Greve dos bancos tem tudo para falhar e prejudicar os próprios bancários

1
49
Sindicato tira greve do museu e faz movimento arriscado para trabalhadores do setor
Sindicato tira greve do museu e faz movimento arriscado para trabalhadores do setor

Com o sucesso da série Stranger Things, da Netflix, o brasileiro foi teletransportado para o saudoso mundo dos anos 80. Televisão de tubo e seus chuviscos com sabor de Poltergeist, câmeras de filme 36 poses, penteados de cabelo estilo juba de leão e telefone de disco (sim, sem hashtag). O Brasil foi tomado pelos anos 80 com tanta força que, de uma hora para outra, um fenômeno que estava cada vez mais abandonado no fundo dos livros das faculdades de humanas e dos sindicatos veio a tona: a greve bancária. Vamos explicar aqui os motivos da greve bancária, os motivos reais por trás dela, o que os bancários pensam que vai acontecer e o que vai realmente ocorrer. Entenda a greve dos bancos e os impactos dela na vida da população ontem, hoje e amanhã, aqui no Econoleigo.

Antes de começar, vamos explicar o que é uma greve. Quando o Rodrigo, funcionário, decide pedir um aumento para o chefe, ele chama para conversar, explica sua importância para a empresa e pede um incremento no salário. Isso é uma negociação salarial individual. Se o aumento é negado, o Rodrigo fica triste e tem duas escolhas: volta ao trabalho ou pede demissão e vai procurar uma colocação que o pague o que ele julga ser merecedor. Se o Rodrigo é cobrador de ônibus, ele não pede aumento diretamente, pois a remuneração é feita como um todo pela categoria. Ela então acontece em uma negociação coletiva, entre o sindicato dos motoristas e cobradores de ônibus e a administração da empresa de ônibus. Se a administração não quiser conversar ou negar o aumento, o sindicato pode realizar uma assembléia, que é uma espécie de eleição, e determinar uma greve até que o “patrão” decida conversar. A greve também pode acontecer em caso de demissão em massa, péssimas qualidades de trabalho ou descumprimento de direitos trabalhistas de uma categoria. Antes de tudo, é importante deixar claro que a greve é um instrumento legal e de direito de todos os trabalhadores.

Pois bem, vamos seguir adiante.

Há três semanas, o sindicato dos bancários resolveu cruzar os braços e, consequentemente, fechar as agências bancárias em todo o país. Os trabalhadores reivindicam um aumento salarial de aproximadamente 15%, ou seja, 10% para cobrir a inflação de 2015 e um aumento real de cerca de 5%. Começaram então as negociações entre o sindicato dos bancários e o sindicato dos “banqueiros”. Os bancos ofereceram um reajuste de 7%, o que daria uma redução salarial de aproximadamente 3% para os funcionários. Chegou-se ao que chamamos de um impasse. Os trabalhadores não abrem mão de aumento maior, e os bancos não aceitam pagar mais do que decidiram.

O leitor pode achar um absurdo os bancos não oferecerem aumento maior, mas é importante ressaltar que no ano passado já foi concedido um aumento de 10% para a categoria. A época era diferente e a crise ainda não tinha batido à porta.

O que acontecerá? Como estamos na maior crise financeira dos últimos 100 anos, é improvável que os bancos cedam nessa queda de braço. Haverá impasse e paralisação até que uma de duas coisas aconteça:

  1. A Justiça do Trabalho intervém e determina um aumento que deve ser seguido.
  2. Os trabalhadores voltam atrás, aceitam o aumento oferecido e voltam ao trabalho.

A greve dos petroleiros e a greve dos bancos: a história ensina

Em 1995, no primeiro ano de Fernando Henrique Cardoso na presidência, ocorreu uma situação parecida, só que ao invés dos bancários, quem entrou em greve foram os funcionários da Petrobras. A categoria colocou a faca no pescoço do governo, como eram acostumados porque até então dava resultados, só que o poder público não cedeu. Em sua biografia, FHC conta que emissários da esquerda abordaram o governo para negociar algumas concessões. O objetivo? Evitar que os sindicatos ficassem “mal” na história. O governo não cedeu e a greve acabou.

Por que o governo não cedeu? Foi determinado que o exército cercasse as refinarias e garantisse a segurança dos trabalhadores que furassem a greve, além de garantir a escolta dos caminhões das refinarias aos postos. Isso fez com que o público em geral não sentisse os efeitos da paralisação. Somado a isso, foi determinada a demissão daqueles que não obedeceram as ordens de retornar aos trabalhos.

De forma resumida foi isso que “micou” a greve de 1995, a maior da história no setor. Uma greve se traduz, basicamente, em um grande jogo de baralho. Quem tem a melhor mão, invariavelmente ganha. Funciona na base da barganha.

Saindo do túnel do tempo, vamos voar 21 anos no futuro e chegar à greve dos bancos que hoje, ao completar 21 dias de paralisação, tornou-se a maior de todos os tempos. Por que é que os bancos ficaram tão intransigentes na negociação? Podemos dizer que a crise colabora, mas o principal motivo é composto por duas palavrinhas: home banking.

Nos anos 90, e antes disso, a simples sugestão de greve bancária aterrorizava a nação. Malotes, duplicatas, saques, pagamento de contas e derivados. Todas essas operações passavam pelas mãos de um funcionário remunerado. Os tempos mudaram e, exceto o depósito e o saque, que aliás podem ser feitos nos caixas automáticos, todas as outras transações podem ser feitas pela internet ou pelo telefone com um operador. Vamos aos números.

O internet banking (pelo computador) e o mobile banking (pelo telefone e tablet) representam em 2016 exatos 54% de todas as transações bancárias realizadas no país. Segundo a Febraban, as transações pelo computador, no internet banking, a maioria em 2015,  chegaram a 33% do total, movimentando 17 bilhões de transações bancárias. As contas de home banking, ou seja, que permitem fazer uma transação pelo computador ou telefone, saltaram de 58 para 64 milhões entre 2014 e 2015. Além disso, as transações bancárias pelo home banking saltaram 138% de 2014 para o ano passado.

As greves dos bancos tinham sentido e força no passado, quando as pessoas ainda usavam cheque e andavam com dinheiro na carteira. Em um mundo onde até os camelôs e vendedores de amendoim na praia andam com máquinas do PagSeguro para passar cartão de crédito e débito, já que ninguém mais anda com cédulas na carteira, a paralisação não traz mais impactos tão grandes. São sim um aborrecimento, mas nada que não possa ser contornado.

Segundo os bancários, a greve convocada é por melhores salários. Nos bastidores o que se diz é que a greve dos bancos é um protesto contra o novo governo. Pelo que se comenta, as greves convocadas – não só essa dos bancários, é uma forma de tentar dificultar o chamado “governo golpista”, que assumiu o poder após um legítimo processo de impeachment. Com cerca de um mês de “poder” oficial, Michel Temer e sua equipe já começaram a colocar a economia nos trilhos, e já vimos sinais de que estamos caminhando para fora da crise.

No fundo, quem vai sofrer com a paralisação é apenas o trabalhador. Os bancários provavelmente terão os dias paralisados descontados da folha. Além disso, mesmo que os banqueiros cedam algum aumento além do oferecido, no final veremos demissões. Vingança? Não, é a realidade. A greve dos bancos fez um favor à nação, forçando os brasileiros a se modernizarem e aprenderem a usar algo que já estava disponível, a tecnologia. Funcionários serão demitidos em troca de sistemas mais rápidos e mais modernos, e agências mais vazias.

“Vamos fazer greve, é uma excelente ideia”

A greve é um instrumento legal e que deve ser utilizado. É uma granada poderosa, mas como qualquer bomba, seu uso deve ser estudado e planejado, sob o risco de você acabar atingido. Pelo que está se desenhando com a greve, pelos impactos e as transações digitais, foi exatamente isso que aconteceu.

Antes que me acusem de ser “patrãozista”, vou dar um exemplo prático de greve bem intencionada e que teve resultados surpreendentes. Os mais novos não vão lembrar, mas coisa de 10 anos atrás alguns cabeças de vento no poder em São Paulo decidiram, do alto de suas inteligências de planilha e números, substituir os cobradores de ônibus por uma catraca eletrônica. E quem não tivesse trocado? E se o bilhete desse problema? Ah, resolvam com o motorista. A categoria se mobilizou e promoveu uma paralisação em massa. A população comprou a briga e deu apoio aos grevistas. No final, os cobradores continuam dentro do ônibus, mesmo em uma cidade onde a adoção do bilhete eletrônico é cada vez maior. Se for planejada com perfeição e tiver de fato objetivos justos, a greve funciona. Se for apenas uma faca no pescoço de outro, a chance de dar caca é alta.

Resumindo: No espírito “quem bate cartão não vota em patrão”, os sindicatos dos bancários fecharam agências em todo país em “defesa” dos trabalhadores. No final, eles deverão quebrar a cara, e é assim que você deve se sentir ao perceber que o sindicato não atentou ao óbvio e que a greve dos bancos, ao tentar “ajudar”, prejudicou os sindicalizados:

mm

O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here