A economia boliviana: um raro caso em que o socialismo deu certo

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Entendendo a economia boliviana e como Evo Morales, um ditador, tem tirado bolivianos da pobreza

O leitor do Econoleigo se acostumou a ler aqui no site críticas ferrenhas ao socialismo. Uma das frases que mais gosto sobre o tema vem de Margaret Tatcher: O socialismo acaba junto com o dinheiro dos outros. Entretanto, nem toda regra é absoluta, e é importante reconhecer quando alguma coisa deu certo. A Bolívia, país que sempre figurou como o mais pobre do continente e lar dos maiores barões da cocaína da América Latina, é hoje uma das economias mais atrativas financeiramente do hemisfério. Sendo assim, vamos conhecer hoje um pouco sobre a economia boliviana e um raro caso em que o socialismo deu certo.

Evo Morales: O homem por trás do sucesso

Ex-deputado e candidato derrotado à presidência em 2002, Evo Morales cresceu publica e politicamente como líder sindical dos cocaleros, que são os produtores da Coca, planta muito tradicional na região no uso de chás para o combate aos efeitos da altitude, enxaqueca e derivados. Ela também é usada para produzir a pasta base da cocaína. Depois de um surpreendente 2º lugar na eleição presidencial em 2002, isso com um partido (o MAS) que tradicionalmente angariava 4% dos votos, Evo foi eleito presidente em 2005, reeleito em 2009 e reeleito mais uma vez em 2014. Como a constituição boliviana só permite uma reeleição, Evo teve que fazer um enorme malabarismo jurídico (ou seja, fraudou a mesma) para conseguir se candidatar novamente. Foi aclamado vencedor por todo o país.

Economia boliviana: indo a fundo

Encravada nos andes, a Bolívia é um dos dois únicos países do continente que não possui saída para o mar. Graças à sua geografia,  o país sobrevive graças à extração de minérios, gás natural e a produção agrícola. 5% dos bolivianos são empregados neste último setor, que representa 15% do PIB. Quando Evo chegou à presidência, 29% do PIB boliviano era proveniente da exploração do gás natural, enquanto a média mundial representava 1,29%. Em 2012, segundo dados do Banco Mundial, esse percentual encolheu para 7,75%, ainda muito acima da média mundial de 0,37%. Como pode ser visto, a dependência boliviana reduziu praticamente na mesma proporção que o resto do mundo.

Outro ponto a ser considerado é a representatividade e o poder do narcotráfico dentro do país. Segundo o escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, UNODC, o narcotráfico representava absurdos 14% do PIB nacional. Atualmente, segundo a UNODC, esse percentual chegou a 1%.

A Bolívia sempre foi o país mais pobre do continente, o que explica o fluxo sempre constante de imigrantes bolivianos para os grandes centros brasileiros, como meu tio, por exemplo. Os dois grandes desafios políticos de todos os presidentes do país, desde a modernização econômica do continente, sempre foram:

  1. Industrializar o país
  2. Reduzir as taxas de pobreza extrema

O primeiro item da lista, essencial para um desenvolvimento estável e constante da economia boliviana, não foi atingido pelo governo Morales. Embora presentes, e representando 30% do PIB em 2003, as indústrias do país são ligadas à agricultura e à mineração, não existindo no país o chamado desenvolvimento tecnológico de softwares ou de transformação metalúrgica. A dependência do extrativismo explica, por exemplo, os baixos salários e o PIB extremamente tímido do país.

Pobreza na Bolívia é extrema

O segundo item, entretanto, tem sido cumprido à risca pelo governo Morales. Quando chegou Evo chegou ao poder, 38,2% da população vivia com menos de US$ por dia. No final de 2015, esse percentual baixou para 17%.O governo trabalha com a meta de reduzir esse número a 9,5% em 2020 e zerar em 2025.

Entendendo o sucesso de Evo Morales

A solidificação da economia boliviana e a redução da pobreza são somente um dos apelos de Evo junto à população. Assim que chegou ao poder, Morales iniciou uma longa série de estatizações de empresas privatizadas pelos governos anteriores na década de 90. Empresas dos de petróleo, gás, telecomunicações, transporte aéreo e ferroviário, eletricidade e extração mineral foram tomadas pelo estado. O mundo protestou, já que as indenizações (quando existiram) foram irrisórias. Por outro lado, a população aplaudiu, já que os serviços prestados não tinham boa avaliação. Quem não se lembra quando Evo Morales mandou o exército boliviano invadir e ocupar uma refinaria da Petrobras?

Evo vistoria refinaria brasileira invadida e nacionalizada

Adepto de uma política populista, Evo fez sucesso entre os bolivianos “índios” (com o perdão do termo preconceituoso), mas não entre os mais “claros”, estes últimos presentes na região conhecida como Meia Lua, que contém Santa Cruz, a região mais rica do país. Evo, por exemplo, é de Oruro. Desde o início de seu governo houve oposição ferrenha aos seus métodos. Com o passar do tempo, entretanto, ela praticamente deixou de existir. Uma boa notícia para Evo, mas não para a democracia.

Com uma mudança constitucional, pratica comum aos os ditadores de esquerda e direita, Evo acabou com a independência do judiciário, que passou a ser controlado pelo governo. Sendo assim, com total poder sobre justiça, economia, tribunais eleitorais, exército e sindicatos, Evo perseguiu opositores incansavelmente. Canais de TV, Rádio, jornais e derivados eram fechados arbitrariamente ou comprados à força por simpatizantes do regime. Leopoldo Fernández, governador de Pando, província da Meia Lua, foi preso em 2008 e encontra-se até hoje detido sem que haja, sequer, um processo legal ou sentença contra ele. Vale também lembrar do senador boliviano que, para escapar da fúria do regime Morales, se refugiou na embaixada brasileira e teve que ser contrabandeado para fora do país pelo diplomata brasileiro Eduardo Sabóia.

Sendo assim, podemos concluir que a Bolívia é um sucesso econômico e uma tragédia democrática. Sempre criticado pela esquerda e por Evo, o FMI elogiou a Bolívia por sua solidez financeira. De 2007 a 2012, o país cresceu em média 4,8%. Mesmo com a queda nos preços do gás a partir de 2014, o crescimento continuou e fechou 2016 em 4,2%. A política de austeridade do governo, que gasta pouco, paga dívidas públicas e guarda dinheiro em bancos, dá resultado. O desemprego caiu de 8,5% em 2009 para 3,2% em 2013.

Entretanto, mesmo com todos os avanços da economia boliviana, ela ainda é um país terrivelmente pobre. A renda per capita é de 2,700 dólares anuais, 75% menor do que a brasileira. Lembram da industrialização e da diversificação econômica, que falei acima serem essenciais para um desenvolvimento sustentável de um país? Isso não existe por lá. O petróleo e o gás representam 50% das exportações bolivianos e 30% do faturamento do governo federal. O pior de tudo isso é que 50% da economia boliviana, o combustível, é comprado quase que totalmente apenas pelo Brasil e pela Argentina. Ou seja, se os dois países decidem comprar o produto em outro lugar, em retaliação ao modus operandi de Morales, os bolivianos ficarão em péssimos lençóis.

Para finalizar, é importante ressaltar que o sucesso econômico graças ao fracasso democrático já aconteceu no continente nos últimos vinte anos. Para saber como terminou, basta olhar a situação atual da Venezuela. Esse é o futuro da Bolivia? Não sabemos, mas tem gente que diz que sim.

Resumindo: O governo Morales tem sido um sucesso, principalmente se considerarmos que antes dele a Bolívia chegou a ter 5 presidentes em 5 anos. A pobreza caiu e o emprego cresceu. Finalmente o socialismo deu certo economicamente em um único lugar mas, mesmo assim, só conseguiu êxito quando colocou a democracia na cadeira elétrica e ligou a chave, e é assim que você deve reagir ao saber a dureza em terras bolivianas ao ver um imigrante de lá em território brasileiro:

 

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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