Como é a economia da Coreia do Norte: números, fatos e muita arma

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Entendendo a economia da Coreia do Norte
Entendendo a economia da Coreia do Norte

A Coreia do Norte é um dos países mais fechados do mundo. Tudo o que se sabe sobre é fruto de relatos trazidos por turistas, pelo que é divulgado pelo governo norte-coreano ou pelo que é divulgado pelas agências internacionais de espionagem. Mesmo assim, quando o tema é a Coreia do Norte o assunto é sempre a maluquice do líder, o poderio militar do país, sua censura ou qualquer outra polêmica. A economia da Coreia do Norte nunca é pauta pois, por mais incrível que pareça, pouco se sabe sobre as fontes de renda do país governado por Kim Jong-Un. Driblando boatos e tentando caçar a verdade entre palpites, o Econoleigo de hoje vai tentar explicar um pouco sobre a economia da Coreia do Norte.

A história recente da Coreia do Norte em um parágrafo

A Coreia foi um território ocupado pelo Japão entre 1910 e 1945. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o país foi dividido ao meio, no famoso paralelo 38, pelos Estados Unidos e a União Soviética. Isso gerou a famosa Guerra da Coreia, que durou entre 1950-53. Com a interrupção da guerra, já que um tratado de paz ou documento que a encerrasse nunca foi assinado, a Coreia do Norte começou a ser governada pelo Premiê Kim II Sung, que em 1972, após mudança constitucional, foi declarado presidente da República Popular Democrática da Coreia, também conhecida como Coreia do Norte ou DPRK na sigla em inglês. Com a morte de Kim Il Sung em 1994, seu filho Kim Jong-il governou o país até falecer em 2011. Desde então, a DPRK é presidida por Kim Jong-un.

Apenas para esclarecer e graças a um toque dado pela turma do Podcast Xadrez Verbal, tanto na Coreia do Norte quando na do Sul, o sobrenome é escrito antes do nome. Ou seja, em uma tradução ocidental, Kim (sobrenome) Jong-un (nome próprio) seria Jong-un Kim. Isso explica o tanto de presidente “chamado” Kim.

Economia da Coreia do Norte

Pouco se sabe sobre a economia da Coreia do Norte. O último balanço macroeconômico publicado pelo país foi o de 1965, ou seja, mais de 50 anos atrás. O que se conhece da economia do país de Kim Jong-un se deve às publicações do The Bank of (South) Korea, o Ministério da Unificação e a KOTRA, a Agência de Promoção e Negócios da Coreia do Norte.

Em 2013 o PIB da DPRK ficou em 33.3 bilhões de dólares, um crescimento de 1% em relação ao ano anterior. Parece pouco, mas se considerarmos que o país encolheu cerca de 4% ao ano entre 1990 e 1998, chegamos ao famoso “tá ruim, mas tá bom”. 23% do PIB é composto pela agricultura, um percentual similar ao brasileiro, 47% pela indústria e 30% pelo setor de serviços.

Adepta da doutrina Juche, que é uma ideologia nacional de auto-sustentação escrita na constituição de 1972, a Coreia do Norte produz boa parte do que existe em termos de tecnologia no país, inclusive a militar. Isso também é fruto das sanções econômicas impostas pela ONU em 2006, graças à insistência do então presidente Kim Jong-il pela corrida nuclear.

Como o conflito entre as duas Coreias nunca terminou oficialmente, e boa parte da propaganda do estado norte-coreano é sobre uma Coreia Única e o extermínio dos Estados Unidos, o setor militar é importantíssimo para sociedade e na economia da República Popular Democrática da Coreia. Segundo fontes oficiais, o gasto militar em 2010 equivaleu a 15% do PIB. Para se ter uma noção, o Brasil gastou em 2013 apenas 1,3% do PIB com defesa. O orçamento brasileiro de 2017 prevê 76 bilhões de reais para o Ministério da Defesa, e R$ 69 bilhões desse montante são destinados à folha salarial e a previdência. Voltando à DPRK, informações não oficiais sugerem que o gasto militar anual orbita entre 25% e 33% do PIB.

Graças à doutrina Juche e a sociedade altamente industrializada, a Coreia do Norte come e dorme o militarismo. O serviço militar é obrigatório por um período de 10 anos para os homens. Quase todos os equipamentos militares são fabricados no país, com ou sem licença dos criadores, em versões locais. Um exemplo disso é o tanque mais moderno do país, o Pokpung-Ho, desenvolvido nos anos 90 a partir do desenho soviético do T-72, de 1972. Com 1,2 milhões de soldados na ativa, as Forças Armadas da Coreia do Norte possuem fazendas e industrias próprias, todas voltadas para a alimentação de tropas e a fabricação de armamentos, todos adquiridos pela defesa nacional interna.

Economia da Coreia do Norte: fontes de receita

As principais industrias no país são a militar, maquinário, equipamento elétrico, química, mineração (carvão, minério de ferro, calcário, grafite, cobre, zinco, chumbo e outros), metalurgia, têxtil, processamento de alimentos e o turismo. A principal fonte de renda é o carvão, representando um terço das exportações oficiais em 2015. Quase toda produção de carvão é adquirida pela China, o principal parceiro econômico da Coreia do Norte.

Outra fonte muito relevante para o enriquecimento da Coreia do Norte é a venda, ou aluguel, de força de trabalho. Há no país uma abundância de pobres, já que boa parte da população é pobre e a fome é uma constante. Motivo? São 24 milhões de habitantes em um país que, não só não compra alimentos do mercado internacional, tem apenas 20% de terras com potencial agrário. Com esse tanto de gente “sobrando”, de acordo com um relatório da ONU de 2015, a Coreia do Norte aluga trabalhadores para a China, Russia e Oriente Médio e faz uma fortuna com isso.

Em busca de informações sobre a Coreia do Norte, pedimos informações para Saul Sabbá, ávido usuário do Twitter e presidente do Banco Máxima e especialista em câmbio e investimento.

“A economia é fechada e o país não divulga um balanço detalhado desde meados de 1960. Fazem muito comércio com a China, principalmente minério de carvão. Além das sanções econômicas, os bancos norte-coreanos foram expulsos do sistema global de comunicação do mercado financeiro. Sem o SWIFT, fica inviável para a Coreia do Norte fazer remessas e negócios com outros países (de forma legal)”.

O SWIFT é um código internacional bancário, é uma espécie de CPF global de uma conta corrente. Como os bancos da Coreia do Norte não tem mais acesso a ele, o dinheiro simplesmente não consegue entrar via transferência eletrônica na economia da Coreia do Norte.

Paralelo a isso, Kim Jong-un também mantém, de acordo com fontes internacionais, um exército de hackers profissionais. A missão deles? Atacar sistemas financeiros internacionais e, literalmente, roubar dinheiro e trazer para a Coreia do Norte. Segundo a empresa de segurança digital russa, Kaspersky, a Coreia do Norte é suspeita de financiar ataques a bancos em 18 países, como Costa Rica, Etiópia, Gabão, India e etc.

Ganhar o dinheiro é uma coisa, mas trazer ele para a Coreia do Norte com as sanções e sem SWIFT não é missão fácil. De acordo com relatos, para driblar essas dificuldades, o regime norte-coreano comprou uma série de empresas na China. Os hackers então encaminham o dinheiro roubado para essas empresas e elas compram os produtos que o mundo não pode vender para o governo ou empresas norte-coreanas. Dizem também que a economia da Coreia do Norte engorda com a venda de drogas e outros ilícitos, mas não vamos entrar nesse assunto simplesmente por falta de provas.

O último ponto que vamos abordar na geração de receitas é o turismo. Destino mais cobiçado pelos chamados viajantes profissionais, a Coreia do Norte é acessível via avião e trem apenas a partir da China. Há vôos de outros países, mas eles são esporádicos e não confiáveis. Com pacotes a partir de mil euros é possível passar uma semana no país e conhecer suas belezas e mazelas. As visitas são integralmente vigiadas e planejadas por guias norte-coreanos e, salvo um escorregão aqui e ali, graças à malemolência dos viajantes, você só verá o que o regime quer que você conheça: centros urbanos, estatuas e glórias da civilização norte-coreana e relíquias da “vitória” conquistada sobre os Estados Unidos na década de 1950. Para ler mais sobre o turismo na Coreia do Norte recomendamos este link (Koryo Tours, empresa chinesa de turismo sediada na Inglaterra) e estes textos: Planeta Solitário – Coreia do Norte e também Como é viajar pela Coreia do Norte, ambos em inglês.

Ou seja, a Coreia do Norte é um grande enigma internacional. Sem os espiões e satélites de alta definição dos Estados Unidos e Russia, é muito difícil escrever qualquer coisa 100% confiável sobre o país. Como podem ter visto pelo texto, aliás, é difícil também falar sobre a Coreia do Norte sem enveredar sobre a questão militar. Uma pena para o mundo e para os 24 milhões de habitantes do país asiático.

Resumindo: Em uma sociedade onde a elite dominante quer manter o poder através do medo e do discurso político, e que pouco se sabe sobre mais de vinte milhões de pessoas que vivem em total isolamento, sem celular, internet e TV a cabo, sem liberdade e sem perspectiva de futuro, é assim que você deve se sentir ao saber que depois de anos, os Estados Unidos finalmente se acertou com a China e a Russia e está levando tropas para a região para, possivelmente, acabar com Kim Jong-Un:

Desculpas pelo texto enorme 🙂

Fontes: Wikipedia (link 1, 2, 3, 4, 5), CNN (1, 2, 3, 4), Asia Society.ORG, Investopedia, e Podcast Xadrez Verbal #91.

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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