Desastre de Mariana: a morte de um rio e de uma economia

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O Desastre de Mariana ficará para sempre na memória dos brasileiros. O rompimento da barragem de rejeitos de mineração da empresa Samarco, uma operação conjunta da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, consegui de uma vez só cometer uma chacina ambiental, humana e econômica.

Se você não entende muito do assunto, vamos resumir brevemente. A chamada Barragem do Fundão, a assassina, era responsável por segurar uma imensidão de entulhos provenientes da exploração de minérios feitas pela Samarco na região. Quando a barragem rompeu, toda essa lama e poluição represada desceu o Rio Doce. As consequências diretas foram a destruição de toda vida no rio, que literalmente morreu com a passagem da lama, e também a destruição de cidades inteiras às margens do Rio Doce. Sabe uma enchente em sua cidade? Agora imagina um rio que dobra de força e tamanho, levando tudo em seu caminho. Isso é uma fração do que foi Mariana.

Além de dizimar a vida de milhões (ou bilhões?) de peixes, anfíbios e mamíferos, todos subsistindo graças ao rio, a Samarco conseguiu também aniquilar o ganha pão de milhões de pessoas que viviam no entorno da desgraça. Somente para comparação, a lama originada na Barragem do Fundão, no subdistrito de Bento Rodrigues, chegou até o litoral do Espírito Santo. O rastro da destruição ultrapassa os 100 KM.

Existem três tipos de vitimas econômicas nessa história:

  1. Diretas
    Além dos funcionários da Samarco e fornecedores na região, que de uma hora para outra ficaram sem sustento, milhares de famílias tiravam seu sustento diretamente das águas do Rio Doce. Em locais onde a indústria pesada é inexistente, boa parte da atividade financeira da população gira em torno do extrativismo, que é a exploração de recursos disponibilizados pelo meio-ambiente. No caso da região de Mariana, quem não trabalha diretamente para a mineradora, ou em outros setores  como o de serviço, por exemplo, tirava seu sustento explorando o rio através da pescaria, extração de areia em seu leito ou mineração amadora, como o caso dos mergulhadores.  Há também as criações de animais ou os agricultores, que produzem o que é consumido pela região nos pequenos mercados municipais.(OBS: É importante sempre levar em consideração que com o rompimento, não foi só a economia de Mariana que foi obliterada, mas também uma infinidade de municípios que não tinha nenhuma ligação com a mineradora, e que sequer recebiam incentivos fiscais do governo ou retribuições ambientais da companhia).
  2. Indiretas
    Atraídos pelo capital economico gerado por grandes empresas, comerciantes e pequenos negócios florescem nessas pequenas cidades que abrigam esses empreendimentos multibilionário. Assim como na cidade de São João da Barra, que entrou em crise depois da falência do Império X do Eike Batista, o desemprego na região de Mariana preocupa. Além de perderem tudo com a destruição da barragem, essas pessoas não tem o mínimo aporte para recomeçar.
  3. Oficiais
    As grandes corporações não sustentam só pessoas, mas também cidades. Com o rompimento da Fundão, todas as atividades da Samarco em Mariana foram paralisadas. Isso deixou o prefeito da cidade em desespero. Mesmo parecendo maluco ao defender a continuação da mineração, o político deixou claro a dimensão da dependência das pessoas em relação a companhia. 1.800 brasileiros comiam o dinheiro da empresa diretamente, enquanto outras 2.000 o faziam de forma indireta. Como a operação da Samarco prejudica o meio-ambiente, a empresa deve pagar mensalmente uma contribuição ao chamado CFEM, a Contribuição Financeira pela Exploração de Recursos. Somente a cidade de Mariana recebia mensalmente R$ 3,2 milhões da Samarco. Vocês podem imaginar o peso disso no orçamento de uma cidade de 58 mil habitantes.

Quem mora ou já morou no litoral certamente já usou uma piadinha no emprego. “Se tudo der errado, compro uma vara e vou pescar para comer”. No caso de Mariana, isso é impossível. Simeão Rodrigues, um comerciante que tirava seu sustento há 14 anos diretamente das águas do Rio Doce, foi muito claro a esse respeito em uma entrevista ao Fantástico: “Os peixes sumiram. Dói no fundo do coração a gente falar, você vê que eu estou até engasgando. É difícil pra gente…”

A inconsequência e o pouco caso da Samarco no Desastre de Mariana não afetaram só os “caipiras” do interior. Para terem ideia, o IBGE considerou que nem mesmo a greve dos petroleiros em 2015 foi tão onerosa à economia brasileira. Em um ambiente altamente globalizado, as consequências e efeitos são todos interligados, e a irresponsabilidade de uns custa muito caro a milhões de outros.

A lama que correu com o rompimento da Barragem do Fundão, além de arrasar Mariana, paralisou por completo a geração de energia na Usina de Candonga, responsável por boa parte da arrecadação das cidades de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado. No município de Rio Doce, por exemplo, os recursos advindos da Samarco custeiam o pagamento de combustível da área de saúde e da área de educação, transporte escolar, além de pagamento de bolsa de estudo de todos os estudantes da rede municipal.

Atualmente a história se encontra neste pé: Além de uma multa de 200 milhões imposta pelo Ibama (somente como comparação, a BP pagou 20 BILHÕES pelo vazamento de óleo no México), nada mais se fala no assunto. O governo segue investigando e a empresa segue na imprensa, dizendo a todos que está auxiliando as vítimas que não podem mais trabalhar graças à total ineficiência dela. Se eu acredito nisso? Não sei, mas uma busca na internet mostra que não é bem assim. Nas palavras de um desses trabalhadores, que hoje não tem como ganhar um único tostão honestamente: “É muito prejuízo, né? Nós não recebemos benefício nenhum, de nada, até agora. Por enquanto está isso aí que vocês estão vendo. Os canos ‘tudo’ soterrado. Eles vêm, conversam, falam que vão resolver, alguém vai procurar e até hoje, nada”.

O maior desastre natural do Brasil segue o script de qualquer “escândalo” público. O governo finge que investiga, e a empresa finge que faz alguma coisa. Enquanto isso, além do genocídio ecológico irremediável, milhares de pessoas seguem sem ter o que comer porque a Samarco fez um serviço porco.

Resumindo: É assim que você deve se sentir ao ler sobre o pouco caso de algumas pessoas não só com o meio-ambiente, mas também com o futuro de uma série de cidades:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

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