público. Isso significa que hoje, em pleno 2016, existem 258 mil funcionários públicos no Rio de Janeiro, contra APENAS 178 mil funcionários públicos em Brasília. Some nisso um estado que, acreditem ou não, tem mais aposentados do que trabalhadores na ativa. Ou seja, ao pagar o salário de um policial, o carioca está pagando pelo menos o de dois, um que trabalha, e um que está em casa. No Rio, assim como no resto do Brasil, a população envelhece mais rápido do que é reposta, já que temos uma baixa taxa de natalidade, a cada dia que passa há mais aposentados do que trabalhadores. Como no Brasil o regime de previdência, como já foi falado aqui, é pós-pago, ou seja, o funcionário na ativa paga a aposentadoria de quem já parou de trabalhar, o cenário no futuro é assombrador. Para se ter uma ideia, no Rio hoje se gasta mais com previdência do que se gasta com saúde, educação e segurança. Somados.

Não é uma questão de bairrismo, é apenas observar fatos. A conta da economia carioca não fecha, e justamente por isso o governador Pezão decretou estado de calamidade pública. Sem dinheiro para pagar nem salários, o governador primeiro recorreu ao absurdo de parcelar salário de funcionário. Quando nem isso resolveu, decretou a calamidade. Por que? Simples. A assinatura do atestado de incompetência administrativa facilita ao estado receber ajuda do governo federal. Foram R$ 3 bilhões destinados ao pagamento de salários e aposentadorias. O problema é que como no Rio tem mais aposentado e pensionistas do que grão de areia, o déficit da previdência e, consequentemente do orçamento, aumenta anualmente e de forma exponencial. Quem vai segurar esse rojão? O Brasil.

Crise no Rio de Janeiro: origem da falta de grana e vergonha na cara política

Vários fatores contribuíram para a falência do Rio de Janeiro. Sediar os jogos olímpicos e a Copa do Mundo sangrou os cofres do estado. Os eventos esportivos foram bons para o marketing da cidade, que vendeu prosperidade mundo afora, mas infelizmente, assim como zero mais zero sempre são zero, a conta chegou. A Grécia quebrou depois de sediar as olimpíadas e Londres quase foi pelo mesmo caminho. No Rio não foi diferente (leia este texto: Vale a pena sediar uma Olimpíada? Qual o custo disso?), e os bilhões gastos para fazer a festa do mundo faltaram na hora de pagar a conta.

Um dos fatores que colocou o Rio de Janeiro na lama foi o ditado “contar com o ovo no cu da galinha”. Salários e aposentadorias, além de investimentos, eram feitos com dinheiro provenientes dos Royalties do Petróleo, ou seja, com a grana que entrava no caixa cada vez que um litro de petróleo era extraído de seu território. O gasto médio das pensão saltou de R$ 900,00 para R$ 4.000,00. Em janeiro de 2013, o barril de petróleo custava 112 dólares. Parecia o sonho. Dinheiro grátis. O problema é que a realidade cobra a conta e, assim como a Venezuela, o Rio quebrou a cara com a queda do valor do petróleo. Em março de 2016, o preço do barril baixou para 39 dólares. É como se o seu salário caísse 60%.

Outro ponto importante na calamidade das contas é a bondade com empresas. O Rio se gabou de atrair diversas companhias famosas para dentro de suas fronteiras. Ambev, Nissan, Volkswagen, entre outras, abriram portas no estado carioca. Entre 2008 e 2013 o Rio de Janeiro, através das mãos de Sérgio Cabral, deixou de arrecadar R$ 138 bilhões em isenção fiscal. Parece uma fórmula mágica. O governo abre mão do imposto, a empresa se muda para lá, começa a contratar e o carioca sai ganhando. Mas não é bem assim, principalmente quando seu estado está quebrado. A Nissan recebeu R$ 353 milhões em isenção fiscal no estado e conseguiu ainda, acreditem, que o estado do Rio de Janeiro financiasse em 30 anos R$ 5,9 bilhões para ela construir uma fábrica. A Ambev ganhou R$ 760 milhões de isenção para ampliar a fábrica de Piraí, cidade onde Pezão, atual governador carioca, foi prefeito duas vezes, e mais R$ 850 milhões para construir uma sede. Maravilhoso, não? Segundo a Ambev, foram criadas 73 vagas de emprego. É muita coisa, né? Se você dividir a grana pelo número de carteiras assinadas, vai descobrir que cada emprego dado a um carioca custou, para o bolso do próprio carioca, cerca de R$ 7 milhões. Leia mais sobre isso aqui.

A generosidade do governo com as empresas espanta? Não quando se sabe que o ex-governador Sérgio Cabral, que governou o estado entre 2007 e 2014, e que elegeu seu vice, Pezão, foi preso justamente pela suspeita de desviar R$ 224 milhões em propina em obras de empresas. Cabral, aliás, dividia helicóptero com empresário, morava no mesmo condomínio que os empresários enrolados na mesma denúncia dele e chegou até a fazer Fernando Cavendish, ex-presidente da Construtora Delta, pagar pelo anel de R$ 800 mil dado de presente a sua esposa. A Delta, aliás, não era ninguém antes de Cabral virar governador. Após essa data, e ganhadora de muitas licitações com o estado, se tornou uma gigante no Rio. Em 2012, infelizmente, a empresa entrou em crise quando se descobriu que muitas obras pelas ela recebeu, não saíram do papel, tiveram problemas ou superfaturamento.

Este é o problema do Rio de Janeiro. O estado é uma mistura de repartição pública com barzinho na beira mar que, democrático, abriga na mesma mesa empresários e políticos. Não há problema em homens públicos serem amigos de homens privados, mas quando um não sabe se controlar, é melhor ficar longe. Não fica bem para um famoso adultero morar perto de mulher solteira. Cabral organizava partidas de voleibol em sua quadra particular, um evento disputadíssimo pelos empresários e pela imprensa. Ele também servia pizzas e vinhos às quintas-feira, um evento noticiado pela imprensa e que demonstrava o prestígio dos convidados. O eleitor do Rio de Janeiro achava essa situação bonita. Tanto é que, mesmo após a farra de Cabral com os empresários se tornar pública, eles elegeram Pezão, seu sucessor. Para maiores detalhes da farra de Cabral e seu rolo na justiça, leia este texto.

Não é mero detalhe o fato de que Sérgio Moro, juiz que bota mais medo em político do que a própria morte, justificou a prisão de Sérgio Cabral com a calamidade econômica do estado.

“Essa necessidade faz-se ainda mais presente diante da notória situação de ruína das contas públicas do governo do Rio de Janeiro. Constituiria afronta permitir que os investigados persistissem fruindo em liberdade do produto milionário de seus crimes, (…) enquanto, por conta de gestão governamental aparentemente comprometida por corrupção e inépcia, impõe-se à população daquele Estado tamanhos sacrifícios, com aumentos de tributos e corte de salários e de investimentos públicos e sociais,(…) uma versão criminosa de governantes ricos e governados pobres”. Fonte: O Globo

Talvez esse histórico de políticos mais interessados na farra e na grana explique a eleição de Marcelo Crivela para a prefeitura do Rio de Janeiro. Conservador, religioso, rico e visto como um homem sério, Crivela pode ser a tentativa à lá carioca para colocar um freio nos Cunhas, Cabrais, pés grandes e garotos pequenos no poder público. Se vai dar certo eu não sei, mas duvido que uma foto como esta abaixo, com Crivela, chegue à imprensa.

Resumindo: Há gente honesta e trabalhadora no Rio de Janeiro, mas enquanto seus governantes viverem sob o estereótipo do malandro, que vive de trapaças, de praia e de trabalhar pouco, o carioca terá que aceitar não só a imagem de ser um povo malandro, mas também conviver com a realidade de viver em um estado falido e que, infelizmente, está apenas no começo de uma ladeira enorme, e é assim que você deve se sentir ao saber que, mesmo assim, ainda tem gente que defende e vota em pessoas assim:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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