Entenda a crise econômica na Venezuela: sem comida, sem energia e sem esperança.

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Crise na venezuela destroi economia do país
Entenda a crise na Venezuela: sem dinheiro, sem remédio, sem alimentos, sem esperança e sem futuro

Lembram quando o preço do litro da gasolina brasileira ultrapassou pela primeira vez os R$ 3,00? Muita gente se ressentiu do valor e, suspirando, desejou viver na Venezuela, terra dos sonhos impossíveis, onde em 2012 era possível encher o tanque de um automóvel por meros R$ 1,50. Como sempre na vida, tudo que é bom demais para ser verdade, nunca é verdade e nem é tão bom assim. Passados os anos de fartura (pelo menos das fronteiras para fora), hoje a Venezuela paga um preço duríssimo pela incompetência com que comandou suas finanças ao longo dos anos. Entenda aqui a crise econômica na Venezuela e saiba por que um iogurte é mais caro do que três tanques cheios de combustível.

Crise Econômica na Venezuela: as origens

Tudo começou muitos e muitos anos atrás, quando Hugo Chavez chegou ao poder em 1999. Aprendiz de algo chamado Bolivarianismo, que é a forma sul-americana de socialismo, Chavez logo transformou algo já tropicalizado de forma ruim, que foi a conversão do socialismo para o Bolivarianismo, em algo ainda pior: o Chavismo. Não vou gastar espaço explicando essa abominação, mas caso tenha interesse, basta ler aqui. Resumindo: O Chavismo é a transformação do culto de uma ideia, que é o Socialismo, no culto de uma pessoa, o Chavez.

Uma ditadura só existe com a presença de três fatores:

1) Controle da imprensa

O controle da imprensa foi fácil. Ao longo dos anos o governo investiu dinheiro nas companhias de notícia estatais ou alinhadas com o governo (parece similar ao que se tentou no Brasil, com a rede de blogs “amigos” e a NBR?). Ao mesmo tempo, corta-se a publicidade estatal nos meios privados de comunicação, que começam a capengar. Quando estes criticavam abertamente o poder, o governo decretava ameaça de “golpe” contra a democracia do povo, e estatizava esses jornais e emissoras. O que é estatizar? É basicamente chegar e dizer “dá, é meu”. Mas como o congresso deixou um absurdo desses acontecer?

2) Controle do parlamento

Ao financiar as campanhas dos candidatos aliados e sabotar os opositores, simplesmente disparando mentiras contra eles ou, simplesmente, colocando-os atrás das grades (é uma busca do Google que mostra a quantidade de pessoas presas). Ao mesmo tempo a oposição diminui através das urnas, afinal não é possível concorrer de forma igualitária, você favorece seus aliados fiéis, dando cargos, mordomias e derivados. Parece algo similar ao que foi feito no Brasil, com mensalão e a indústria de dossiês, né?

3) Controle das massas

Em um país paupérrimo, também conhecido como pobre de marré deci, é fácil controlar o povo. Basta colocar comida na mesa. Tendo o que comer, não demorou para que começasse um culto à figura de Chavez. O que isso fez? Criou o famoso Chavismo. Engana-se quem acha que o Chavismo tirou as pessoas da pobreza, como o que aconteceu aqui no Brasil durante o governo Lula. Lá, deu-se aos pobres o mínimo para que não morressem de fome, mas não tanto, para que pudessem continuar dependendo do governo.

A economia venezuelana

Com a crise do petróleo nos anos 70, que foi quando os países produtores de petróleo aumentaram o preço do óleo em 400% em retaliação aos Estados Unidos, tudo organizado pelo que mais tarde se tornaria a OPEP, a Venezuela experimentou uma ascensão meteórica em sua economia. Esse vôo de galinha durou pouco e, nos anos 80, quando tudo se normalizou, a Venezuela voltou a experimentar dificuldades. Em 1996, com o jogo duro da OPEP, que aumentava os preços sistematicamente (lembram quando a gasolina no Brasil passou a dolorosa barreira de R$ 1,00?), a Venezuela (membro da OPEP) voltou a ganhar dinheiro.

Parece bom, mas não é. De forma burra, tradicionalmente sul-americana, o governo da Venezuela decidiu que ter 96% de sua economia atrelada ao petróleo, sempre abundante, era uma decisão acertada. Com os petrodólares brotando do chão como água, o governo financiou a alienação do venezuelano com a tradicional política do Pão e Circo. Isso fez com que, entre 2005 e 2006, por exemplo, houvesse um aumento de 125% (!!!) nos gastos do governo, levando ao que é chamado de “estado perdulário”, ou também conhecido como governo gastão.

Além de torrador, o estado da Venezuela, como quase todos os socialistas, é ineficiente. Mascarado pela fortuna do petróleo, que triplicou entre 1998 e 2006, a produção de barris caiu 30%. Ou seja, o governo foi muito bom em sugar as riquezas da terra venezuelana, mas foi incapaz de produzir algo novo. Tudo isso durou a contento até 2014, quando aliado à morte de Hugo Chavez, o preço do barril de petróleo começou a cair vertiginosamente, e o inferno e a crise econômica na Venezuela começaram. Isso é mortal para um país que importa 70% de seus alimentos.

Petróleo na Venezuela: estatais sucateadas
Petróleo na Venezuela: estatais sucateadas

Para terem uma ideia do tombo que a queda do petróleo representou nas finanças da Venezuela, basta olhar os dividendos da commoditie: em 2014 o petróleo rendeu 37.2 bilhões de dólares americanos ao país. Em 2015 entraram nos cofres do governo apenas 12.5 bilhões de obamas. Ou seja, uma queda de 67% no faturamento do país, que gerou uma crise econômica na Venezuela sem precedentes. Some a isso uma inflação maluca, que ultrapassou 100% ao ano em 2015. Gostou? Tem mais.

Venezuela: O terror dos empresários

Em um país onde o presidente declaradamente ataca os empresários, ninguém quer botar um centavo na economia. Prova disso é que nos dois primeiros mandatos de Hugo Chavez, o número de empresas abertas na Venezuela caiu de 17.000 para 8.000. A fragilidade das instituições no país é tão gritante que, simplesmente por ser do Tio Sam, o presidente mandou fechar as 80 unidades do Mc Donalds que operavam no país. Ah, por decreto abaixaram as portas também das quatro fábricas da Coca-Cola no país. Não se esqueçam das estatizações, que roubaram dos empresários não só jornais e emissoras de televisão, mas inúmeros outros negócios, sejam porque eles pertenciam a críticos ao regime, ou simplesmente porque eram lucrativos.

Gostou? Tem mais. Por lei, é proibido a qualquer empresário ou indivíduo venezuelano lucrar mais de 30%. Por mais que os populistas odeiem, a economia não pode ser alterada com discursos, e nos dois primeiros mandatos do Hugo Chavez a classe média caiu 57% e o número de pobres aumentou 18%. Não há só uma crise econômica na Venezuela, mas uma crise social e humanitária.

A falta de alimentos e remédios na Venezuela

Com 96% de sua economia apoiada em uma fonte de renda que caiu 67% em um ano, e importando 70% dos alimentos e quase 100% dos remédios, o óbvio simplesmente aconteceu. O governo, responsável por tudo na Venezuela, não teve mais dinheiro para comprar alimentos, itens de necessidade básica e muito menos alimentos. Você deve ter visto a cena abaixo diversas vezes nos noticiários.

Crise dos alimentos na Venezuela
Crise na Venezuela: população faz fila para comprar em supermercados vazios
prateleiras vazias na Venezuela
Prateleiras dos mercados na Venezuela vivem vazias

A crise econômica na Venezuela levou a situações absurdas, como a falta de papel higiênico, absorventes, camisinhas, óleo, arroz, açúcar, leite e muitos outros itens de primeira necessidade. E os 30% de alimentos que não são importados? São produzidos pelo governo e, sendo assim, são sujeitos à corrupção que domina os órgãos públicos venezuelanos. A Polar, maior produtora de alimentos do país, sofreu 150 inspeções governamentais em 2015, todas para garantir que ela estava de fato fabricando alguma coisa. Ela estava. Mas mesmo assim, os caminhões saíam carregados das fábricas e chegavam vazios aos supermercados.

A situação dos remédios é tão complicada quanto. Falta de tudo, de medicamentos contra o câncer até o mais simples Paracetamol. O governo diz para o povo que há uma conspiração de governos internacionais para matar os venezuelanos. As fabricantes, como a Medac GmbH, de Hamburgo, responsável pelo Asparaginase, usado no combate à Leucemia, diz que há dois anos o governo não faz um único pedido de remédios.

Com as farmácias vazias, os venezuelanos são obrigados a recorrer ao mercado negro, que aliás se expandiu para todos os setores do país. Ali, por meio do Twitter (conforme imagem abaixo), os venezuelanos compram e vendem remédios, estes oriundos de estoques antigos, trazidos de viagens ao exterior, ou simplesmente falsificados.

Qual a saída para isso? Basta que o governo Maduro decrete Emergência de Saúde, e a ONU e governos internacionais enviarão aviões repletos de medicamentos. Já sem controle do parlamento, que é dominado pela oposição, o sucessor de Hugo Chavez assinaria seu atestado de morte política se fizesse isso. Assim como no Brasil, alguns políticos preferem ver o povo sofrer do que eles mesmos perderem seus empregos.

A crise energética na Venezuela

Assim como o Brasil, a Venezuela apostou suas fichas na produção hídrica de energia. Ao contrário de nós, eles não tinham termoelétricas, reservatórios enormes e dinheiro para gastar. O resultado é um racionamento hediondo que já dura mais de um ano. O governo Maduro acaba de decretar que, para economizar energia, todos os órgãos públicos só funcionarão às segundas e terças-feiras. Além disso, há um blackout automatizado em todos os estabelecimentos comerciais e residências na Venezuela. Por decreto do governo, todos os venezuelanos ficam sem energia por no mínimo quatro horas por dia!

Quem é o culpado? Segundo o governo, é o El Ñino, que fez descer a níveis assustadores o volume de água na barragem de El Guri (sacou? El Ñino e El Guri?), a maior do país, ao menor nível da história. Já o povo, coberto de razão, culpa o governo de não ter apostado em outra matriz energética a tempo.

A crise telefônica e televisiva na Venezuela

Em um país onde tudo é estatal e todos os preços são regulados, não é surpresa que as comunicações sofram, já que é um setor caríssimo de manter, e onde a competição é fundamental. A coisa na Venezuela funciona assim. Os preços são subsidiados, ou seja, uma parte é paga pelo povo e outra pelo governo. Isso faz com que a população tenha a ilusão que os serviços são baratos, quando não são.

A crise na telefonia e na televisão se instaurou por dois motivos. O primeiro foi o calote do governo, que não paga sua “parte” da conta há muitos meses, em uma dívida que já ultrapassa 700 milhões de dólares. Outra parte é a recusa do governo em deixar que as empresas de telefonia (duas privadas e uma estatal) aumente o valor da conta. A Telefonica, depois de muita luta, conseguiu aumentar em 36% seu preço, isso em um ano com inflação de 181%.

Sem dinheiro, as empresas decretaram que não vão mais oferecer aos clientes o serviço de Ligação Internacional. O motivo? Elas devem uma fortuna para empresas internacionais que fornecem esse serviço para elas, e não têm como pagar. Para terem uma ideia da loucura que é o preço na Venezuela, uma ligação de uma hora com os Estados Unidos custa US$ 0,16. Sim, R$ 0,40 por uma hora de DDI. A mesma ligação pela Vivo custa R$ 145,00. Não precisa ser um gênio para ver que essa conta não fecha.

O problema com a televisão é o mesmo. O calote do governo fez com que as empresas não tivessem dinheiro para pagar o licenciamento dos canais estrangeiros, nem mesmo dos nacionais. O resultado é o chuvisco, que domina os inúmeros canais fora do ar. Vale lembrar que todos os aparelhos celulares em circulação e a venda na Venezuela são anteriores a 2013, pois desde então o governo, responsável por isso, não importou nenhuma unidade.

A internet é a próxima. Estimativas apontam que em seis meses não haverá mais internet na Venezuela.

Ou seja, a crise econômica na Venezuela é causada pela irresponsabilidade de um estado inchado, que domina a tudo e a todos, e que se preocupa muito mais com a permanência no poder do que com o bem-estar de seu cidadão.

Resumindo: Lembra quando sua mãe te dizia para não colocar todos os ovos em uma única cesta? A crise econômica na Venezuela é basicamente a mesma coisa. Mas ao invés de ser você quem fez isso, foi o governo de um país inteiro. Os ovos são a economia de todo um país. A cesta é o petróleo, e o infeliz sem comida é o povo, que observa amordaçado ao governo bêbado tropeçar e amassar todos os ovos no chão.

E é assim que você deve se sentir ao saber que tudo isso acontece a 5 mil Km de Brasília, e a menos de um metro de Roraima, estado que faz divisa com a Venezuela. Mas que mesmo assim, nosso governo insiste em elogiar e defender o governo de lá:

Crise econômica na Venezuela devasta o povo
Vergonha, vergonha, vergonha

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

3 COMENTÁRIOS

  1. Fantástica matéria, finalmente consegui compreender o que acontece na Venezuela. Fico triste pelos venezuelanos, tenho amigos lá que sofrem com tudo o que está acontecendo, mas acredito que a primeira solução seria acabar com um governo centralista, depois fortificar as instituições que dão segurança a quem investe e, finalmente, deixar que o capital transforme a Venezuela, que é um país lindo, em um país produtivo.

    • Brilhante comentário, Nicácio! A Venezuela precisa de um mercado protagonista, não de um governo centralizador, que tende a olhar o próprio umbigo e esquecer as necessidades dos outros.

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