Trabalha e Confia: A economia do Espírito Santo

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Entendendo a economia do Espírito Santo, estado encravado no sudeste entre o Rio e a Bahia
Entendendo a economia do Espírito Santo, estado encravado no sudeste entre o Rio e a Bahia

Trabalha e Confia. Podemos dizer que os capixabas tem levado a sério o lema do seu estado. Localizado na região Sudeste, o Espírito Santo é cheio de contradições. Quarto menor estado do Brasil, responde por quase metade da produção de rochas ornamentais do país (mármore e granito), com investimentos na ordem de R$ 1bi em 2013 e crescimento estimado de 30% ao ano nas exportações. Mas do que é composta a economia do Espírito Santo?

Sua principal base econômica são as commodities: minério de ferro, aço, celulose, e, mais recentemente, petróleo e gás. O solo montanhoso, riquíssimo em minerais, petróleo, gás natural, mármore, ardósia, zircônio – utilizado como revestimento em reatores nucleares – e outros, atrai grandes empresas de extração e siderúrgicas. Esse setor industrial já foi maior, mas ainda representa significativos 15% do PIB brasileiro. Já na indústria da celulose apenas em abril desse ano já foram feitos negócios na ordem de US$ 70 milhões.

Outro componente importante da economia capixaba é a produção de café. Essa cultura foi responsável pelo início da recuperação da economia do Espírito Santo, sendo base da receita do estado até meados dos anos 1950. O café conilon, inserido após a crise cafeeira de 1960, se adaptou tão bem à região que tornou o estado o maior produtor da variedade no país, com aproximadamente 3.5 milhões de sacas por ano e determinando a cotação diária no mercado. O estado também é auto abastecido de carne e leite e tem produção significativa de arroz, feijão e frutas.

O turismo também é importante componente no PIB do estado, com suas montanhas, praias, trechos de floresta praticamente intocados e a famosa moqueca capixaba. O estado possui rotas turísticas para todos os gostos, para conhecer tudo que falamos neste texto, do mármore e do granito, do verde e das águas, do imigrante, do café e as famosas Rota do Sol e da Moqueca.

Eu avisei das contradições, então vamos à elas. A ONU, em colaboração com o IPEA, considera que as terras capixabas estejam entre as 10 melhores pra se viver no Brasil, baseado em qualidade de vida (educação, renda, expectativa de vida) mas o Atlas da Violência, indica que o estado é um dos 15 mais violentos do Brasil, com taxas de assassinatos semelhantes às da Guatemala, que passou por um período de extrema violência nos anos 90 e tem controle ainda pior que o brasileiro sobre corrupção e tráfico de drogas.

Economia do Espírito Santo em perigo

Se por um lado o estado é cheio de riquezas minerais, naturais, tem solo fértil e vocação para crescer, por outro a falta de visão de longo prazo dos governantes tem trazido graves danos à economia do Espírito Santo, a exemplo do que ocorre no país. Recentemente os capixabas perderam investimentos na ordem de R$ 7,7 bilhões quando a construção da maior fábrica de celulose do mundo foi transferida para o Mato Grosso do Sul. A empresa, que iria arcar com recursos do próprio caixa 40% desse valor, informou que foi uma decisão estratégica, mas especula-se que a insegurança jurídica para a iniciativa privada no estado foi um dos principais fatores – se não o maior.

Um fator que, de acordo com analistas de riscos do mercado, tem prejudicado a entrada de investimentos no Espírito Santo é a insegurança jurídica. A Rodovia do Sol, que liga Vitória às praias do sul do estado, e é rota alterativa para uma das estradas mais perigosas do Brasil, a BR 101, é alvo de uma disputa jurídica iniciada durante o governo passado, de Renato Casagrande, que propõe, dentre outras coisas, o fim do contrato de concessão da administração da rodovia, num dos mais equivocados casos de falta de pulso da administração pública: um retrocesso nos modelos modernos de PPP, parcerias público privadas, que hoje caminha para um aprimoramento – o chamado PPI (Programa de Parcerias de Investimentos).

A permanência do estado de insegurança jurídica causa problemas enormes para a atual administração e grandes prejuízos para o desenvolvimento e a economia do Espírito Santo. O governador Paulo Hartung teria, segundo investidores, um plano de parceria pronto para resolver diversos gargalos da falta de infraestrutura e outros avanços necessários para o capixaba. Mas o fato importante é que nenhum investidor vai injetar bilhões no Espírito Santo sob o risco de ver o contrato legítimo questionado por motivos exclusivamente políticos, perdendo o capital de investimento.

Os capixabas já perderam os empregos que viriam com a construção da fábrica de celulose e várias outras empresas que aguardam apenas a conclusão desta novela jurídica para tomar a mesma decisão. A empresa que detém a concessão vem cumprindo o contrato e é clara a diferença entre a conservação da Rodovia do Sol e outras estradas do estado, que poderiam ser recuperadas e mantidas com alta qualidade sob o mesmo modelo de concessão. Uma rodovia bem cuidada atrai os motoristas que por sua vez fomentam os chamados “negócios de beira de estrada”: postos de combustível, restaurante, hotéis. Diminui consideravelmente o custo do frete, que sai caro em razão também do seguro contra acidentes. Rodovias ruins são um grave problema de logística, especialmente em um estado em que a atividade portuária é uma das maiores da América Latina.

Como podem ver, o risco de um decisão mal planejada produz uma série de consequências, e é assim que você deve se sentir ao ler isso:


Este texto do faz parte de uma série semanal sobre a economia de cada um dos estados de nossa federação: o que produzem, quanto produzem e como funciona o dindin em todos os cantinhos do nosso Brasil. A cada texto publicado, atualizaremos este post e colocaremos o link para o conteúdo aqui.

  1. O PIB do Brasil
  2. Espírito Santo
  3. Tocantins
  4. Minas Gerais
  5. Santa Catarina
  6. Brasília/Distrito Federal
  7. Goiás

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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