O brasileiro e a vergonha de ser rico

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A vergonha de se ter dinheiro e o orgulho da pobreza
A vergonha de se ter dinheiro e o orgulho da pobreza

Existem sete pecados capitais na bíblia: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e soberba. No Brasil, e em diversos países do mundo, existem oito, basta acrescentar a riqueza à lista. Sim, embora ninguém goste de assumir, ter dinheiro em um mundo com desigualdades é motivo de vergonha para quem tem, e raiva para quem quer ter. A vergonha de ser rico e a vergonha de ter dinheiro existem desde que o mundo é mundo, mas o constrangimento aumenta na mesma proporção que as conexões e antenas de celular são erguidas fronteira afora.

Antes da agricultura nossa sociedade era baseada na caça e na coleta, e funcionávamos de forma cooperativista, onde os recursos e os esforços eram divididos. Naquela época o diferencial era a força, e não a riqueza.

Vergonha de ser rico: A origem

A fartura surgiu junto com da agricultura, a partir do momento que uma pessoa passou a produzir mais alimentos que a outra. Em uma sociedade onde não existia dinheiro, ter mais comida que os outros fazia daquela pessoa alguém mais importante, o que aumentava sua importância na sociedade e seu apelo entre as mulheres. Sendo assim, ser rico era bom, e ser pobre era ruim.

Segundo o livro de Simon Shama, “A vergonha da Riqueza – Uma interpretação da cultura holandesa durante a era de ouro“, durante o século 17, a Holanda viveu um período extremo de riqueza, e os burgueses da região prosperaram como nunca. Naquela época a nobreza comprou vasos Ming e tapeçarias importadas, e os trabalhadores do país, mesmo os mais pobres, eram melhores alimentados do que seus pares em outros países. Mesmo assim, em um país extremamente religioso, havia a vergonha e o medo de punição pelo “excesso da abundância”.

Essa mesma vergonha prevalece nos dias de hoje. Quando os amiguinhos de uma criança descobrem que seu pai tem um carro importado, elas o chamam de riquinho e filhinho de papai. Como mecanismo de auto-defesa, a criança tenta justificar a riqueza do pai. Não, ele não é rico, ele é de classe média. Quem tem dinheiro não é ele, e sim seu pai. Os pais não ensinam as crianças a responder que sim, seus pais têm mesmo uma condição financeira melhor, mas aquilo se deve ao trabalho duro e ao estudo. Sim, ele é rico, mas o que ele pode fazer a respeito?

Segundo o governo brasileiro, uma família que ganha em torno de R$ 1.746 por mês é considerado classe média baixa. Ou seja, alguém que volta para casa com meio salário mínimo no final do mês é classe média. Uma família de alta classe alta, ou seja, a elite da elite, ganha em torno de R$ 9.920 por mês. Pergunte alguém com renda de R$ 1.500 se ele é de classe média, e ele vai dizer que não, que ele é pobre, e alguém que ganhe dez mil reais por mês não dirá ser rico. No máximo, classe média alta.

Quer fazer um teste se você ou se um amigo seu tem vergonha da riqueza? Elogie o carro ou apartamento novo dele. Na maioria das vezes a resposta será um “gostou? Comprei financiado” ou “ah, mas é usado”, ou então “é, to ferrado para pagar”. Ninguém responde que sim, o carro é novo, mas que ele ou ela trabalha muito pagar o boleto no final do mês. No Brasil há a cultura do coitadismo, é muito mais bonito pertencer à classe sofredora do que à classe dos remediados, como diria minha avó.

Em todo lugar há a vergonha de ser rico, mas o Brasil é um dos poucos lugares onde ser pobre é motivo de orgulho. Vejam que para a sociedade não é o dinheiro que é ruim, e sim o fato de alguém tê-lo, e não você. Se o brasileiro se preocupasse menos com a riqueza que os outros tem, e se preocupasse mais em tentar obter aquela mesma situação para ele, talvez fossemos um país melhor. Isso e o fim da corrupção, claro.

Muito já foi escrito para explicar a razão pela pobreza do Brasil, tanto no espírito dos brasileiros, como também nas contas bancárias do governo e do povo. Uma das teorias mais recorrentes e com que eu concordo é a religião. No cristianismo, mais precisamente no catolicismo, ter dinheiro é sinônimo de pecado. Como disse Jesus, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico adentrar ao reino dos céus.

Há no Brasil um fenômeno social e econômico chamado de cultura do coitadismo. Em terras brasilianas, da mesma forma que é feio ter dinheiro, é um atributo quase que sexual criticar os mais privilegiados e detentores do capital, mesmo que isso seja feito de um apartamento no Leblon e através de um Macbook que custa três meses do salário de um trabalhador. É o que chamamos de esquerda caviar, o paladino da justiça digital.

Existe uma diferença brutal entre combater a injustiça e a desigualdade ou somente comentar esse fato. A única coisa que acaba com a pobreza é a universalização da educação e a distribuição de riqueza, mas só é possível distribuir algo que existe. Por mais que a esquerda tente acreditar que sim, infelizmente o dinheiro não dá em árvore, e sim a partir de muito trabalho.

Quem ganha salário não fica rico. Esta foi uma das primeiras lições sobre economia que aprendi de um ex-chefe meu. O Brasil só vai virar um país rico quando o emprego público deixar de ser um sonho de consumo. Quando o empreendedorismo virar algo tão atrativo sexualmente quanto a verbologia do paladino das redes sociais. Mas em um país onde empresário é ladrão, vagabundo e egoísta, quem é que vai querer arriscar abrir uma empresa, quando é mais fácil sentar em uma cadeira com rodinhas e mamar nas tetas do governo?

Resumindo: No Brasil é assim, dinheiro na mão é vendaval, mas quando ele está na mão dos outros, ai é pecado, e é assim que você deve se sentir quando sua conta fica positiva no final do mês se você mora em terras Tupiniquins:

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto, que estou pedindo licença para ler em reunião de nossa entidade – Movimento Cívico Renovador, de Curitiba.
    Com um adendo: tenho meditado sobre as lições bíblicas do “camelo passar pelo fundo da agulha”, mas tb, de outra passagem dos Evangelhos: a parábola dos talentos, em Mateus cap. 22,em que Jesus Cristo sanciona a capacidade de empreendedorismo do “servo bom e diligente”.
    De toda forma, até os chineses nominalmente proletários aprenderam, com Deng Xiao Ping, que “enriquecer é glorioso”.
    Sds, Rafael de Lala, jornalista, Curitiba. Pr

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