Entenda o rombo no Postalis de R$ 5,6 bilhões

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Rombo no Postalis é de R$ 5,6 bilhões, e será pago pelo trabalhador
Rombo no Postalis ultrapassa 5 bilhões de reais

A notícia mais importante do dia, pelo menos do ponto de vista humano, estava escondida nos principais jornais do país, mas com destaque no sempre excelente Valor Econômico. Os mais de 100 mil trabalhadores do Correios, uma das maiores estatais do país, terão que pagar do próprio bolso mais de R$ 5,6 bilhões de rombo no Postalis, que complementa a aposentadoria dos trabalhadores da estatal. Antes de explicar o buraco, vamos entender um pouco do terreno.

O que é um fundo de pensão

No Brasil os aposentados recebem seus salários mensalmente através do INSS, que é o Instituto Nacional do Seguro Social. Esse dinheiro do INSS vem de um desconto dos salários de quem tem carteira assinada, ou de quem contribui voluntariamente para o INSS. Como o que é pago pelo INSS é um valor muito baixo, algumas empresas criam os chamados Fundos de Pensão. Eles são uma cópia, em termos, do INSS. É feito um desconto mensal do salário dos participantes deste fundo. Essa grana, já na conta corrente do Fundo, é então aplicada em alguns investimentos controlados por bancos ou pela administração do fundo. Na teoria, ao se fazer um investimento correto, os 50 mil reais (um número hipotético, ok?) contribuídos por alguém viram 100 mil reais. Isso aumenta o valor do fundo, o que permite fazer mais investimentos, e também permite que a “aposentadoria” que contribuinte tem direito de receber deste fundo seja maior.

Ficou complicado? Vamos explicar mais um pouco. Vamos mais uma vez usar números hipotéticos aqui embaixo, não leve eles a sério.

O João trabalha nos Correios como carteiro e contribui R$ 200,00 mensalmente para o INSS e contribui com mais R$ 200,00 para o Postalis. Ao se aposentar, ele vai receber R$ 850,00 da Previdência Social a título de aposentadoria. Além desse dinheiro vindo do Governo Federal, ele vai receber mais R$ 850,00 vindos do Postalis.

Caso o pessoal que administra o Postalis tenha feito um bom trabalho e esse dinheiro rendeu, ao invés de receber R$ 850,00, o João pode receber ao se aposentar R$ 980,00. Pode ser que ocorra outra coisa. Com o investimento rendendo legal, o Fundo de Pensão chega a um total financeiro onde não precisa mais arrecadar tanta grana. Sendo assim, os contribuintes na ativa, que é quem está trabalhando, deixam de contribuir com R$ 200,00 e passam a pagar mensalmente apenas R$ 137,00.

Entenderam? Vamos agora ao problema e a seriedade dessa notícia.

Por que há um rombo no Postalis?

Como o Postalis é um fundo de pensão estatal, é uma pessoa indicada pelo governo que faz a gestão de todo o recurso arrecadado com os descontos mensais nos salários de todos os funcionários dos Correios. Essa pessoa indicada pode ou pode não ser capacitada tecnicamente para gerir todo esse montante. O antigo presidente do Postalis, Antonio Carlos Conquista, foi uma indicação do PT para o cargo, e se afastou do posto devido a acusações de má gestão na grana do fundo que gerou o rombo no Postalis. Em seu currículo, ele apresentava a experiência (segundo informe do Postalis) como Secretário de Infraestrutura e Fomento do Ministério da Pesca e Aquicultura, Diretor Executivo da Fundação de Seguridade Social (GEAP), Chefe de Gabinete do Presidente e Gerente Executivo de Engenharia e Administração da Petros, fundo da Petrobras que funciona de forma similar ao Postalis. Vale apontar que o Petros também está com problemas, e os funcionários terão que pagar um rombo superior a R$ 20 bilhões no fundo.

De qualquer forma, o rombo de R$ 5,6 bilhões existe e foi causado por uma série de péssimos investimentos por parte do Postalis a partir de 2011, ou apenas identificados então. Não ficou claro para mim a data certa. A questão é que em 2013, depois de dois anos de vermelho atrás de vermelho nas contas, a diretoria do Postalis decidiu que a conta ficaria com os trabalhadores, que teriam um acréscimo de 3,94% nas contribuições.

Acha pouco? Mesmo depois de perceberem o rombo no Postalis e começarem a jogar esse dinheiro adicional em cima, o prejuízo continuou a crescer, e em março de 2015 foi feito um novo estudo, e o Conselho Deliberativo do Postalis determinou o aumento no acréscimo de 3,94% para enormes 25,98%.

Os trabalhadores bateram o pé e foram na justiça reclamar desse “upgrade” de 26% no desconto do salário deles. Vale ressaltar que esses 26% seriam descontados também do benefício recebido pelos aposentados, que contribuíram a vida toda com o Postalis. O juiz deu razão aos trabalhadores, e a cobrança foi adiada para o começo de 2016.

No final, como sempre, a conta da má gestão vai ficar por conta de quem não teve culpa alguma no buraco. Os 70 mil trabalhadores na ativa e os 30 mil inativos terão que pagar um acréscimo de 17,92%, número após o acordo nos tribunais mencionado acima. Essa tungada no salário dos contribuintes do fundo terá duração de longos e árduos 279 meses, e deve acabar em um longínquo 2039. Isso se rombo no Postalis não aumentar.

Espera-se que o novo presidente do Postalis, o Paulo Cabral Furtado, tenha mais tato e acerte nos investimentos feitos pelo fundo. Caso haja rentabilidade nas aplicações, e não prejuízo, talvez esse acréscimo nas contribuições diminua, ou acabe mais cedo.

Resumindo: A falta de capacidade no gerenciamento do Postalis, que foi tratado como um cabide político, vai colocar na conta do trabalhador uma dívida de R$ 5,6 bilhões, a ser paga em 23 anos, e é assim que você, funcionário dos Correios, ou não, deve reagir sobre o assunto:

Reação do trabalhador com o rombo no Postalis

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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