Renda Zero: como vive quem não tem almoço para vender e pagar a janta

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Renda de quem não tem renda
Como sobrevivem os mendigos, os famosos moradores de rua.

Eu tenho uma “empresa” de prestação de serviços. Seu patrimônio é: uma sede (minha casa); um computador (meu); uma assinatura de internet (a de casa); meu celular, meu certificado digital de Pessoa Jurídica, meus textos, minhas fotos e gravações.

Quanto estou sem emprego (o que acontece no mínimo por oito meses a cada dois anos, já que minhas principais atividades profissionais são incompatíveis com uma candidatura a cargo eletivo), fica difícil “declarar renda”. Minha empresa (isto é, eu) tem de dizer que eu costumo receber tanto por mês – mas esse tanto é tão, mas tão irregular e incerto…

Imagine quem não tem nem uma “empresa” merreca como a minha. E, claro, que nunca viu assinatura na Carteira de Trabalho, não é “profissional liberal”, “autônomo”, sócio, acionista, herdeiro etc. Para ser mais específico, não tem NENHUMA garantia ou mesmo expectativa de “renda”.

Como vive o morador de rua sem renda

Da solidariedade dos outros, de sua própria cara-de-pau, de alguma habilidade ou capacidade de trabalho, de um benefício pingado todo mês.

Há dois anos, participei da criação da Associação CASA Bodisatva, dedicada ao trabalho com moradores de rua. Convivemos com pessoas sem-teto, sem chão, sem paredes, sem endereço sem cozinha e chuveiro e banheiro e tanque e sem renda.

“Bolsa Nóia”

Muitos deles recebem o que (eles mesmos) chamam, sarcasticamente de “Bolsa Nóia”, em seu humor tipicamente autodepreciativo.

Trata-se de um benefício destinado a pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, exatamente como eles. Que, a bem da verdade, serve mais como um ponto de referência no calendário (“dia 28 sai meu dinheiro”) do que auxílio financeiro propriamente dito. Afinal, por quanto tempo se sobrevive com R$ 85,00??

Morador de rua vive para o dia (“Seize the day”!!). Eles pedem trocados no farol e compram uma pinga para abrir os trabalhos (o gorote, o “barrigudinha”, que é uma garrafa de plástico encontrada em qualquer mercadinho, custa R$ 3,29. Até pouco tempo atrás era R$ 2,50, mas a inflação não poupa ninguém). Colam em uma padaria ou balcão de bar e pedem para alguém pagar o café e o pão-na-chapa. Aceitam coxinha e tubaína, misto quente, enroladinho de salsicha.

Na hora do almoço, juntam mais uns trocados, procuram as tábuas para fazer fogo e compram um pedaço de carne. Batata, cebola, alho, tomate etc vêm de doação – o acordo é feito direto com os funcionários dos mercados, que separam para eles os perecíveis que seriam descartados. Mais cedo ou mais tarde pinta um marmitex com a sobra do almoço, uma sacolinha com compras feitas especialmente para eles (“trouxe esse arroz pra vocês”), uma cesta básica trazida no porta-malas de um “irmão” (evangélico).

Domingo é o dia mais difícil

Escritórios vazios, comércio fechado, movimento fraco para pedir trocado e para contar com um almoço doado.

Menos mal que pedir não é o único jeito. Olhar carro estacionado e passar rodinho no para-brisa são formas honestas de trabalho (ou não??). Vender água no farol, também.

Carroça não é para qualquer um

Primeiro porque uma carroça custa cerca de R$ 500,00 em São Paulo, então obter uma depende de doação ou “financiamento”, mais ou menos assim: “te pago a carroça e você me paga aos poucos”.

Segundo, porque 300kg é o mínimo que o cidadão precisa suportar para a viagem valer a pena. Conheço uma carroceira que puxa 500kg em dias normais, mas às vezes passa disso.

65 latinhas dão 1kg. O kg paga em torno de R$ 3,00 no ferro-velho. Dia de show ou jogo de futebol é dia de “estourar no norte”, encher um carrinho de supermercado ou várias sacolas enormes e ganhar o suficiente para uma feijoada, um cozido ou uma peixada com cerveja ou um litrão, isto é, uma pinga melhor que a barrigudinha.

No dia-a-dia, o que sustenta mesmo é o papelão, uma ou outra peça de ferro e os serviços de carreto – 50 mangos para retirar entulho, um fogão ou um sofá. E o bom de ser carroceiro é receber doações pelo caminho ou encontrar aquelas coisas “novinhas!” que são deixadas na calçada justamente porque alguém vai passar pra levar (liquidificador, armário, frigobar).

Morador de rua não rouba celular

(isso é coisa de “nóia”, que não perdoa nem morador de rua).

Mas o que não tem dono e não faz mal a ninguém, como… peça de cemitério, pode ser. Conheço uma doce criatura, uma das pessoas mais adoráveis que já vi, que “tem passagem” (foi preso, passa no Fórum a cada 3 meses pra assinar a carteirinha da condicional) porque roubou a porta de metal de um túmulo. Se envergonha disso, mas naquela época “tava loucão”.

Tem morador de rua que é pedreiro, pintor, funileiro, jardineiro, faz lavagem e polimento de carro. Algumas pessoas têm atividade fixa, vão e voltam do serviço todo dia. Esses costumam mandar um dinheirinho todo mês para os filhos (quase todos têm filhos).

Ônibus, mais cedo ou mais tarde eles conseguem pegar, porque sempre aparece um motorista generoso. Se, além de generoso, for mais desencanado, deixa entrar para vender chocolate ou chiclete e descer no ponto seguinte. “Vai com Deus, irmão”!

Aluguel para morador de rua

Mas “vocês não conseguem pagar um aluguel?”, perguntou outro dia, inconformada, uma assistente social a um grupo de conhecidos meus. Expliquei para ela que um quarto de aluguel bem ruinzinho nos arredores do Minhocão não sai por menos de R$ 400,00. Um melhorzinho custa R$ 600,00 por mês. “Ah, mas eles querem morar aqui perto? Cada um tem de morar onde tem condições”.

E assim, sem entender que, para esticar a cabeça acima da linha de sobrevivência, eles precisam estar perto dos carros para olhar com para-brisas para lavar; das pessoas com sede nos ônibus e trens; das obras com restos de tábua para carregar; dos restaurantes com embalagem para viagem e dos condomínios com gente perdulária ou generosa; dos comércios que descartam papelão em grande volume e das casas de show onde se bebe muita cerveja; a assistente social espera que eles achem uma pensão barata bem longe do centro, ou dividam o aluguel de uma casinha com dois cômodos em uma cidade-dormitório onde morar é bem mais barato.

Além da distância imensa de tudo que permite a sobrevivência, o aluguel tem outro problema: exige comprovação de renda. Que renda?

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Soninha é jornalista, foi duas vezes candidata à Prefeitura de São Paulo pelo PPS (2008 e 2012), subprefeita da Lapa (2009) e vereadora em São Paulo (2005-2008). Em 2014, concorreu para deputada federal por São Paulo. Conheça o Facebook da Soninha.

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