Como era viver na hiperinflação do Brasil

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Entenda como era a vida do brasileira sob a hiperinflação

A nova geração não faz ideia do que o nosso país já viveu. Na década de 80 e início de 90, nós tivemos os mais altos índices inflacionários já vistos. Podemos assegurar que chegamos a 80% ao mês. Isso mesmo, não é ao ano, é ao mês. As famílias, muitas vezes, não sabiam quanto o produto comprado hoje custaria amanhã.

A era da tecnologia não existia. Quem viveu neste tempo se lembra muito bem de maquininhas mecânicas que eram usadas para remarcar preços e que faziam um barulho peculiar, que só de lembrar dá medo. Comprávamos produtos, às vezes, com 4 ou 5 etiquetas sobrepostas, cada uma com um preço marcado.

A Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) possui estatísticas que demonstram que a inflação Brasil entre 1980 e 1989 chegou a 233,5% em média, por ano. Segundo dados do IGP-DI, a inflação entre 1964 e 1994 é de 1.302.442.989.947.180,00%, ou  1 quatrilhão, 302 trilhões e 442 bilhões por cento. É pouco?

Durante o governo militar, houve um aumento significativo de gastos públicos e consequentemente da dívida externa, somados a uma grande crise mundial causada pelo aumento dos preços de petróleo.

O problema foi agravado na década de 70 quando, para compensar os gastos públicos, foram tomados grandes financiamentos internacionais. Então, já entramos na década de 80 com uma dívida externa alta e nossa indústria prejudicada.

No Brasil, as importações eram limitadíssimas e não havia a abertura de mercado que temos hoje, que gerassem concorrência e poder de escolha ao consumidor.

Nesta época, a crise da hiperinflação foi agravada pela desvalorização da nossa moeda e pela disponibilização de mais dinheiro em circulação, medida tomada para manter o país competitivo.

Quem viveu esses cerca de 15 anos de inflação acima de dois dígitos e de correção monetária, lembra que até os alimentos sumiam das prateleiras porque o consumidor perdia rapidamente o poder de compra e precisava estocar; os salários eram reajustados mensalmente, de acordo com a inflação divulgada do mês anterior, o que criava mais um problema: ela era repassada para o mês seguinte, criando uma onda crescente que virou um tsunami.

Como sempre, os mais pobres eram os que mais sofriam com tudo isso, com uma dificuldade imensa em se proteger de perdas através de aplicações que acompanhassem a desvalorização da nossa moeda. Isso, se houvesse como guardar alguma parte do seu salário para aplicar.

Em 1986, para se ter ideia, houve o Plano Cruzado. Com ele, o governo congelou preços e o Brasil simplesmente ficou sem carne nas prateleiras. Foi uma época muito difícil.

Assista abaixo algumas propagandas de televisão da época da hiperinflação. Repare nos preços dos produtos e compare com o que você paga hoje. É ou não é assustador?

Em 1989 houve uma tentativa de reformulação do plano, com o governo cortando zeros da moeda, subindo juros. O que acontece nesses casos? Aconteceu o que acontece nestes casos: crédito desapareceu. Foi o chamado Cruzado Novo.

Já em 90, imaginem… a gasolina era caríssima. Houve um aumento de 50%, de uma única vez. Quem viveu esta época se lembra bem de imagens das filas quilométricas em postos, estampando os jornais.

Finalmente, após mais de 15 anos de hiperinflação e vários planos econômicos fracassados, veio o Plano Real, que conseguiu estabilizar o país monetariamente, contendo as taxas de inflação de 5000% ao ano (julho/93 a junho/94)! A nova moeda, que foi a quinta em uma década, passou-se a chamar Real.

Com o Real, o governo teve como intenção inicial o controle das contas públicas, fazendo os cortes necessários de gastos, mas também aumentando impostos e, principalmente, privatizando estatais que davam prejuízo. Conseguiu assim que a inflação passada deixasse de corrigir preços no automático.

Os detalhes de como funcionou o Plano Real podemos deixar para outro Econoleigo, mas quero pegar como exemplo, o impacto no bolso do consumidor com a medida. A moeda anterior era o Cruzeiro Real (CR$). Foi estabelecida uma taxa de conversão de valores, a URV, que correspondia a CR$ 2.750,00. Então, CR$ 10.000,00 equivaliam a R$ 4,00, o que dava para comprar um quilo de carne de primeira ou 6 litros de leite, por exemplo.

Depois do Real, o Brasil simplesmente teve uma mudança brusca em muitas políticas, como a abertura das importações que foi muito importante para criar as âncoras monetárias e cambiais. A âncora cambial fixou o valor da moeda e barateou os custos dos produtos importados. A monetária controlava o volume de dinheiro que estaria em circulação, o que controlava os preços. O governo obrigou os bancos a terem uma reserva, ou seja: uma parte dos recursos deles teriam de ficar guardados pelo Banco Central.

Em 1999 essas foram trocadas pelas metas de inflação, onde as instituições monetárias se comprometem a cumprir metas estabelecidas para o ano vindouro. Uma delas é a Selic, que já falamos várias vezes neste blog: aumenta juros, deixa o dinheiro mais caro, segura o consumo.

Embora o Brasil hoje esteja atravessando o período de crise, ainda é muito, muito cedo para falar na volta da hiperinflação. Embora a inflação esteja subindo, ela ainda está no horizonte tradicional dos países em desenvolvimento. Não há possibilidade de voltarmos ao cenário pré-Real, não se as coisas continuarem como estão.

Resumindo: A hiperinflação no Brasil é um cenário muito distante e improvável, mas se você viveu os anos 80 e está com medo de ver isso de volta, saiba que não está sozinho, e se você não sabe o que é viver a hiperinflação e ficou com medo ao ler este texto, é assim que você deve se sentir:

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O Econoleigo é um site sem “economês”, para aqueles que não conhecem essa língua. É por mim, Rodrigo Teixeira, alguém até então pouco interessado em números, mas agora fascinado em transformar economia em algo que até eu mesmo consiga compreender.

10 COMENTÁRIOS

  1. aos que não conheceram essa época…e aos que passaram por ela…
    NÃO SE PREOCUPEM…O PT…ESTA TRAZENDO TUDO ISSO DE VOLTA….

  2. Muito bom, muito obrigado pela informação, pelo conhecimento! Peço licença para divulgar a sua pesquisa em minha página do facebook com a devida citação.

  3. a hipir inflaçao e algo , ai sim , o bicho vai pegar.com real possibilidade de retornar. Outra possibilidade e o calote da divida

  4. na epoca citada tinha inflação muito alta sim mas não tinha o desemprego de agora, não tinha a sujeira politica de hoje, tinha o gatilho salarial que corrigia o salario quando em quando, tinha o over uma aplicação que se ganhava dinheiro da noite para o dia, e tinhamos esperança no futuro, agora o pais esta destruido e não temos nada disso, o pt destruiu o pais sem uso de armas mas com roubo de patrimonio publico, da educação da saude e da dignidade da nação

    • Talvez o desemprego nas grandes metrópoles não fosse tão alto, mas no interior do país a situação era bem diferente. Lá, fora das luzes da imprensa, havia o chamado sub-emprego ou trabalho análogo ao regime de escravidão. Abs!

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