Mariana: a morte de um rio e de uma sociedade

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Bombeiro tenta consolar um cavalo condenado à morte na lama de Mariana

O desastre de Mariana aconteceu no dia 5 de novembro de 2015: uma barragem da mineradora Samarco em Minas Gerais, conhecida como Barragem do Fundão, rompeu e derramou 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, água e lama no Rio Doce. Os dejetos se transformaram em uma onda que percorreu 77 quilômetros, levando junto tudo que encontrou no caminho: 35 cidades, 207 casas das 251 existentes, muitas pessoas (muitas ainda desaparecidas mesmo 6 meses depois) e toda fauna e flora que vivia ali antes desse crime ambiental irreparável.

Sim, o que aconteceu foi um crime, pois fica difícil classificar isso como um acidente. Basta uma breve pesquisa pra ver como essas mineradoras lucram prestando um serviço porco. Há que se considerar também todo interesse de ganho por trás disso. Que as Relações Públicas da Samarco pinte como quiser, mas o que aconteceu em Mariana foi um crime, um homicídio, onde mataram o pobre do Rio Doce, a principal bacia hidrográfica da região sudeste do país. Ao desconhecido, o enredo parece até um roteiro de filme hollywoodiano de desastre, daqueles que renderia um bom lucro no cinema. Infelizmente, esse filme é baseado em fatos reais.

Por mais que se calcule um montante financeiro sobre a destruição de tudo isso, sentir e ter a noção – por mínima que seja – de tudo que aconteceu (e ainda acontece) é ainda muito mais doloroso e desesperador. O Rio Doce tem 853 quilômetros de extensão e, ao longo de cada metro d’água, matava sede e fome de 222 municípios, com uma população de mais de 3 milhões de pessoas que dependia do rio para ter água em suas torneiras. Isso só pra começar. A fauna e a flora foram completamente destruídas. Segundo biólogos,  a onda de lama ainda serviu como uma “pavimentação” ou seja, a lama secou e criou uma casca tão dura quanto cimento, dificultando ainda mais que alguém se apegue àquele fio de esperança de que algo renasça dali.

Leia sobre o aspecto econômico de Mariana aqui

Os relatos das testemunhas são os mais tristes. Uma moradora de Gesteira, povoado que em 1979 já fugiu de uma inundação, disse que a lama não matou só pessoas, mas sepultou também suas histórias. A lama mudou a natureza para pior e muita gente mergulhou em depressão. Um outro morador, um senhor de 63 anos de Paracatu de Baixo, decidiu voltar para casa quando a lama finalmente secou. Segundo ele, além da tristeza há o medo, não de assombração, mas do silêncio. Em Paracatu não existe absolutamente mais nada. Não há luz, som ou ruído de bicho. Aquela terra está morta.

Isso é apenas alguns dos milhões dos relatos das pessoas que ali criaram suas raízes, vidas e histórias. A verdade é que ainda há muitas perguntas sem repostas, há culpados sem punição e muito mais inocentes, cujo único patrimônio hoje é a dolorosa necessidade de resignação. Há entre eles um elemento em comum, a certeza de que nunca mais nada será como antes, e isso vai além de números, de planilhas que listam o quanto foi perdido e seus valores.

Não há dinheiro no mundo que pague a destruição e o trauma causado. Não só pras pessoas, mas de tudo em volta que um dia foi vida ali. O tempo não cura tudo e, mesmo 6 meses depois, ainda não há como definir como será o processo de recuperação, se é que isso é mesmo possível, ou se realmente os responsáveis e a justiça estejam de fato empenhados em fazer algo. Talvez estejam esperando que tudo caia no esquecimento, e esse seria um crime em que todos seriamos culpados.

Lembrar da tragédia de Mariana é um dever meu, seu e de todo o mundo, mesmo daqueles que não estão diretamente ligados à região. Esquecer Mariana seria o mesmo que contribuir pro desastre. Não esqueçam os nomes dos responsáveis diretos e indiretos deste caso. Não esqueçam dos nomes dos deputados de Minas que, ao votar pelo impeachment da presidente citaram a família, o cachorro o vizinho e até Deus, mas nenhum, absolutamente nenhum, se lembrou de Mariana. Não podemos esquecer. Devemos sempre cobrar. Essa tragédia é de todos nós.

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ppJuliana Esgalha é corredora, wanderluster, Cat Lady, além de se ocupar diariamente com as notícias do mundo  e com o blog www.shejulis.com. Siga no Twitter e no Facebook

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