A economia de Brasília e do Distrito Federal

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Entenda a economia de Brasília e do Distrito Federal
Entenda a economia de Brasília e do Distrito Federal

Dizem que Brasília saiu de um sonho de D. Bosco, o qual previu que entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul estaria localizada, ao redor de um lago, uma terra de riquezas impensáveis. Mito ou verdade, essa história é repetida a todas as novas gerações de brasilienses e ajuda a criar, nos nativos e nos forasteiros, essa aura de lugar especial e acessível apenas a uma pequena parcela de escolhidos. O que não deixa de ser verdade, uma vez que a cidade foi criada para abrigar a capital do país. Pensada para receber o primeiro escalão do poder governamental, o que dita os rumos que o país vai tomar, Brasília desde o início esteve envolta em controvérsias que vão de antes da construção até os impactos financeiros que, dizem, o Brasil paga até hoje. Sendo assim, vamos hoje abordar um tema completamente desconhecido ao grande público: a economia de Brasília. Sim, o Distrito Federal é mais do que a capital federal, mas ela é tão importante que invariavelmente acabam se confundindo e se misturando.

Não vou me alongar sobre a eleição de 1955, pontapé inicial para a construção de Brasília. Sobre ela basta dizer que Juscelino Kubitschek venceu usando o slogan “50 anos em 5”, o que deu a seu governo o caráter desenvolvimentista que o país precisava naquele momento. Durante os anos de seu governo o Brasil teve enorme crescimento econômico e uma aparente tranquilidade política, marca do período populista. Empresas multinacionais se estabeleceram aqui, a indústria teve muitos incentivos do governo, outras grandes obras de infraestrutura e logística foram executadas e enfim os brasileiros puderam comprar carros, aparelhos de televisão e outros bens de consumo que não eram de acesso à população.

Teria sido um período muito bom para o Brasil, não fossem as graves denúncias de corrupção envolvendo o favorecimento a empreiteiros amigos do presidente. Essas denúncias fizeram com que ele fosse convidado a depor em diversas ocasiões, o que não abalou a aura mística que o envolvia. Seria engraçado, se não fosse trágico, mas infelizmente a história se repete e não foi retirada dos jornais da semana passada e, apenas para deixar claro, estamos falando de JK, o Presidente Bossa Nova, e não de Lula, o Filho do Brasil.

Juscelino Kubitschek em frente ao Palácio do Planalto. Foto: A História

É difícil para quem nunca esteve no Distrito Federal entender sua distribuição político-geográfica. Não é estado, não tem municípios, não tem prefeitos e vereadores, logo a lógica do restante do país não se aplica ali. É preciso deixar claro que quando se fala “Brasília” ou “Distrito Federal” está se falando da mesma coisa: a pequena área semelhante a um retângulo localizada no meio do estado do Goiás. O que existe no Distrito Federal, ou Brasília, são 31 regiões administrativas que descentralizam o governo local. Uma dessas regiões é o Plano Piloto, onde se encontram a Esplanada dos Ministérios, Praça do Buriti, Palácio da Alvorada, Granja do Torto, 124 embaixadas estrangeiras, e muito mais. Normalmente é essa a região administrativa à qual se referem nos noticiários quando dizem que “o clima está tenso em Brasília após mais uma fase da Operação Lava-Jato”.

Patrimônio Cultural da Humanidade, Brasília é até hoje a única cidade do mundo a ser projetada, construída e tombada no mesmo século. É também o primeiro monumento moderno a ser incluído nos bens materiais da humanidade e, com 112,5 km², é também o maior. Apesar de orgulho para os cidadãos, esse tombamento levanta questões muito importantes sobre o ordenamento urbano do Distrito Federal, que tem entre um dos seus mais graves problemas estruturais a especulação imobiliária e grilagem de terras.

Projetada para abrigar apenas os funcionários públicos e suas famílias, o DF vem crescendo em ritmo acelerado. O IBGE estima que este teve o maior crescimento populacional do país e uma de suas satélites, a Ceilândia, é maior do que 42 municípios brasileiros, inclusive Vitória, Florianópolis e Palmas. Esse crescimento deixa exposto sérios problemas nos serviços públicos prestados à população, especialmente no que diz respeito à segurança pública, saúde e transportes.

Economia de Brasília

A administração pública é sem dúvida o maior componente do PIB da cidade, mesmo com avanços significativos em outras áreas econômicas. Até mesmo por sua origem, a cidade se concentra em torno dos centros administrativos e de serviço público do Plano Piloto, mas já é possível observar que a cidade esconde outras possibilidades, como a grande representatividade da indústria farmacêutica e de fabricação de móveis. Os serviços de comunicação também são muito importantes para a economia do município, uma vez que os acontecimentos que repercutem por todo o país, normalmente, têm início ali.

O Distrito Federal é um lugar de contrastes e extremos. Ao mesmo tempo em que tem uma das populações mais bem qualificadas do Brasil, graças aos muito disputados concursos públicos, é também um dos que menos atendem o Plano Nacional de Educação e continua mantendo as crianças fora da pré-escola.  Em que pese o fato da qualidade de vida ser a maior do país e uma das mais altas do mundo, aspectos essenciais para ganhar esse título ainda não estão acessíveis à toda a população. A falta de acesso ao saneamento básico, eletricidade, escolas públicas, lazer e segurança são motivo de vergonha para o brasiliense que vive e respira o poder.

A Unesco declara que a cidade é um museu a céu aberto e, para os apaixonados por arquitetura, algumas obras das mais belas de Niemeyer estão a distância de um passo. A cidade recebe mais de um milhão de visitantes por ano, o que compõe uma fatia considerável do PIB do DF. Além da arquitetura e comitivas governamentais de todo o mundo, a cidade atrai ecoturistas, espiritualistas e religiosos em visita às cidades nos arredores e também muitos executivos.

Viver em Brasília é um experiência única, segundo dizem, o que podemos comprovar por uma das maiores contribuições da cidade ao país e não é possível mensurar: sua produção cultural. A cidade que apresentou ao Brasil Ney Matogrosso, Oswaldo Montenegro e já foi conhecida como Capital do Rock, uma vez que foi berço da maior parte das bandas dos anos 80, entretanto é mais eclética do que isso. O hip-hop que mostra o que acontece no DF além do Congresso, é o principal “produto de exportação” atualmente, mas é possível descobrir pedaços do que é a verdadeira cidade nos sambas na Aruc, nos espaços culturais em Taguatinga, nos repentistas nas feiras espalhadas por todo o DF e durante as apresentações do Clube do Choro.

Nós, de fora, achamos que todos respiram política em Brasília e não é bem assim. Como já disse anteriormente a política é para os iniciados e um dos maiores segredos da cidade, apesar de acontecer a portas fechadas, é de acesso universal e gratuito: está nos ensaios da Orquestra Sinfônica de Brasília que, como quase tudo em Brasília, acontece quase na superfície e em meio ao caos.

Resumindo: Brasília e o DF são muito dependentes economicamente do poder público, mas elas também são a razão da força e importância que o centro-oeste brasileiro tem atualmente, e tentar negar sua importância para a economia e história do Brasil é impossível, e é assim que você deve se sentir ao saber que embora seja lar de muita picaretagem, o DF tem sua razão de existir:


Este texto do faz parte de uma série semanal sobre a economia de cada um dos estados de nossa federação: o que produzem, quanto produzem e como funciona o dindin em todos os cantinhos do nosso Brasil. A cada texto publicado, atualizaremos este post e colocaremos o link para o conteúdo aqui.

  1. O PIB do Brasil
  2. Espírito Santo
  3. Tocantins
  4. Minas Gerais
  5. Santa Catarina
  6. Brasília/Distrito Federal
  7. Goiás

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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